Depois de começar e terminar Lost in Harmony de apenas um fôlego, não é muito difícil ficarmos cientes daquilo que a nova criação do autor de Valiant Hearts quer. Infelizmente, ficamos também com uma noção inequívoca que não consegue colocar toda essa ambição em prática, tentando um malabarismo de mecânicas em que as partes são melhores que a sua soma.

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Composta por doze capítulos mais um (Eternidade), a narrativa presta-se a contar um trecho da vida de Kaito, um adolescente que tenta desesperadamente acompanhar uma fase complicada de Aya, uma grande amiga sua. Trocando mensagens ao telefone ficamos a saber que Aya está doente, bastante doente. Melhorias e recaídas, medicamentos, esperanças e desilusões, um corrupio de emoções que a obra conta de forma bastante compacta.

O jogo está em português do Brasil, pelo que ninguém terá dificuldade em acompanhar os desenvolvimentos da doença de Aya e o teste que acaba por ser à sua relação com Kaito. Convém salientar que estas secções onde temos apenas que tocar uma vez no ecrã - o jogo foi testado num dispositivo iOS - para que a mensagem seja escrita decorrem no quarto de Kaito e a passagem do tempo é assinalada com o avançar de um calendário pendurado na parede.

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A narrativa é um dos pontos mais marcantes do jogo, não que a escrita seja excecional, mas porque assume alguma coragem na forma como é conduzida o seu desenvolvimento. É uma forma bastante eficaz de fazer passar as emoções, apesar de ficar a sensação que só tinha a beneficiar com uma longevidade mais extensa, mesmo que o arranque e o desfecho fossem os mesmos.

Entrelaçados com estes momentos estão os trechos onde decorre a jogabilidade propriamente dita. O jogo descreve-os como "Sonhos" e estão estruturados a complementar a situação que a narrativa acabou de revelar. Por exemplo, aproximadamente a metade do progresso, jogamos um cenário que se propõe a mostrar o enorme fluxo de informação a que as personagens estão sujeitas. Apelidado de "Sobredose", o nível decorre com um pano de fundo cibernético, cheio de peças de Tetris, ícones do Twitter, da caixa de email, do facebook, e pedidos de amizade.

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Alguns níveis são mais inspirados que outros, contudo a jogabilidade é transversal a todos eles. Lost in Harmony mistura elementos dos jogos de ritmo com endless runners, obrigando o jogador a desviar-se dos obstáculos que aparecem à nossa frente ou vindos de trás, assim como deslizar os dedos por vários ícones que dependem do ritmo da música. O resultado são alguns momentos inspirados, mas também muitos que pecam por não serem homogéneos.

Nunca controlamos a velocidade de Kaito, que se desloca pelos cenários de skate e com Aya às suas cavalitas, mas parece que estamos a participar em dois jogos ao mesmo tempo, ou seja, temos que ritmar o pressionar na parte superior do ecrã estando sempre atentos e prontos a intervir quando a ação nos obriga a tocar na parte inferior e desviar o protagonista para a esquerda ou para a direita e assim escapar aos obstáculos terrestres.

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Raramente senti que o jogo estava a ser injusto apenas para ser mais difícil. Claro que o grau de exigência vai aumentando, introduzindo novas mecânicas como a de pressionar o ícone e acompanhar o seu deslizamento pelo ecrã, mas mesmo tentando a pontuação máxima e recolhendo todos os itens especiais, Lost in Harmony nunca apresentou muitos truques baixos. De salientar quem podem jogá-lo numa segunda dificuldade mais elevada.

Obviamente, para ser um jogo de ritmo tem que haver música, ponto que torna a ser favorável ao jogo. Lost in Harmony oferece vários arranjos de compositores clássicos, temas que já ouvimos incontáveis vezes e que aparecem aqui com uma roupagem nova que, não desrespeitando o legado, enquadram bem como força motriz do jogo. Curiosamente, o mesmo aplicável ao tema que Wyclef Jean compôs propositadamente para a obra.

Novamente, este é também um dos aspetos que só tinha a ganhar com uma longevidade mais alargada, pois certamente permitiria que fossem disponibilizadas mais algumas músicas. Talvez ciente disso, além da secção principal, existe uma secundária designada de "Playtracks da comunidade", onde têm acesso às criações da comunidade que chegam com um catálogo musica que vai de Katy Perry a Skrillex, passando por Coldplay, Pharrell Williams ou por músicas de outros jogos, como Pokémon ou Street Fighter. Podem não ser os vossos géneros preferidos, mas ajudam a variar parte da jogabilidade.

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Além da sonoplastia, o ponto alto do jogo, o grafismo também não desilude. Os cenários são variados entre si e convém não esquecer que quase todos vão-se mutando com o decorrer da jogabilidade, ou seja, enquanto deslizamos com o nosso skate há uma sensação de progressão, de começarmos no ponto A e acabarmos no ponto F, G ou H. Apesar de não primar por uma atenção incansável ao pormenor, o grafismo tem vários apontamentos que enriquecem os cenários e que, pelo menos no telefone onde foi testado, não são sinónimos de quebras na framerate.

Já leram sobre o modo principal e sobre o modo em que Lost in Harmony se abre à comunidade, contudo, existe ainda um terceiro modo em destaque no menu principal. "A Próxima Aventura" afirma que "Ajude-nos a chegar aos 100 mil jogadores para descobrir um novo personagem e sua história". Ou seja, parece haver um investimento da produtora em alargar este universo. Infelizmente, os jogadores que terminarem o jogo e ficarem sedentos de mais conteúdo ainda terão que aguardar bastante: quando esta análise foi escrita o contador marcava 399.

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Como nota de rodapé fica ainda a nota sobre vários itens que foram sendo desbloqueados consoante a minha prestação. Novas pranchas de skate, novos auscultadores, novos bonés e gorros e, finalmente, novas vestes. Além de o poderem desbloquear, por exemplo, apanhando todas esferas de luz num determinado nível, podem também pagar com dinheiro real - 0,99€. Contudo, há um conjunto de itens (um de cada categoria) com o nome de "Vencer" que apoiam este movimento para vencer o cancro.