Ao ler uma antiga crítica ao The Hustler, um filme que Robert Rossen assinou em 1961, deparei-me com três linhas de diálogo que definem quase na perfeição o que se passa com Lost Planet 3:

Bert: Tens talento.

Eddie: Se tenho talento, o que me poderá derrotar?

Bert: Carácter.

Depois de passar algumas horas a progredir em Lost Planet 3, fico com a sensação que a Spark Unlimited, os estúdios a quem a Capcom confiou a produção do terceiro capítulo da série que se estreou com Extreme Condition, um exclusivo Xbox 360 que chegou ao mercado em 2006, tinha talento para muito mais, porém, falta carácter e identidade ao jogo que não demorará muito a ser deglutido pelo manancial de jogos cujo lançamento se aproxima.

Cinquenta anos antes dos acontecimentos do primeiro jogo, vestimos a pele de Jim Peyton, um colonizador que colabora com a NEVEC, uma empresa encarregue de minar o planeta E.D.N. III e de enviar os recursos minerais para o planeta Terra, onde ficou a sua família. Ainda que possa ser apenas mais uma iteração no género de ficção científica com laivos do The Thing, filme de culto realizado por John Carpenter em 1982, o argumento de Lost Planet 3 não se escusa a misturar a vida pessoal de Peyton com o seu trabalho e, obviamente, com os acontecimentos que advêm quando os Akrid resolvem aparecer novamente para fazer frente às intenções dos terráqueos.

A fazer lembrar Dead Space, também aqui existe um forte laço familiar que foi quebrado, ou pelo menos colocado à prova, com a distância que separa o protagonista da sua família, nomeadamente, da sua mulher e da sua filha cujos feitos estão a ser perdidos pelo pai ausente. Apesar de não ser nada inédito - Hollywood adora o drama das relações à distância - ajuda com eficácia a aproximar o jogador daquela trama cujas implicações vão ressoar em muitos de nós, seja pela figura paternal ausente, seja por uma relação amorosa fustigada pelos quilómetros entre as partes interessadas.

Para vermos as cenas de corte vamos ter que eliminar hordas e hordas de inimigos e é aqui que Lost Planet 3 se torna num produto genérico e sem carácter, difícil de enaltecer a sua vontade em desbravar terreno num dos géneros dos videojogos com mais densidade populacional. Lost Planet 3 é um jogo de ação na terceira pessoa com tudo o que isso implica, ou seja, melhoramento de equipamento, mistura de armas de fogo com granadas e confrontos infinitos com inimigos alienígenas e posteriormente com membros da nossa própria espécie. A única caraterística que sai timidamente dos moldes a que estamos habituados é a possibilidade, em alturas que o jogo determina, de controlarmos a nossa faca com o analógico em momentos que oferecem alguma tensão, porém, é muito pouco para um terceiro capítulo de uma série.

Lost Planet 3 não é apenas um jogo de ação na terceira pessoa. A Spark Unlimited delineou generosas partes do nosso caminho com o uso de um robot gigante que dá pelo nome de Utility Rig. Por norma, quando pensamos em confrontos com Mechs, a nossa mente toma por garantido combates épicos travados numa escala grandiosa. Infelizmente, não é isso que acontece no jogo. As emoções fortes prometidas nunca o chegam a ser em boa parte devido à ausência de armas no Utility Rig. Em vez disso, temos à nossa disposição uma broca gigante a fazer lembrar os Big Daddy do primeiro BioShock. A explicação tem alguma lógica: se bem se lembram, somos empregados de uma empresa na indústria mineira, portanto, é natural que o Mech, sendo um produto das suas fileiras, tenha os utensílios propícios a ajudar nas tarefas.

Não só nunca chegamos a sentir a emoção que deveria ser estarmos a comandar um pedaço de engenharia com cinco vezes o nosso tamanho, como a dinâmica de combate tem uma erosão rápida. A mecânica consiste em defendermos um ataque do adversário, contra-atacar de imediato prendendo-lhe um membro e com um analógico expor-lhe o ponto vulnerável enquanto usamos a broca com um gatilho. Apesar desta rotina variar de inimigo para inimigo, quando o factor novidade se dissipa estamos presos a uma mecânica repetitiva e que nunca se esforça por se atualizar ao longo do jogo.

Por várias vezes fui apanhado num padrão em que o jogo expos as pobres decisões dos programadores. Numa determinada missão, um Akrid de dimensões generosas serviu como boss. Depois de lhe cortar as duas tenazes, decorei o seu padrão de ataque e acabei por o eliminar através da sua zona vulnerável. Cumpro o objetivo metros à frente e o novo caminho obriga-me a recuar até ao sítio onde o Utility Rig foi lançado. Este encadeamento de ações demorou aproximadamente cinco minutos. Depois de alguns passos dados já ao comando da "besta metálica" aparece a mesma criatura novamente. Infelizmente, o meu Mech avaria - algo que acontece demasiadas vezes ao longo da aventura - e fico apeado. Ou seja, cinco minutos depois estou a repetir o mesmo combate numa espécie de dejá vu gelado. Este é o perfeito exemplo de como a produtora tomou algumas decisões que não funcionam. Mais grave ainda é que poderiam ter sido facilmente evitadas caso o trabalho de casa tivesse sido feito com mais rigor.

Outro problema é o excessivo "back tracking" na primeira metade do jogo. Passa-se demasiado tempo em áreas de jogo que não demoram muito a ser tão conhecidas como a palma da vossa mão. Compreendo perfeitamente que é preciso espaço para explicar as mecânicas de jogo e determinados cenários para dar a conhecer, por exemplo, o uso do gancho que vos permite escalar e descer rapidamente em pontos que o próprio jogo determina, porém, é impossível não sentir que andamos aos círculos num território que de mundo aberto tem muito pouco. Felizmente, o jogo tende a abrir a área de jogo e a diversificar os cenários com a progressão na história. Lost Planet 3 oferece ainda um modo multijogador que celebra partidas com dez jogadores em seis mapas diferentes. O grande motivador nesta vertente do jogo será a alteração daquilo que têm que fazer durante o decorrer da partida. Não deixa de ser irónico que o ponto mais interessante do multijogador seja um dos aspetos menos conseguidos a solo.

O trabalho mais inspirado da Spark Unlimited é colocado ao serviço do departamento gráfico. Ainda que em ambientes fechados o grafismo não seja propriamente assinalável, quando a escala da área de jogo aumenta, somos presenteados com planos e ambientes verdadeiramente bons. Não só o cenário é bonito e apelativo, como os planos usados nestas situações nos transportam para a lente que gravou para a posterioridade grandes filmes. A sonoplastia também é competente e, curiosamente, podem mudar a estação de rádio dentro do vosso Mech.

À terceira entrega, Lost Planet perde novamente a oportunidade de se afirmar no género. Com um trabalho demasiado à defesa, a Spark Unlimited oferece um produto sem ideias novas e genérico. Desde a chegada ao mercado do primeiro jogo da série, existe uma legião de fã que torce pelo próximo capítulo da série, contudo, mesmo esses começarão a duvidar do rumo da franquia Lost Planet depois de experimentarem este jogo. A Spark Unlimited coloca no mercado o seu melhor jogo - que não é muito se nos lembrarmos que foi este o estúdio responsável por jogos como Turning Point e Legendary - mas o pior jogo Lost Planet até à data.