A obra de William Chyr é confusa, mas descobre-se rapidamente a lógica da proposta até retirarmos, de forma gradual, os elementos que nos deixam com dúvidas com o que nos é apresentado. O conceito de Manifold Garden é fenomenal, obrigando-nos a exercitar o cérebro com os novos quebra-cabeças que consegue arranjar.

Inspirado nas obras do artista gráfico M.C. Escher, Manifold Garden permite-vos manipular o cenário, rodando-o, onde uma parede pode passar a ser o vosso chão. Com um grafismo que parece ter sido desenhado por um matemático, versado em geometria, Manifold Garden é supreendente cada vez que encontramos uma solução para os problemas que nos desafiam.

Primeiro, há cubos coloridos que precisam de ser colocados em interruptores para abrir portas ou pôr em marcha algum tipo de mecanismo. Não demorará muito até perceberem que estes cubos estão sujeitos à lei da gravidade do plano em que se encontram. Por exemplo, podem mover um cubo no plano em que estão, mas se rodarem o plano, ou seja, fazer de uma parede o vosso novo chão, o cubo que mexeram no plano anterior (que agora é uma parede) fica fixo onde o deixaram.

A mecânica dos cubos pode gerar alguma confusão, mas não é muito difícil perceberem o que fazer e quando a solução finalmente surge, somos brindados com um momento recompensador e apreciamos as portas a abrirem num bailado geométrico. Rodar o cenário e mudar a nossa realidade também é uma das mecânicas basilares de Manifold Garden, algo que pode demorar até ficarmos habituados.

Não é nada que vos vai dar dores de cabeça como se estivessemos com um dispositivo de Realidade Virtual. Contudo, esta confusão era uma luta interior daquilo que via através dos meus olhos e aquilo que o meu cérebro processava para definir o que era o quê. Quando tive noção daquilo que o jogo queria de mim, fiquei menos confuso e mais ciente daquilo que tinha de fazer. Normalmente era procurar uma porta ou uma saída da repetição contínua.

Houve um puzzle em que tive de conjugar a lei da gravidade a que diferentes cubos estavam sujeitos. Foi complicado porque tive de fazer uma espécie de escada até onde queria chegar. Inicialmente, fiquei bloqueado por pensar que a escada seria para mim, quando o que tinha a fazer era construir apoios para um dos cubos que tinha de encaixar. É jogar com o que temos para tirar proveito da situação que nos foi colocada.

Depois, mais tarde, abrem-se novas funcionalidades para os cubos. Estes vão poder mudar a direção de cursos de água para irrigar árvores ou fazer mover moinhos que estão ligados e rodas dentadas de uma enorme engrenagem para abrir caminho até ao nosso próximo destino. Até chegamos a um ponto onde existe um mecanismo que troca o sentido da lei da gravidade à qual o cubo que estamos a segurar está sujeito, passando o seu chão a ser o seu teto e vice-versa.

A estética de Manifold Garden parece simples, mas é incrivelmente complexa dado que tem uma geometria impossível de se traduzir para o mundo real, visto que a obra de Chyr ser inspirada no trabalho de Escher. Quando atingimos o pináculo de um determinado nível, temos direito a assistir a uma dança de formas que se dobram sobre si e se transformam num outro objeto quadrangular que se tornará no próximo nível para conquistar.

A própria música é muito boa, elevando-se em momentos onde temos o puzzle maior quase resolvido, com sintetizadores a pautar um ritmo de maior intensidade. Quanto a texturas, estas são inexistentes, há imensos edíficios de tamanhos e formas estranhas, mas que se conjugam com todos os elementos que estão à sua volta. Ao pormenor não há nada de interessante ou bonito para apreciar, mas quando afastamos a câmara no modo de fotografia dá para ver uma certa beleza psicadélica dos efeitos que o jogo usa aos rearranjar os elementos das construções do mundo idealizado por Chyr.

O mundo físico de Manifold Garden é constituído por edíficios, templos, corredores e os mais bizarros empreendimentos geométricos que assentam sempre na mesma lógica de provocar ilusões de ótica como qualquer boa obra de Escher faz. O elemento mais recorrente são as escadas, que tanto servem para subir e para descer, sem que alteremos o sentido para o nosso destino. Um dos truques visuais para preencher o espaço do mundo do jogo é a repetição de elementos do cenário, que tanto serve o aspeto gráfico como a jogabilidade.

À medida que progridem nos níveis meticulosamente arquitetados, vão notar que estão por vossa conta. Ou seja, o jogo não vos diz absolutamente nada daquilo que têm de fazer para avançar. Apesar de Chyr arriscar em assumir que quem compra Manifold Garden tem de ter alguma experiência com jogos na primeira pessoa, este risco funciona visto que os detalhes das cores quase que apontam para aquilo que temos de fazer. Num nível monocromático os interruptores têm cor, por isso é bastante óbvio o que temos de fazer, ou pelo menos quais os elementos que fazem parte do puzzle e da sua eventual solução.

Mesmo com a introdução de novos elementos, como um curso de água que temos de mudar de direção, são simples de ler o que querem de nós para continuar neste mundo geométrico. Por exemplo, essa água pode ser levada até uma porção de terra que fará nascer uma árvore instantaneamente, depois de termos lá depositado um dos cubos que retiramos de outra árvore. É uma mecânica fácil de perceber e que não nos obriga a dar demasiados nós no cérebro para chegarmos à solução do puzzle em que está implementada.

Contudo, não haver indicações daquilo que devem ou não fazer também pode causar alguns problemas de ritmo. Não foram poucas as vezes em que fiquei bloqueado, sem saber ó que fazer. Por isso, tive de voltar atrás e rever onde é que eu passei, até descobrir que o puzzle anterior não estava resolvido na sua totalidade e estava a faltar-me uma peça para resolver o quebra-cabeça que me estava a dar problemas.

Ao longo desta impressionante obra, senti que me estava tentar oferecer uma experiência que está num intermédio entre algo como Portal (o clássico da Valve) e Antichamber (um grande jogo indie de 2013). E uma das características mais relevantes do jogo, é que os puzzles não são nada repetitivos. Há sempre algo novo a explorar numa determinada mecânica e quando está tudo bem aproveitado, o jogo faz o favor de nos entregar novas formas para ser experimentado. Por isso, se gostam de puzzles na primeira pessoa e se têm saudades de Portal, Manifold Garden é uma boa experiência para colmatar esta ausência.