Nem sempre, mas por diversas vezes associei um videojogo a uma época do ano em particular. Consigo facilmente enumerar uma dezena de jogos que associo ao frio do inverno, às noites chuvosas do outono ou à luz imanada pelo verão. Não me acontece sempre, mas voltou a acontecer com Mario & Luigi: Dream Team Bros, o Role Playing Game da AlphaDream que foi lançado em exclusivo para a Nintendo 3DS. Quanto mais avançava na aventura, mais o associei às manhãs de praia, às tardes de esplanada e às noites abafadas passadas num jardim de costas pregadas à relva.

Esta minha associação não é apenas porque estamos a atravessar o pino do verão, mas sim porque toda a atmosfera do jogo assim o permite. A história convida Mario, Luigi, Peach e os Toad a uma visita à Ilha Travesseiro, local outrora habitado por criaturas amistosas homónimas do nome da ilha. Porém, como as boas histórias não têm só um lado, em determinado momento, Antasma, o antagonista de serviço, achou que estava na hora de agitar a narrativa e não só encerrou a Ilha Travesseiro, como ainda teve tempo para fechar a Princesa Peach no Mundo dos Sonhos. Porém, a ordem de trabalhos não tem apenas um objetivo. É verdade que vão ter que resgatar a Peach, mas não é menos verdade que também compete ao jogador evitar que Antasma e Bowser fiquem na posse da Dream Stone, um artefacto que garante ao seu dono tudo o que ele desejar, o que nas mãos desta dupla, facilmente se traduz no controlo do mundo.

Ainda que a história não quebre nenhum molde, Dream Team Bros. assegura-se que o jogador fica até ao fim, sobretudo, pelas mecânicas usadas para a contar. São poucas as linhas de diálogo que não estejam bem estruturadas, assim como são escassas as piadas que não resultam. A produtora não teve medo de recorrer ao humor para dar um colorido carismático à trama e deu-se bastante bem, sobretudo porque as piadas e as situações humorísticas fluem muito bem e raramente transparecem o sentimento que foram impostas ao jogador. Com o evoluir destas situações, senti que o humor não trabalhava para mim, trabalhava comigo, envolvendo-me praticamente em todas as situações que seriam exigíveis.

Presumo que alguém a meio de uma reunião de produtores tenha começado a perseguir uma linha de pensamento idêntica às outras entradas na série e manteve a tradição de responder na prática a esta pergunta teórica: Porquê contentarmo-nos com um mundo quando podemos ter dois? Se foi o caso, essa pessoa é responsável por um dos pontos mais salutares do jogo. A explicação é relativamente simples: ocasionalmente, Luigi encontrará almofadas especiais que servem como portas de entrada para o Mundo dos Sonhos. Como estas secções do jogo se desenrolam dentro da mente do Luigi, o senso-comum deixa de ser um bem necessário e foi dada carta-branca à imaginação dos produtores. O resultado são momentos inspirados que servem como batuta ao ritmo do jogo, proporcionando o escape necessário para que a jogabilidade nunca chegue a estagnar. Estes sonhos são a fabricação do que a mente de Luigi faz com mundo real e, tal como acontece ao comum dos mortais, isto normalmente é sinónimo de uma deturpação da realidade. Enquanto Luigi dorme, Mario explora a sua mente a duas dimensões, lutando contra as criaturas que habitam os sonhos de Luigi com a ajuda do próprio, ou melhor, com uma representação alternativa capaz de alguns feitos extraordinários, nomeadamente, assumir a forma de alguns objetos ou capaz de reforçar o ataque do Mario com centenas de Luigi. Sempre que o irmão do macacão verde sonha, é possível ver a sua cara no ecrã tátil e isto não é apenas um mero arranjo gráfico. Algumas destas mecânicas obrigam o jogador a interagir com o ecrã secundário, por exemplo, tocando no bigode do Luigi para ele dê uma ajuda preciosa.

Porém, não pensem que as cenas de confronto apenas existem na mente de Luigi. Com o passar do tempo, o sistema de batalha vai ficando mais complexo, porém, o fio condutor permanece intuitivo e acessível durante toda a aventura. É atribuído o botão A a Mario e o botão B a Luigi, ou seja, controlam cada personagem independentemente, ainda que a cooperação entre as duas seja crucial. Não é preciso passar muito para que este princípio seja interiorizado, até porque o jogo demora algum tempo com tutoriais e situações notoriamente colocadas no jogo para que o jogador sinta o pulso à mecânica, o que faz com que quando ultrapassarem as últimas lições dadas já no decorrer dos confrontos, o vosso cérebro - e os dedos - já consegue lidar sem grandes dificuldades com esta regra. Aliás, ainda que na teoria possa parecer algo esquarteja o ritmo do jogo, na verdade nunca chegou a ser obstrutivo.

Apesar dos combates serem por turnos, o jogador nunca chega a ser relegado para segundo plano pelos ataques que escolhe, uma vez que é sempre chamado a intervir, participando ativamente na temporização de quase todos os ataques, o que faz com que até os encontros mais consumidores de tempo nunca cheguem a provocar muitos bocejos. E como "o melhor ataque é a defesa", Dream Team Bros. assegura-se que as investidas dos inimigos podem ser refutadas pelo jogador, dando-lhe a oportunidade quase sempre justa de esquivar-se. Seja como for, o jogo esforça-se ao máximo para que o jogador nunca entre em modo "piloto automático" e isto colhe os seus dividendos.

Depois de passar algumas horas com o jogo, o sentimento com que fiquei é de que estamos perante uma mescla unificada de vários géneros. Em vez de fazer a transição entre os aspectos Role Playing, de plataformas e até rítmicas, a AlphaDream esmerou-se para que o jogador os experimente a todos sem notar isso conscientemente, em vez disso, estamos perante uma colagem que tem na variedade da jogabilidade o resultado que a produtora certamente pretendia. Quando não estão a divagar pela mente do Luigi ou determinados em combates, vão estar a explorar o cenário do jogo que, não só é rico em pormenores como é variado quanto baste. Com o passar do tempo, vão sendo atribuídas algumas habilidades às personagens que permitem levar a exploração ao patamar seguinte, nomeadamente, um martelo para partirem pedras e ativerem interruptores, Mario pode-se transformar numa toupeira desde que esteja numa superfície mole. Como? O Luigi dá-lhe com o martelo na cabeça num acto de fraternidade entre irmãos. Finalmente, Mario pode ainda reduzir o seu tamanho se estiver numa superfície dura. Como? O Luigi dá-lhe com o martel... ah, já perceberam.

Se graficamente estamos perante uma obra variada e cheia de detalhes impressionantes, sonoramente o jogo também não desilude. Os inúmeros temas que vos acompanharão durante a viagem são carismáticos e acabam por ser uma carta de amor escrita pela AlphaDream à própria Nintendo, invocando contornos nostálgicos e dando um ambiente que ajuda a tornar este jogo numa estadia memorável.

Não. A resposta é não, não fui eu que resolvi traduzir a meu bel-prazer o nome da ilha para Travesseiro. A Nintendo fez um trabalho louvável na localização para português. Aliás, até aqui já foram vários os exemplos dados do esforço que a produtora está a fazer nesse sentido, contudo, estamos a falar de um Role Playing Game de uma envergadura colossal, o que comenda ainda o acontecimento. O mais notável é que o humor que referi nos primeiros parágrafos desta análise não se perde com a tradução, o que servirá para tranquilizar os que pensam que ao iniciarem o jogo em português vão perder as situações caricatas.

Mario & Luigi: Dream Team Bros. é facilmente recomendável a todos os que tiverem uma Nintendo 3DS, pois à quarta entrada na saga "Mario & Luigi", a série que começou no GameBoy Advance está em grande forma, possivelmente na melhor forma de sempre. Comecei esta análise por afirmar que associo este jogo ao verão, porém, acredito que muitos jogadores o acabarão por associar ao verão de 2013 como um dos melhores jogos lançados na estação.