Mario Golf: World Tour é uma epifania competitiva alimentada por um choque de emoções: por um lado temos cenários que parecem dínamos de bem-estar e relaxamento, por outro temos um lado competitivo que não nos deixa dar tréguas a ninguém. Há uma inquietude omnipresente que só aumenta a cada tacada. Como falhar não é uma opção admitida por nenhum jogador, o que temos em mãos é um exclusivo Nintendo 3DS que promove a superação, o que fará o jogador regressar incontáveis vezes à portátil da casa de Mario.

Não é a primeira vez que a Nintendo coloca as suas personagens ao serviço do golfe, aliás, contabilizando os títulos produzidos pela Camelot, percebe-se que World Tour não é um mero acaso. O curriculum da produtora japonesa detém algumas entradas que ainda hoje são recordadas com algum carinho. Mesmo antes de entrar ao serviço da Nintendo, saliente-se que o seu talento alimentou duas entradas na série Everybody's Golf, a saga PlayStation à qual mais vezes é comparado Mario Golf. Apesar do legado não ser um dos problemas, World Tour é o primeiro jogo da saga a chegar à Nintendo 3DS.

O primeiro ponto que vão reparar quando chegarem a World Tour é a divisão do título em duas grandes falanges: Mario Golf e Clube do Castelo. O primeiro é a auto-estrada para quem quer clicar os dedos e estar imediatamente no campo de golfe mais próximo, facto comprovado pelo subtítulo "Ronda Rápida". Se estiverem sozinhos, têm à vossa disposição cinco opções: Jogo por Pancadas, Jogo por Buracos, Partida Rápida e Jogo por Pontos. A quinta opção designa os desafios específicos. As condicionantes são relativamente fáceis de compreender: jogar tentando dar o menor número de pancadas, conquistando o maior número de buracos, o mais rápido possível, enfim, pode-se dizer que é a Camelot a tentar lutar com os aparelhos móveis inteligentes pela vossa viagem de autocarro ou de metro.

Ainda no modo Mario Golf, importa mencionar a restante opção: os desafios. Depois de lhe dedicar algum tempo, fica-se com a sensação que estamos perante um Remix que obriga os jogadores a pensar "fora da caixa". O cérebro está calibrado para as regras básicas e fundamentais do golfe, portanto demora alguns minutos a interiorizar que agora temos que reunir Moedas-Estrela, fazer a bola passar por todos os anéis, terminar um conjunto de buracos dentro de um tempo limite. No cômputo geral, estes testes caminham com algum equilíbrio sobre a linha ténue que separa diversão e frustração, apesar de ocasionalmente resvalarem para o segundo estado mencionado. Para completar o tema, convém referir que a progressão é feita desbloqueando novos cenários. Por exemplo, inicialmente têm apenas à disposição dois, nomeadamente, Campo da Floresta e Jardim da Peach. Para desbloquearem o cenário seguinte terão que obter primeiro 7 Moedas-Estrela, o seguinte liberta-se quando vencerem o Campeonato do Campo da Floresta no Clube do Castelo, ou seja, apesar de serem díspares, os dois modos estão interligados.

Este modo é o único onde poderão jogar com personagens do universo Nintendo. Mario, Luigi, Peach, Yoshi, Bowser, Wario, enfim, os suspeitos do costume estão praticamente cá todos. Como seria de esperar, cada personagem vem acompanhada de um quadro onde podemos ver os seus pontos fortes e os menos capazes. A Daisy, por exemplo, tem mais pontaria do que controlo, um Drive de 195.

Indubitavelmente, é no Clube do Castelo que está a fibra de World Tour. O primeiro ponto a ressalvar é o local onde tudo se desenrola. A Camelot é conhecida também por ser a produtora da série de Golden Sun, um trio de Role Playing Games lançados em portáteis pretéritas, e não é segredo que os jogos de golfe tinham sempre uma componente emprestada desse género. Infelizmente, essa componente é uma das ausências mais notadas neste título, porém, a maneira como o Clube do Castelo é apresentado dá a notar alguns resquícios, ainda que muito ligeiros. A vossa personagem neste modo é obrigatoriamente o vosso Mii, portanto, podem-no fazer deslocar dentro do Clube como se estivessem a explorar uma aldeia num qualquer Role Playing Game.

É possível interagir com as personagens Nintendo que dão alguma vida ao cenário e algumas dicas sobre o que se está a passar e o que devem fazer de seguida, assim como aceder a várias divisões. Se forem ao Balneário Masculino - também podem ir ao Feminino se quiserem ver o vosso Mii a fazer uma cara de comprometido - podem ajustar inúmeros pontos da vossa personagem. Taco, sapatos, luvas, camisola, enfim, uma panóplia de parâmetros personalizáveis. Outra área de visita obrigatória é o Café e Butique. Aqui podem esbanjar as moedas conquistadas nos campos em equipamento que melhorará a habilidade do vosso Mii. Outras áreas incluem a Sala de Treinos, Sala de Inscrições, onde podem registar-se para competir em torneios online, a Sala Real e, como não poderia deixar de ser, a Sala de Troféus.

É uma maneira simpática de organizar as várias áreas que funcionam em prol do modo de jogo mais complexo, mas não se deixem enganar: está longe de riscar a superfície de um Role Playing Game. Tudo isto é interessante, mas acaba por funcionar como uma muleta para o prato principal deste modo: no jardim traseiro do edifício estão os três campos principais, nomeadamente, o Campo da Floresta, o Campo da Montanha e o Campo Marítimo. Importa ressalvar que existe um quarto e derradeiro destino: o Campo da Nuvens que é tão agreste que nenhum jogador conseguiu chegar ao seu final. Uma última opção dá pelo nome de Jardim da Peach e, como o próprio nome indicia, é uma homage a uma das Princesas mais populares da Nintendo, juntamente com Zelda.

O jogo encarrega-se de explicar que o derradeiro objetivo do jogador é ser o detentor das três coroas, o que dá a entender que é chegar, ver e vencer, o que não corresponde à verdade. O primeiro passo a dar é participar uma ronda de treino para aferir o vosso Handicap, posteriormente podemos competir no Torneio de Handicap e no Campeonato do Campo, o derradeiro desafio. Depois desta verborreia toda, é finalmente altura de entrar em campo e verbalizar a avaliação da jogabilidade, o ponto que conquista ou afasta os jogadores.

Felizmente, poucos serão os que vão ficar desapontados e/ou intimidados. É crucial saberem que existem dois tipos de jogo que condicionam inquestionavelmente a experiência: podemos jogar em Auto ou Manual. Na primeira opção, o jogo escolhe o taco adequado, o estilo de jogo e facilita o mecanismo de tacada. É extremamente simples: na parte superior do ecrã tátil da Nintendo 3DS é exibida uma barra - pressionem o botão A uma vez e a barra enche. Quando o medidor estiver no sítio exato marcado com um localizador amarelo é altura de pressionar novamente o mesmo botão. Não há muito para dominar além da coordenação, algo que não demorará muito. O título encarrega-se de informar o jogador que obteve a pancada certa, pois não só a bola vai para onde é devido como o ecrã é habitado momentaneamente por estrelas douradas.

Troquem para Manual e têm um jogo praticamente novo à disposição. Não só o mecanismo de cada tacada agora exige três toques em vez de apenas dois: um para iniciar o processo, outro quando o medidor estiver no ponto amarelo e um terceiro quando regressar à base, como agora passa a ser o jogador o responsável por fazer a preparação, ou seja, têm que escolher o taco adequado à situação em que estão, assim como ajustar a linha branca da trajetória para onde a bola vai ser enviada. Não pensem que são pormenores, a conjugação de tudo isto faz uma diferença incrível no final. Certamente ainda se lembram que comecei este texto afirmando que World Tour era desafiante. Pois bem, parte desse desafio está aqui, ou seja, quando o modo Auto se começar a tornar maçador e sentirem que estão a fazer um frete, troquem para o Manual e terão outra camada de dificuldade para aprender e, em último caso, dominar.

World Tour não é um simulador de golfe - nem o quer ser - mas não se escusa a complicar o processo com os elementos naturais de cada traçado. Na prática, isto significa que o relevo e inclinação do terreno afeta a tacada, assim como o vento, ou não tivéssemos no canto superior direito um medidor sempre presente. Obviamente, as poças de areia também marcam presença e são propositadamente irritantes e temíveis como no desporto a sério. E as árvores. Tenham sempre em consideração estas manifestações da natureza cujo único propósito aqui é prender a bola e fazer-nos passar um mau bocado.

Se isto não for suficiente para vos convencer que não estamos perante um simulador do desporto, a inclusão de itens esclarece qualquer dúvida. Recorrendo a adereços do mundo Nintendo, podem dar tacadas especiais que desafiam o senso comum. Efeitos secundários como congelar o sítio onde a bola cai, ignorar as leis da física e atravessar folhagem e relva densa, transformar a bola num redemoinho ou no Bill-Bala e ser disparada em linha reta. Pessoalmente, não encontrei vantagens verdadeiramente assinaláveis, além das animações e da diversificação da jogabilidade.

E por falar em jogabilidade, mesmo depois de inúmeras horas investido no mundo de jogo, as mecânicas não incutem fadiga no jogador, sobretudo pela combinação dos dois modos de tacada. Mesmo que não percebam as regras do golfe, mesmo que nunca tenham visitado um campo de minigolfe ou de petrogolfe, World Tour não intimida. Cedo percebem que o objetivo é colocar a bola no buraco dando menos tacadas que o par, realizando assim um Birdie e adiantando-se na tabela de liderança. Não sabem o que é o Par, o Birdie, o Handicap, o Age Shooter ou um Whiff? Não há problema, acedam a uma área conhecida como o Balcão do Toad e têm à vossa disposição um completíssimo Glossário do Golfe. Se o fizerem, saberão que um Whiff é o que acontece quando o jogador pretende bater na bola, não lhe acerta e conta como uma tacada. Este Balcão serve ainda para verem tutoriais de praticamente tudo que compõe o jogo e aceder ao catálogo de Conteúdos Adicionais. World Tour receberá três pacotes adicionais: Pacote de Cogumelos, Pacote das Flores e, finalmente, o Pacote das Estrelas em junho. Cada um custará 5,99€. Se preferirem poderão comprar o trio por 11,99€.

Como seria de esperar, o multijogador promete prolongar consideravelmente a temática do golfe na vossa Nintendo 3DS. Isto compreende atividades locais e online, sendo que é possível medir forças contra até mais três jogadores em simultâneo. Debaixo do mesmo telhado os ânimos não demoram muito a exaltar-se, mas é através de uma ligação à Internet que estará a maior diversidade e profundidade. O mais básico é a competição contra os membros que estiverem na vossa lista de amigos mas noutras partes do país ou do mundo ou, acedendo à opção Comunidades, contra outros golfistas de carne e osso que não conhecem.

Porém, acredito que o grande chamariz do multijogador online venham a ser os Torneios. Aqui é possível participar em competições privadas, ou seja, organizadas por outros jogadores e, obviamente, passível de ser criada por nós. As opções de personalização são extremamente completas: Itens, personagens, bandeiras, modos de jogo e número de dias que vai estar em vigor. Além dos torneios criados pela e para a comunidade, a Nintendo disponibilizará competições oficiais. Neste momento é possível aceder a um quarteto de competições diferentes, sendo um exemplo uma Caça às Moedas - todos os jogadores competem como Bowser e como o nome indicia, têm que recolher moedas. Não foi possível testar a componente versus do online, porém, nos torneios, mesmo com alguns erros de premeio, foi possível terminar os torneios e registar os resultados e ficar a aguardar pela cerimónia de entrega de prémios.

A componente técnica de World Tour tem no grafismo o seu ponto mais forte. Não só os cenários são variados e coloridos, como são pejados de detalhes que contribuem com carisma. Seria fácil que a cenografia resultasse em algo desenxabido e lúgubre, mas não é o caso. Mesmo que não olhem para as personagens, é fácil perceber que estamos perante um jogo feito para uma consola Nintendo. A banda sonora deixa algo a desejar e não consegue competir com o protagonismo dado ao visual. De salientar ainda que o jogo tem pequenos trechos vocalizados em português, aliás, o jogo está totalmente localizado no nosso idioma, algo que reparei ser de extrema importância, sobretudo, no glossário incluído. Para os imberbes do desporto, ter os termos todos traduzidos ajuda consideravelmente à familiarização.

É pena que a componente Role Playing Game não esteja presente, apesar da disposição do Clube, e a banda sonora parecer ter sido um pouco descorada, todavia, isso não é suficiente para denegrir o cerne da experiência oferecida por Mario Golf: World Tour. Termino conforme comecei: a cor e a paz dos cenários são antónimos da pressão e competitividade que alimenta a obra como um todo. Será interessante acompanhar o seu lançamento, perceber como a comunidade reagirá à sua componente online e também à inclusão de conteúdo adicional pago.