Com um ano de 2017 bastante recheado para os fãs, muitas vezes negligenciados, do género de combate, o mais recente título a chegar ao mercado é também um muito aguardado regresso de uma das séries mais populares do género, figurando com frequência no alinhamento de eventos competitivos como o EVO. Dito isto, a ansiedade pelo anúncio de um novo Marvel vs. Capcom rapidamente chocou com a realidade à medida que mais informações foram sendo divulgadas e a bolha de entusiasmo se foi esvaziando.

MvC Infinite Analise Imagens

Agora que estamos já com alguns dias de distância em relação ao seu lançamento e as primeiras tabelas de vendas que englobam a performance inicial da obra no mercado começam a ser noticiadas, fica desde já claro que, entre o seu anúncio e o seu lançamento, Marvel vs. Capcom: Infinite e a Capcom queimaram muita da boa vontade dos seus fãs e foram presenteados com desapontantes vendas tanto no Reino Unido, como no território nipónico.

Infelizmente, não é só na performance comercial que a nova entrada da série que faz colidir o universo da Marvel e as propriedades intelectuais da Capcom deixa a desejar. Acima de tudo, Infinite é um jogo pobre, um jogo sem os valores de produção expectáveis de uma obra AAA e que tem dois colossos da indústria de entretenimento envolvidos no projecto. Não, não me refiro apenas ao seu grafismo e estilo visual questionável. Refiro-me sim ao pacote completo. A produtora nipónica já havia sido criticada pelo lançamento problemático de Street Fighter V e com o seu novo título de combate parece não ter aprendido a lição.

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Mais uma vez, a Capcom esconde uma mecanicamente sólida e altamente divertida jogabilidade no meio de uma experiência que oferece muito pouco nos restantes departamentos. Marvel vs. Capcom: Infinite é um bom jogo de combate, um dos poucos no género que consegue oferecer a simplicidade necessária para permitir aos mais casuais realizar movimentos e combinações espetaculares, bem como a profundidade obrigatória para os mais dedicados dominarem e impressionarem os seus adversários.

Com Hyper Combos bastante fáceis de realizar e visualmente bastante apelativos - destaque para Frank West que utiliza um carrinho de compras com um zombie no interior para atacar o seu oponente -, uma alternância rápida entre personagens para colocar pressão no adversário e uma utilização inteligente das Infinity Stones, Infinite entrega uma jogabilidade frenética e altamente cativante. 

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Claro que existem as combinações mais poderosas e que requerem mais prática e treino para executar, mas o verdadeiro valor da jogabilidade do título prende-se com a sua capacidade para fazer com que os casuais sintam que têm hipóteses de ganhar as batalhas e que estão a realizar feitos impressionante, mesmo que o adjetivo “impressionante” se aplique apenas à espectacularidade visual da ação.

Em termos de novidades, a introdução das Infinity Stones acaba por ser aquela que mais se destaca durante os confrontos. Cada uma das 6 esferas permite executar um ataque ou movimento específico - a Power Stone projecta os adversários para o ar, enquanto a Time Stone permite que alterem a vossa posição de forma bastante rápida para apanhar o oponente desprevenido, por exemplo -, sendo que após a sua barra estar preenchida podem ativar a Infinity Storm que aplica vantagens momentâneas ao jogador que a ativar. A Space Stone, por exemplo, coloca o oponente preso numa caixa sem grandes hipóteses de vos atacar.

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Contudo, apesar de ser claramente o elemento mais importante de qualquer experiência jogável e sobretudo de um jogo deste género, a jogabilidade tem de ser suportada por um vasto conteúdo que justifique o investimento de tempo e monetário e é aqui que a Capcom volta a tropeçar. Com um elenco robusto de 30 personagens - 15 provenientes do universo Marvel e 15 vindos das mais populares séries da produtora nipónica -, Infinite destaca-se mais pelas ausências do que propriamente pelos nomes que inclui no seu plantel. 

O facto de existirem apenas 4 personagens femininas num total de 30 é incompreensível nos dias de hoje, sendo que ausência de personagens X-Men é claramente uma falha que, embora provavelmente justificada pelos direitos relacionados com os filmes, prejudica a diversidade do seu elenco. Não é que as 30 personagens aqui presentes não sejam merecedoras da atenção, o problema é que muitas delas têm uma popularidade e capacidade para atrair jogadores inferior aos nomes que estão, por enquanto, ausentes da experiência.

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Marvel vs. Capcom: Infinite falha também em oferecer uma robusta e diversificada lista de modos de jogo, optando por entregar o mínimo dos mínimos, ou seja, o modo arcada, o modo história e as partidas online. Podem realizar batalhas isoladas contra outros jogadores localmente ou contra a inteligência artificial, obviamente, mas não existe grande incentivo para o fazer. O modo arcada serve essencialmente para darem os primeiros passos com as diferentes personagens, mas pouco mais, enquanto a componente online está dividida em quatro míseras opções: Ranked, Casual, Lobby e Beginner’s League.

Este último tem como objetivo colocar jogadores menos habilidosos frente a frente para uma competição mais agradável e justa, mas tive bastante dificuldade em encontrar adversários. Na verdade, isso pode ser aplicado a todas as variantes da componente online. Todas elas sofrem com períodos de espera demasiado longos que nos forçam a fazer pesquisas com restrições inferiores, o que por sua vez nos expõe mais a jogadores com ligações questionáveis e partidas afetadas pela latência.

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Sem grande surpresa, o modo história é o principal destaque para aqueles que preferem jogar sozinhos. Contudo, é provável que acabem desiludidos com o produto final. É certo que não é tão má ou desconexa como o capítulo inicial deixa a entender, mas continua a ser fraca. Para além de um arco narrativo pouco interessante e bastante básico, Infinite falha quase sempre que tenta introduzir uma muito necessária dose de humor na aventura, entregando várias linhas forçadas e que não provocam a reação desejada no jogador. Ver este grupo eclético de personagens interagir providencia vários momentos interessantes, mas não é suficiente para ser memorável.

Apesar da pobreza de modos de jogo disponíveis, há que dar mérito à produtora por ter incluído um extenso tutorial na forma de missões que não só ensinam as mecânicas base da jogabilidade, como todos os principais movimentos do arsenal de cada uma das 30 personagens que compõem o elenco. Como facilmente se percebe, este modo permite aos casuais ficarem com as bases mais importantes do combate, mas também aos jogadores hardcore ficarem a conhecer todas as combinações das suas personagens favoritas.

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No departamento técnico, provavelmente já estarão mais do que cientes dos defeitos desta obra. Uma modelagem fraca que faz as personagens parecer bonecos de plásticos de qualidade duvidosa, cinemáticas pouco espectaculares e uma experiência esteticamente pouco apelativa são os seus principais problemas. Felizmente, estas questões são apaziguadas com a velocidade frenética dos combates, mas ainda assim pedia-se um esforço maior para dar uma melhor apresentação à obra. A banda sonora é suficientemente competente, tal como o trabalho de vocalização das personagens, mas nunca se destacam verdadeiramente.

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Marvel vs. Capcom: Infinite é um bom título de combate que, como tantos outros jogos de género, peca pela falta de conteúdo para suportar a sua  jogabilidade bastante competente. Poucos modos de jogo, uma narrativa sem grandes momentos de destaque e um elenco com problemas óbvios impedem Infinite de se tornar uma recomendação fácil para os fãs do género, especialmente quando existem outras obras do género bem mais recheadas em termos de conteúdo. Um departamento visual algo datado e pouco apelativo também não ajudará a convencer os mais céticos.