Resogun foi um dos melhores jogos que chegou à PlayStation 4 nos primeiros momentos da sua vida. A finlandesa Housemarque publicou entretanto Alienation e, mais recentemente, Nex Machina. Agora está de regresso aos destaques da consola caseira da Sony com Matterfall, uma obra que arde intensamente, mas durante muito pouco tempo.

Destilado até à sua essência, Matterfall é um atirador 2D em side-scrolling, é um daqueles videojogos que nos fazem sentir grandiosos em abater tudo o que mexe no ecrã, multiplicando a pontuação enquanto os polegares começam a sentir o desgaste da fricção com os analógicos do comando. Com Matterfall, sentimo-nos o melhor do mundo até chocarmos com a realidade.

Imagens Analise Matterfall

Serão muito poucos os jogadores que compram um jogo deste género pelo seu arco narrativo e a produtora sabe-o bem. Somos Avalon Darrow, heroína de serviço para lidar com os erros cometidos com uma tecnologia alienígena muito mal dominada. A população está em perigo e é preciso fazer a sua evacuação. E lá vamos nós abrir caminho à lei da bala.

E está dada a desculpa para começarem a avançar pelos níveis. Contudo, pouco depois da viagem começar é avistado um dos principais problemas, a longevidade da obra. Os níveis são poucos e não são propriamente longos, os combates com os bosses podem dar algum trabalho dependendo da dificuldade escolhida, mas são poucos. Isto significa que podem chegar ao final de Matterfall numa tarde sem terem que se esforçar muito.

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Podem repetir os mesmos níveis para tentarem melhorar a pontuação, para resgatarem os humanos que tiverem falhado da primeira vez, podem até tentar conquistar todas as melhorias e todas as dificuldades, mas a verdade é que, ainda que haja algumas secções secretas, o valor de repetição não vai transformar um dia de jogo útil num mês, aliás, duvido muito que chegue sequer a uma semana.

Já escreverei sobre os melhores momentos, mas por muito folclore e por muito grande que seja a descarga momentânea de dopamina, a verdade é que as áreas principais esgotam-se demasiado rápido. Em determinados momentos, quando começamos a dominar a jogabilidade da obra, sente-se que havia aqui matéria-prima para muito mais, para uma aventura de Avalon que se tivesse o dobro da duração não se tornaria cansativa. Assim, a sensação primária em relação à longevidade é a de obra incompleta.

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Esses tais momentos de dopamina e adrenalina são alimentados por dois factores: a jogabilidade e o lado técnico. Sobre as componentes do último escreverei posteriormente, mas sobre a jogabilidade importa mencionar que, mesmo sem ser a mais refinada de sempre, é altamente satisfatória, altamente recompensadora quando conseguimos no DualShock 4 aquilo que o nosso cérebro idealizou nanossegundos antes.

A deslocação é tradicional, ou seja, feita com o analógico esquerdo. Contudo, o salto é no R1 e não no X. E aqui é que tudo se torna mais interessante: há também a possibilidade de usarmos uma arma que cria e dispara matéria, servindo, por exemplo, para dar solidez a certas plataformas do cenário. E o destaque é a habilidade de um ataque especial que envia Avalon em direção à maioria dos inimigos ou aos seus ataques.

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Não é o esquema de controlos mais convencional do género, contudo, depois de começarmos a experimentar as combinações, quando chega o momento de conjugar tudo isto, é libertada a comoção da idealização e execução. O caos de algumas cenas raramente é conquistado pela sorte do jogador, pelo que tem que haver um discernimento que recompensa a habilidade. 

Como as plataformas que preenchemos com matéria também servem para nos resguardar das balas inimigas, Matterfall envolve alguma estratégia. Por muito tentador que seja abrir fogo com o analógico direito em 360º livremente, essa abordagem não vos levará muito longe, especialmente nas dificuldades mais exigentes.

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Podermos investir em quatro direções é refrescante. Em vez de nos obrigar a desviar por entre os avanços inimigos, se for bem empregue, a habilidade - que em português se chama apropriadamente Investida - não só é útil, como inverte essa componente passiva da jogabilidade num procedimento ativo.

Durante as minhas horas com o jogo, outro destaque foi a Sobrecarga. Não é nada revolucionário ou inovador sequer - enchemos um medidor e usamos a habilidade quando nos parecer conveniente -, porém, é uma das recompensas de efeito mais imediato. Um daqueles processos da jogabilidade que, graças ao grafismo, é uma destruição visualmente gratificante e altamente útil na prática.

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Ao contrário do seu arco narrativo, um shooter vive muito da sua jogabilidade. E aqui Matterfall não me desiludiu. É verdade que os bosses podiam ser um pouco mais inovadores no seu design e processos, mas nos níveis que passamos até lá chegar ficam para trás bons momentos - alguns frustrantes, é certo, mas estamos a falar de um género propício a tal desfecho. Eu tive oportunidade de jogar o excelente Ikaruga e não foram poucas as vezes em que o comando da GameCube esteve perto de ganhar um design novo.

O outro aspecto que eleva estes momentos acima da média é o já mencionado departamento técnico. Não estamos perante um colosso, mas sim perante uma manipulação das partículas para dar espectáculo e criar a sensação que estamos a destruir muito mais do que é feito na realidade. Isto não é um ponto negativo, pois é graças a esta decisão que é criada a grandiosidade de certas cenas.

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Se ainda se lembram de Resogun, em diversos momentos o jogo afirmava-se pelo seu departamento técnico. Em Matterfall não existe esse impacto, mas isso não significa que a Housemarque não tenha em mãos outro triunfo técnico. Estes magotes de partículas não parecem abrandar a framerate da obra, pelo menos na PlayStation 4 Pro.

De toada futurista, os cenários nunca chegam a fazer-nos parar para os contemplar, mas são compostos por texturas e efeitos que complementam a ação que está a passar no primeiro plano. E há que dirigir também uma palavra à sonoplastia. A introdução é narrada em português de Portugal, mas é a batida que ajuda ao embalo. Ou seja, temos as explosões para elevar a ação e os restantes departamentos técnicos para a suportar e enquadrar.

Imagens Analise Matterfall

Matterfall é uma obra que proporciona momentos intensos, mas que acaba por se apagar demasiado cedo. Há aqui um videojogo interessante, capaz de nos fazer evoluir enquanto seus jogadores. Mas havia matéria para mais, para bastante mais. A Housemarque tem várias obras interessantes no seu catálogo, fazendo falta a este género. Talvez seja melhor dedicar mais espectro de alcance ao seu próximo projecto, talvez seja melhor entregar algo que não deixe esta sensação de saída precoce de cena. O talento continua lá.