Uma das vantagens de se ter já uma longevidade assinalável na indústria é a possibilidade de olhar para trás, para um enorme catálogo de obras colocadas no mercado ao longo dos anos, e perceber que há muitas propriedades para explorar, às quais regressar, dando-lhes uma nova vida e apresentando-as a uma nova geração de jogadores. Já está mais que provado que a nostalgia vende, pelo que não é surpresa que as mais antigas editoras do meio se sirvam cada vez mais de nomes do seu passado para homenagear a sua história e recompensar aqueles que estiveram lá para o lançamento original e os que desejavam o regresso à ribalta de determinada obra ou série.
Depois de dar um ligeiro empurrão à Activision para renovar os clássicos jogos Crash Bandicoot da Naughty Dog e Spyro da Insomniac Games e reintroduzi-los no mercado com visuais melhorados e mais condizentes com as capacidades permitidas pela tecnologia atual, a Sony encarregou-se de fazer ressuscitar mais um título facilmente associado à sua consola original. MediEvil pode não ter o cartel das duas séries já mencionadas, mas tal como eu, muitos se lembrarão, de forma mais ou menos vívida, de passear o esqueleto de Sir Daniel Fortesque pelos cenários ameaçados pelo exército de mortos-vivos de Zarok.
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Tal como sucedeu com os exemplos supracitados, a adaptação aos tempos modernos da aventura original de Sir Daniel por parte da Other Ocean pauta-se por uma fidelidade notável à experiência oferecida aquando da sua estreia no mercado em 1998. Essencialmente, isto significa que estamos perante uma obra com uma apresentação renovada e digna da evolução tecnológica que se verificou nestes 20 anos que separam os lançamentos, mas que continua a ter uma jogabilidade saída do século passado.
No fundo, apesar do grafismo atual dar uma impressão contrária, a verdade é que jogar MediEvil é efetivamente um regressar ao passado, no pior sentido possível. Se a evolução do género de plataformas permite que jogos como Crash Bandicoot e Spyro se mantenham prazerosos todos estes anos depois, o mesmo não se aplica a obras mais direcionadas para a ação na terceira pessoa. Desde os primeiros minutos a controlar o protagonista esquelético com dentição proeminente que é notória uma gritante falta de fluidez nos seus movimentos, algo que se torna por demais evidente em momentos de combate.
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Não estamos perante uma obra exigente, de todo, mas os controlos pouco responsivos e precisos aliados a um design datado e, em alguns casos, até questionável redundam com frequência em frustração. A falta de pontos de controlo ao longo dos níveis é, porventura, uma das mais óbvias falhas do título, sobretudo quando estamos perante níveis mais longos com várias tarefas para executar e em que a morte significa ter de começar tudo de novo. Passar largos minutos numa área labiríntica a recolher todos os itens possíveis, apenas para depois sucumbir no boss que encerra o nível tem muito pouco de divertido.
Para além da falta de fluidez, a limitação de ter apenas duas armas equipadas entre as quais podemos alternar rapidamente acaba por minar um pouco o que poderia ser uma forma fácil de diversificar o combate. A variedade de armas está lá, mas ter de parar a ação e navegar por um menu para realocar as armas às vagas disponíveis está longe de ser ideal. Ainda assim, nenhum elemento é tão exasperante como a fraca durabilidade dos escudos que podemos equipar e usar para proteger Sir Daniel das investidas inimigas. A rapidez com que são destruídos torna-os praticamente inúteis e cancelam desde logo a possibilidade de uma abordagem mais ponderada aos combates. A câmara, diga-se, também nem sempre coopera.
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Apesar destes problemas mecânicos, MediEvil concentra em si um certo charme que é difícil de ignorar. Seja pelo seu humor rudimentar, seja pelo seu patético protagonista ou até pela peculiaridade de alguns dos obstáculos que o desafia a enfrentar, esta é uma aventura que não se leva demasiado a sério e que faz o seu melhor para colocar um sorriso na cara do jogador. Cem anos depois da derrota de Zarok na Batalha de Gallowmere, o feiticeiro malvado regressa ao ataque com um poderoso feitiço que utiliza para criar um exército de mortos-vivos e outras criaturas, e tentar nova investida contra o reino.
Contudo, durante esse procedimento deu-se também a ressurreição de Sir Daniel Fortesque, o líder das forças militares de Gallowmere cujos livros de história relembram como o herói que, mortalmente ferido, travou Zarok. A realidade não é bem essa. E a verdade é que Sir Dan morreu em batalha de forma anticlimática e muito antes dos planos do feiticeiro serem aniquilados. Agora, depois da morte, o protagonista tem uma segunda oportunidade para ser o herói que nunca foi. É uma premissa simples, mas suficientemente ridícula para manter o interesse.
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Mas como não poderia deixar de ser, o verdadeiro destaque de MediEvil na PlayStation 4 é revitalização do grafismo original. A direção artística é apurada e consegue preservar a atmosfera e o estilo da clássica aventura. Mais uma vez, estamos perante uma obra que se apresenta quase como se de um desenho animado se tratasse. É um título que foge ao fotorrealismo e opta por modelagens abonecadas, com feições pronunciadas e exageradas, ao estilo de uma caricatura.
A diversidade de cenários e de inimigos permite também que a experiência ofereça níveis vibrantes, com tonalidades distintas e uma personalidade própria que se adequa perfeitamente ao tom da aventura e que contribui para o tal charme que a obra exude ao longo da sua duração. A banda sonora também se destaca através de arranjos orquestrais que tornam a ação um pouco mais épica, mesmo enquanto Sir Daniel vai fazendo o seu caminho até Zarok um pouco aos trambolhões e sem grande arte ou artíficio.
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MediEvil é assim um sólido remake de uma obra que, infelizmente, não envelheceu assim tão bem. Os novos visuais dão uma vida renovada à aventura deste peculiar herói, mas a jogabilidade antiquada e pouco fluida acabam por impedi-la de ser uma recomendação fácil. Há muito charme e um valor nostálgico, até histórico, neste regresso à ribalta de Sir Dan após tantos anos esquecido, contudo, é preciso estar recetivo a suportar os seus pontos fracos para se conseguir experienciar os seus melhores atributos.

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