Há um certo paralelismo entre leitores de obras literárias como Harry Potter ou O Senhor dos Anéis que aguardaram uma adaptação cinematográfica ao mesmo nível do trabalho original e entre leitores que se envolveram em Sputnik, Meu Amor, Em Busca do Carneiro Selvagem ou O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo que esperam agora pela entrega do trabalho da Bit Byterz intitulado de Memoranda, um empreendimento canadiano que foi buscar financiamento ao Kickstarter para poder materializar a sua visão de transformar as narrativas de Haruki Murakami em videojogo. Os livros por si só são algo muito peculiar que raramente se adaptam bem a filme, quanto mais construir algo com as características intrínsecas de um videojogo. E depois de jogar Memoranda, The Witcher continua ser o melhor exemplo, e um caso raro, deste tipo de trabalho que funciona. 

Ler Murakami é inspirador e nem tive contacto com todas as suas obras. Nem todas as pessoas deliram com a prosa do autor japonês, mas quem aprecia este tipo de escrita apaixona-se por um labor único nesta área. Não é por acaso que este romancista japonês foi falado inúmeras vezes para Prémio Nobel, liderando as escolhas dos juízes que o elegeram. A corrente literária que os canadianos da Bit Byterz tentaram transcrever para videojogo é a do Realismo Mágico. Conhecido também por Realismo Fantástico ou Maravilhoso, esta é uma forma muito própria de narrativa igualmente adoptada pelo colombiano Gabriel García Márquez. Nesta escola da literatura temos uma transformação da realidade em experiências fantasiosas, em que estas vivem associadas uma à outra. Por isso, não será incomum encontrarmos personagens antropomórficas, elementos sobrenaturais que circundam a protagonista do jogo: Mizuki.

Imagens Analise Memoranda

A nossa personagem sofre uma perda de memória e vive atormentada pelo facto de já não se lembrar do seu nome - nós sabemo-lo imediatamente através das legendas do jogo. Contudo, seria algo que poderia ter ficado guardado para uma futura revelação, algo que motivasse o jogador a procurar. Além da falta de memória, Mizuki também sofre de insónias, que só ficarão tratadas quando conseguir fazer desaparecer um estranho marinheiro da sua cidade. Estamos com uma mulher que sofre de várias enfermidades, que a pouco e pouco tenta recuperar a sua lucidez.

Tal como qualquer aventura gráfica de apontar e clicar, o jogador tem de procurar no cenário indícios que indiquem o caminho a seguir, sobre traços do caráter da própria personagem, e de encontrar a força motriz que faz avançar a narrativa. Infelizmente, o jogador fica com tantas dúvidas tal e qual como Mizuki. Contudo, é o vasto elenco de criaturas antropomórficas e outros indivíduos estranhos que nos motivam a continuar, a investigar algo que se terá passado para Mizuki ter uma falha de memória tão específica.

Imagens Analise Memoranda

Porém, por mais que seja interessante podermos colocar a narrativa a fluir, temos os puzzles típicos deste género de videojogos que fazem abrandar o ritmo com que avançamos. É bom termos um desafio mental, até Mizuki se mostra predisposta a resolvê-lo, mas quando não existe um princípio lógico para os podermos solucionar, a experiência torna-se inevitavelmente frustrante. Um ponto onde alguns jogadores poderão desistir de continuar neste mundo de fantasia muito peculiar.

Um dos primeiros quebra-cabeças pedia-me para abrir uma caixa com um teclado na tampa. Deveria pressionar as teclas corretas para formar uma sequência lógica, contudo nem com as dicas de resolução que nos são dadas consegue-se chegar ao resultado por um raciocínio elaborado. Não é que não haja uma via de chegar ao resultado de forma coerente, mas não temos uma direção clara mesmo que nos digam para nos dirigirmos fisicamente para um determinado local. 

Imagens Analise Memoranda

Para resolver isto tive que recorrer à tradicional técnica de clicar em tudo, em determinados locais e em alturas diferentes, utilizar objetos do meu inventário com todas as personagens ou recomeçar conversas para verificar se não ia começar um novo diálogo desbloqueado depois de termos progredido em relação à última vez que conversamos. Enfim, fazer este processo todo de cada vez que estamos bloqueados numa parte do jogo faz com que percamos toda a vontade que tínhamos em acabar a narrativa. 

Tecnicamente, Memoranda brilha com o grafismo pintado à mão. Não só existe uma diversidade enorme de um imaginário retirado das narrativas complexas do escritor japonês, como as próprias personagens exibem muito caráter dada a expressividade conseguida com este estilo artístico. Quanto à sonoridade, destaca-se uma muito má vocalização. Contrariamente aos visuais, os atores fazem transparecer personagens apáticas e carentes de personalidade própria. Ouvem-se até, por vezes, ruídos de fundo que não deveriam ter passado para o produto final, dada à falta de cuidado dada à edição sonora.

Imagens Analise Memoranda

Memoranda deveria ser um passeio mágico por um imaginário de um dos grandes escritores contemporâneos. Infelizmente, o mau design dos puzzles trava bastante o progresso, desmotivando bastante quem comprou a obra com interesse em jogar um título inspirado em Murakami. Mais uma vez, prova-se que não se podem depositar muitas esperanças em adaptações, sejam de livro para filme, ou, neste caso, de livro para jogo.