Numa época dominada pelo fácil e rápido acesso a todo e qualquer tipo de informação, não são raras as vezes em que já sabemos aquilo que podemos esperar, em termos de qualidade, das ofertas futuras no panorama do entretenimento. Obviamente, esta realidade aplica-se também à indústria dos videojogos, na qual somos bombardeados com vídeos e notícias todas as semanas e que retiram a sensação de descoberta de inserir o disco na consola sem saber bem aquilo que o jogo nos vai oferecer.

Há cinco anos atrás, a indústria foi apanhada completamente de surpresa quando Batman: Arkham Asylum chegou ao mercado e rapidamente se fixou como o melhor jogo inspirado no universo do Cavaleiro das Trevas e um dos melhores da geração de consolas. Agora, em pleno ano de 2014 e com as novas consolas a celebrar o seu primeiro aniversário no mercado, a história repete-se e novamente com um jogo baseado numa licença que não teve origem nos videojogos.

Desenvolvido pela Monolith Productions, Middle-earth: Shadow of Mordor é uma lufada de ar fresco no género de ação e aventura em mundo aberto. Para além de ser a melhor representação do universo Senhor dos Anéis com que os jogadores alguma vez foram agraciados, este título consegue a sempre difícil tarefa de aproveitar os melhores elementos das séries mais proeminentes da indústria, adicionando-lhe novidades suficientes para lhe conferir uma identidade própria e que o permite distinguir-se dos demais.

A sua história tem lugar entre os eventos da trilogia Hobbit e a trilogia Senhor dos Anéis, numa fase em que Sauron tenta recuperar o seu poder e reclamar novamente o domínio de Mordor. O nosso protagonista é Talion, um Ranger que viu a sua família ser morta diante dos seus olhos pela Black Hand de Sauron antes de ele próprio sofrer o mesmo destino. No entanto, o Capitão das forças do Black Gate não encontrou paz na morte e foi ressuscitado pelo espírito de Celebrimbor e condenado a passar a eternidade no reino dos vivos ligado a esta entidade.

Apesar de estar envolvida no universo criado por J. R. R. Tolkien, a narrativa da obra pode facilmente ser apreciada e compreendida por jogadores alheios à saga, embora possua várias referências que farão as delícias dos fãs dos livros e das adaptações cinematográficas. Infelizmente, o facto de a história ser bastante simples e de nunca jogar com as nossas expectativas através de reviravoltas inesperadas acaba por parecer uma oportunidade desperdiçada, sendo que seria também desejável oferecer mais tempo de antena a Gollum, de longe a fonte dos melhores momentos desta história.

Se o seu arco narrativo peca pela simplicidade, a jogabilidade brilha pela razão contrária. Shadow of Mordor é um título de mundo aberto que oferece verdadeiramente liberdade de ação ao jogador para escolher o caminho que quer seguir, mas também como o quer fazer. Enfrentar as missões e, consequentemente, os inimigos pode ser feito através de combate corpo-a-corpo, ataques furtivos ou ainda ataques de longa distância, utilizando os tradicionais arco e flecha.

A variedade de opções para encarar as adversidades é assinalável, mas o melhor de tudo isso é que cada uma delas funciona de forma competente e são igualmente satisfatórias. Cada uma das abordagens ao combate possui várias missões secundárias dedicadas exclusivamente a si mesmas e posso dizer, tendo-as realizado todas, que a variedade está mais que assegurada.

O combate corpo-a-corpo assenta em combinações e contra-ataques aliados a execuções e outras habilidades que desbloquearão mais tarde, enquanto o modo furtivo envolve assassinatos aéreos e utilizar caminhos alternativos como o topo de edifícios e ruínas para nos mantermos longe do olhar dos inimigos. Sim, porque o título possui também uma forte componente de free-running graças à agilidade acima do normal de Talion e a sua capacidade para saltar de edifícios imponentes e aterrar sem qualquer arranhão.

As comparações com os jogos Batman e Assassin's Creed serão inevitáveis, mas a verdade é que a obra da Monolith conjuga estes elementos melhor do que qualquer outro título. Shadow of Mordor junta o melhor de dois mundos com mestria e mantém os jogadores interessados durante as várias horas de conteúdo que tem para oferecer e muitos depois de os créditos já terem rolado pelo ecrã.

O mundo de Mordor é escuro e desolador, o perigo está por todo o lado; Uruks estão espalhados às dezenas por todas as áreas de jogo e as criaturas míticas do universo, como os Caragors e os Graugs, não olham a meios para destruir tudo o que lhes aparecer pela frente. Estamos perante um local onde os humanos ocupam o último lugar da tabela de domínio e os poucos que sobrevivem servem apenas como escravos. Escravos esses que estão no centro do único leque de missões repetitivas do título.

Ainda assim, Udún e Nurn transmitem constantemente a sensação que são locais fora do controlo do jogador e que ao mínimo descuido, a morte é o desfecho mais provável. Isto é especialmente verdade nas primeiras horas de jogo em que, para além de estarmos obviamente mais fracos do que na fase terminal da obra, nos sentimos tentados a enfrentar todos os inimigos que se encontram por perto, algo que rapidamente se revela uma tarefa impossível porque os Uruks dominam por completo estas áreas.

Tendo em conta o cenário de destruição e o sentimento de desespero que paira no ar, não se pode esperar que o título se destaque pela diversidade de cenários e muito menos pelas cores vivas e brilhantes. Afinal de contas, os Uruks têm ódio por tudo o que é belo. Isso não significa que Shadow of Mordor não seja um título graficamente impressionante e com uma enorme atenção aos detalhes. No entanto, serão poucos os momentos de beleza absoluta que encontrarão ao longo da experiência, embora, tal como tantos outros jogos da nova geração, seja particularmente impressionante quando testemunhamos a combinação da noite e a chuva.

Uma vez que estamos perante uma obra baseada num universo tão rico como o de Senhor dos Anéis, não poderiam faltar um número considerável de artefactos espalhados por Mordor à espera de serem recolhidos pelo jogador. Para além de oferecerem mais informações sobre o mundo e realidade das diferentes criaturas que o habitam, guardam também memórias com várias referências à história principal do jogo. Felizmente, todos eles são facilmente encontrados no mapa, assim que subam e forjem a torre que se encontra na área onde estão, despertando mais uma sensação de Dejá Vu.

Os Orcs e Uruks podem não ser os alvos principais do plano de vingança de Talion e Celebrimbor, mas são sem dúvida aqueles que passarão mais tempo a defrontar. Com isso em mente, a Monolith decidiu fazer algo pouco comum: dar personalidade aos inimigos mais frequentes do jogo. A sua sociedade é assente no poder e bravura, o que significa que para subir na hierarquia têm necessariamente de provar o seu valor através de confrontos contra as criaturas que habitam este mundo ou simplesmente atraiçoando os seus superiores.

Esta mecânica dá pelo nome de Sistema de Némesis e a sua complexidade vai evoluindo juntamente com a progressão do jogador pela história e do desbloqueio de novas habilidades. A morte de Talion às mãos de um inimigos significa igualmente que esse subirá na hierarquia e será denominado Capitão. Ao longo do jogo e à medida que vão entrando em contacto com outros Capitães, encontrarão missões de disputas de poder que representam oportunidades únicas para os atacar enquanto estes estão a provar o seu valor através de emboscadas, caçadas, recrutamentos e banquetes, enfraquecendo assim o exército de Sauron.

Para além de oferecerem alvos mais resistentes e um propósito forte para entrar em combate com os mesmos, os Capitães assumem-se como autênticas personagens no mundo de Shadow of Mordor, possuindo os seus próprios medos, ódios, pontos fracos e pontos fortes, com os quais temos de saber jogar para os eliminar da forma mais rápida e fácil possível. Cada Capitão requer uma estratégia diferente de abordagem e consoante o estilo do jogador, poderão representar desafios de maior ou menor dificuldade.

As informações sobre os Capitães e, mais tarde, os Chefes de Guerra são obtidas através de interrogatório de inimigos, bem como a sua localização no mapa. Mas o interrogatório é apenas uma das várias maneiras que podem utilizar os inimigos a vosso favor. Podem também enviar ameaças de morte, que quando concretizadas resultam em melhores recompensas para o protagonista, e dominá-los para que estes lutem ao vosso lado. Escassez de opções não é um problema em Shadow of Mordor.

Como referi, ao derrotar Capitães e Chefes de Guerra somos recompensados com runes específicos para cada uma das nossas armas que nos proporcionarão uma vantagem extra durante os combates, seja, por exemplo, provocando mais danos quando atacamos inimigos pelas costas ou aumentando a nossa resistência a ataques de longa distância. Derrotá-los significa também ganhar Poder que serve para desbloquear acesso a diferentes níveis da árvore de habilidades.

Falar na árvore de habilidades é falar mais uma vez na liberdade de escolhas que o título coloca à disposição do jogador. Dificilmente chegarão ao final da vossa aventura, mesmo após realizarem todas as missões secundárias, com todas as habilidades ao vosso dispor, por isso a forma como vão evoluir a vossa personagem será gerida através da aquisição daquelas que melhor se adaptam ao vosso estilo de jogo. Apesar desta liberdade de escolha, importa mencionar que algumas missões secundárias necessitam obrigatoriamente de algumas dessas habilidades.

Para além das runes e das habilidades, existem também as tradicionais melhorias para serem adquiridas através das quais poderão realizar melhorias à saúde, ao vosso foco com o arco e flecha, ao número de flechas e ao número de runes que poderão aplicar a cada uma das vossas armas. Tudo isto é adquirido através de Mirians que são amealhados pela conclusão de missões.

No departamento sonoro, a obra destaca-se sobretudo pelo excelente trabalho de voz oferecido pelos atores que dão vida às personagens principais da história, mas também aos Uruks com o seu sotaque britânico carregado. A banda sonora acompanha na perfeição a aventura, seguindo de perto o ritmo de ação e respeitando os momentos, ainda que escassos, de maior acalmia. Consegue ser épica em alguns momentos, mas opta maioritariamente por servir como pano de fundo ao que acontece no ecrã.

Middle-earth: Shadow of Mordor é um excelente título de ação e aventura em mundo aberto, um dos melhores do género que a indústria recebeu nos últimos anos e, sem dúvida, um dos melhores jogos deste ano. Aproveitando os melhores elementos das principais séries da atualidade e introduzindo uma nova abordagem aos inimigos com o Sistema de Némesis, a obra da Monolith faz mais do que suficiente para se destacar dos demais, fazendo jus ao universo que lhe serve de inspiração. Em suma, é uma compra obrigatória para qualquer jogador.