Há muito que Minecraft é mais do que um videojogo. A criação da Mojang tornou-se um fenómeno e agigantou-se como item da cultura popular. Os anos foram passando e agora, há escassas semanas, chegou ao mercado Minecraft Dungeons: a inserção da série no domínio dos dungeon crawlers. Horas depois, é uma sólida primeira investida.

Desenvolvido pela Mojang Studios, agora parte da família Xbox Game Studios, e pela Double Eleven, Dungeons não é, nem quer ser, tão complexo como as séries que há muito dominam o género. Quem comprar o jogo à espera de encontrar o novo Diablo, o novo Baldur’s Gate, o novo Path of Exile, ou o novo Torchlight, não demorará muito a ficar desiludido. Dungeons é mais direto, mais desafogado, e, regra geral, mais simples.

O arco narrativo faz pouco mais do que abrir novos locais para serem explorados. Logo nos momentos iniciais, um Illager encontra o Orb of Dominance, um artefato que lhe dá um poder extraordinário, mas que acaba por corrompê-lo, transformando-o no Arch-Illager. Antes rejeitado por quem conheceu, o Arch-Illager procura agora vingança, comandando um exército de criaturas que acabarão por se cruzar no nosso caminho, dando vida aos diversos cenários que teremos que conquistar.

Como se adivinha, o papel do herói é tentar impedir esta tirania, perseguindo-o pelos diferentes cenários antes de chegar ao confronto final. É uma história ligeira, sim, mas que depois de destruído o Orb of Dominance faz Arch-Illager regressar ao seu estado antes de ser consumido pelo poder do artefato, ou seja, volta a ser Archie. É um arco narrativo apostado em passar uma mensagem do bem a derrotar o mal e da importância que tem o amor ao próximo.

Durante esses níveis, as mecânicas de jogabilidade também são fáceis de compreender. Têm os ataques primários e os ataques com projéteis. Têm também uma armadura e mais três slots na personagem para três habilidades baseadas em artefatos. Lutam, exploram, recolhem o loot e vão melhorando o equipamento. Com algumas subidas de nível, têm direito a receber Enchantments que, posteriormente, são colocados nas peças de equipamento.

Não há classes nem uma árvore de habilidades tradicional. Basta ler as descrições dos equipamentos e escolher os mais poderosos ou os que são mais adequados para o vosso estilo de jogo, ou seja, não há também estatísticas associadas à personagem - apenas o “Poder” total. Entre as missões são levados para o acampamento onde podem visitar um Blacksmith (peça de equipamento aleatória de acordo com o vosso nível) e um Wandering Trader (artefato aleatório apropriado para vosso nível). Estas compras são feitas com Esmeraldas que vão recolhendo durante as missões.

Esta simplicidade poderia remover algum do investimento do jogador, contudo, Minecraft Dungeons foi pensado para várias passagens, pelo que a sua longevidade não chega a saturar. Antes de cada missão têm um medidor que permite ajustar o desafio, ou seja, o nível de Poder indicado. E depois de chegarem ao fim pela primeira vez, desbloqueiam níveis de dificuldade mais exigentes que, consequentemente, trazem inimigos mais exigentes, mas também loot melhor.

A jogabilidade propriamente dita, especialmente nos níveis inseridos na segunda parte, tem os seus momentos frenéticos. As dungeons nunca são suficiente complexas para se perderem, até porque há um marcador que indica o caminho a seguir e um mapa que pode ser chamado, caso queiram conhecer todos os recantos e aniquilar todos os inimigos. Mesmo sem a já mencionada complexidade, a jogabilidade tem os processos necessários para ser divertida.

Por exemplo, se tiverem equipado um par de Daggers, caso ativem a habilidade Death Cap Mushroom, o vosso herói torna-se uma máquina rapidíssima a infligir dano. Ainda no caso das Daggers, os Enchantments permitem torná-las ainda mais rápidas, aumentando a duração depois de derrotarem um Mob. Outra habilidade associada a um Artefact útil é a Wind Horn - que afasta os inimigos e torna-os mais lentos durante um breve período de tempo. Novamente, Dungeons consegue entregar aos jogadores estas ferramentas, desde que tenham interesse em experimentar.

Se experimentarem algo que corra mal, mesmo que sejam derrotados no campo de batalha, têm vidas que evitam que tenham que começar a dungeon desde o início. Dungeons não vem para reinventar o género, mas sim para entregar uma experiência divertida, algo sublinhado e atestado com o multijogador cooperativo: seja localmente ou através do online, há suporte para até quatro jogadores em simultâneo. Sem grande surpresa, Dungeons brilha mais alto quando é partilhado com outros jogadores de carne e osso.

Em termos práticos, Minecraft Dungeons afirma-se como uma boa entrada para este género, fazendo praticamente tudo o que pode para não deixar ninguém de fora, proporcionando sessões de jogo bem dispostas e pensadas para serem partilhadas, por exemplo, com os mais novos. Este cuidado transparece-se também no departamento técnico, as dungeons são carismáticas sem serem dantescas, e a banda sonora motiva quando tem que o fazer, mas oferece contemplação e relaxamento, por exemplo, no acampamento já mencionado.

Sendo uma proposta inserida no mundo que a Mojang criou há anos, o grafismo é obviamente apresentado tendo cubos como pano de fundo. Contudo, a execução leva-nos por cenários que primam pela diversidade. Desde florestas a desertos, passando por minas e castelos. Como disse, a longevidade pode não estar nas dezenas de horas, mas o tempo dedicado atribui-lhe uma sensação de viagem.

Jogado numa Xbox One X, fica também para registo que não foram notados abrandamentos na framerate, mesmo quando o número de inimigos no ecrã chegou aos dois dígitos. Além disso, os efeitos dão o ar da sua graça. Para terminar o departamento técnico, isto torna-se ainda mais impressionante se tivermos em consideração que os cenários são gerados procedimentalmente. Esta decisão, obviamente, anda de mão dada com o incentivo para terminar o jogo mais do que uma vez.

A minha única queixa com este tipo de cenário poligonal é que, ocasionalmente, a personagem pode ficar presa nos blocos. Ou seja, a produtora elaborou cenários que caem bem na retina, mas que em trechos ocasionais podem revelar-se não ser os mais práticos. Isto torna-se mais frustrante quando acontece em momentos em que estamos rodeados de inimigos. Não é nada que sirva para dinamitar a experiência como um todo, obviamente, mas um apontamento que merece ser notado.

Quem quiser e jogar o suficiente tem em Minecraft Dungeons uma experiência exigente - não complexa, mas exigente. E quem quiser juntar a família e/ou os amigos tem aqui uma aventura que foi pensada para a partilha e para a diversão. Não trai em nada o nome Minecraft, servindo como uma forma alternativa de experienciar o universo que há muito ganhou um lugar na história dos videojogos e da cultura popular. Aliás, é uma desculpa para reviverem velhos amigos, como os Creeper, que continuam apostados em explodir e a retirar nacos à vossa barra de energia.