Minecraft é uma daquelas palavras que não consegue fugir ao contato com todo e qualquer amante de videojogos. Principalmente ao longo dos últimos anos, tornou-se praticamente impossível acompanhar o desenrolar dos acontecimentos da indústria sem esbarrar, de alguma forma, neste título. Muitos ignoram o apelo feito, limitando-se a ficar com uma mera impressão da essência que o título da Mojang encerra. Outros abraçam o desafio e optam por dar um passo em frente neste simulador que tanto tem para oferecer.

Há apenas algumas semanas a obra chegou à PlayStation 3 pela mão da 4J Studios, que com a ajuda da produtora original se propôs a alargar ainda mais o já amplo horizonte de Minecraft - anteriormente já tinha sido lançado em Mac, Linux, Windows, Android, iOS, Xbox 360 e até Rasberry Pi - numa adaptação à qual era pedido que mantivesse os standards elevados que as versões até aqui lançadas ostentavam, enquanto subia a fasquia apresentando soluções suficientemente aliciantes para reconquistar o público que já tinha tido a oportunidade de pôr a experiência à prova noutros sistemas.

Assim, fui forçado a largar a jogabilidade intuitiva associada ao rato e ao teclado para abraçar a chegada do DualShock 3. Como faria uma criança auxiliada pelos pais, também os nossos primeiros passos na versão PlayStation 3 de Minecraft são apoiados pela existência de diversos tutoriais detalhados sobre tudo aquilo que fazemos. Abrir o inventário, apontar para um objeto, apanhar um novo tipo de material, são ações que desbloqueiam imediatamente um novo menu informativo pronto para nos introduzir às mecânicas do jogo. Não seria possível avançar a um ritmo decente sem a existência desta componente, dado que quando pegamos pela primeira vez no comando da Sony desconhecemos por completo as correspondências feitas em relação aos botões.

Esta componente torna-se particularmente importante quando encaramos o novo sistema de construção, totalmente diferente daquele que fazia parte da versão para computador. Em vez de termos acesso a duas zonas de construção - uma no nosso inventário e outra através da mesa de trabalho - somos agora confrontados com um menu gigante e complexo em que podemos contemplar todos os objetos passíveis de serem construídos no jogo. Se os materiais necessários para a construção de cada um estiverem disponíveis no nosso inventário, podemos criá-los pressionando apenas um botão. Esta nova forma de apresentar a criação de ferramentas deixa de parte a tradicional receita utilizada na versão original, que exigia que o jogador soubesse a "fórmula geométrica" para criar cada um dos objetos que pretendesse.

À primeira vista este novo sistema pode parecer mais confuso, tal é a quantidade de menus e subdivisões apresentadas, mas no final acaba por poupar muito tempo na criação de ferramentas e objetos em grande quantidade. Apesar disso, a facilidade com que rapidamente poderíamos aceder ao menu da mesa de trabalho e criar peças simples é substituída por esta nova abordagem que muitas vezes poderá exigir uma pesquisa mais demorada pelas extensas listas de opções.

Após superarmos o período de habituação associado à curva de aprendizagem do jogo, estamos livres para viver a nossa aventura, à nossa maneira. Minecraft não tem um objetivo propriamente definido, ainda que muitos aleguem que a tarefa principal passe por criar uma personagem suficiente forte, que tenha a capacidade de descobrir o portal para o End (um Universo paralelo dentro do próprio jogo) e matar o dragão que lá vive. Apesar disso, o jogador é livre de explorar todo o seu mundo sem seguir nenhum tipo de regra. As possibilidades são tão numerosas que não tenho dúvidas que facilmente ocupariam dezenas de páginas caso resolvesse falar delas numa análise como esta.

Depois de alguns minutos no mundo aleatoriamente criado na minha primeira sessão de jogo, comecei a dar valor ao facto de estar a jogar uma versão para consola na medida em que o seu desempenho nunca desilude. Os jogadores de computador devem estar familiarizados com as quebras na framerate durante uma sessão mais longa, ou a necessidade de baixar a resolução da imagem para obter um desempenho livre de latência. Como seria de esperar, tais tipos de situações não dão problemas neste caso e a componente visual é bastante equilibrada, sendo que todo o jogo corre com uma fluidez digna de nota.

Os modos multijogador estão presentes de forma intrínseca, sendo possível convidar um amigo para se juntar à aventura desde cedo. Apesar disso, os servidores apresentaram-se completamente despidos de jogadores à procura de companhia, o que provocou uma série crise de utilidade deste modo. Assim, se estiverem a pensar usufruir de Minecraft na PlayStation 3 como uma experiência conjunta, deverão convidar o vosso próprio parceiro enviando-lhe um convite direto.

O jogo conta ainda com uma localização total para a linguagem portuguesa, ainda que esta se revele bastante fraca. Algumas das adaptações perdem o seu nexo na totalidade quando os tradutores não têm sensibilidade suficiente para perceber que há termos que simplesmente não funcionam em português. Ainda assim, esta poderá ser uma mais valia para muitos jogadores.

Minecraft é uma experiência única, seja em que plataforma for. O título de "simulador de LEGO" atribuído por muitos torna-se rapidamente insuficiente face à vastidão de sensações que o jogo da Mojang consegue proporcionar. Na realidade, esta obra representa muito mais do que isso. Para muitos, poderá funcionar como uma segunda casa, onde lhes é permitido darem azo à sua imaginação para esculpir um mundo à sua própria maneira e partilhar experiências em simultâneo com outros jogadores, numa vivência que facilmente pode despoletar a criação de uma grande comunidade.

Minecraft 4

A chegada à PlayStation 3, com a mudança do veículo utilizado para controlar o desenrolar do jogo, é apenas mais uma prova da versatilidade de Minecraft. Nem mesmo o facto de os controlos se terem tornado um pouco menos intuitivos face à adaptação para o DualShock 3 faz com que a viagem através deste mundo geométrico seja má. A essência continua lá, todo o conceito do jogo e o desafio apresentado pela chegada de uma nova madrugada continua presente, independentemente da forma como os jogadores são obrigados a abordá-la e essa é a maior vitória desta adaptação.

Se já faziam parte da extensa legião de jogadores tinha dedicado largas horas à versão PC de Minecraft, esta adaptação para a consola caseira da Sony não inclui componentes suficientes para que se justifique uma nova compra. Porém, se não tiveram a oportunidade de acompanhar o fenómeno criado pela Mojang ao longo dos últimos anos e possuem a PlayStation 3, então esta é uma oportunidade que não deverão deixar escapar.