Minecraft não é uma novidade para alguém, Minecraft pelo talento da Telltale foi uma enorme surpresa. A produtora conhecida pelos idos de The Walking Dead e The Wolf Among Us, pega no baralho seguro da Mojang, baralha e torna a dar de novo, oferecendo uma proposta que ceifa a personalização e aposta quase tudo na narrativa e nas escolhas que caraterizam as suas séries até então.

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A ideia será então não alienar os milhões de jogadores já conquistados e tentar a sua sorte com a franja de pessoas interessadas no seu catálogo, juntando se possível o melhor dos dois mundos. Depois de terminar o primeiro episódio, A Ordem da Pedra, fica-se com a clara sensação que estamos perante o afiar da máquina para uma grande aventura, servindo estas duas horas para lançar escoras e tentar ganhar a confiança dos jogadores, a confiança que vem aí algo que valerá a pena jogar.

Depois de escolhermos se Jesse será um protagonista ou uma protagonista, o enredo vai-se clareando, começando com tarefas que servem para o instalar de um Minecraft com história na mente do jogador, mostrar as várias feições das personagens, incluindo o porco Reuben, usado várias vezes ao longo do episódio como comic relief.

O gangue benevolente de personagens que partilham mais tempo de ecrã com Jesse são Axel e Olivia, com a Telltale claramente a dar-lhes personalidades distintas para alimentar conflitos e decisões mais ou menos difíceis na segunda parte do episódio. O plano inicial é tão pálido que se desconfia imediatamente que haverá algo depois dos créditos rolarem. E todos que desconfiarem estão certos.

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No trajeto até à EnderCon algo corre terrivelmente mal. Depois de resgatarmos um Reuben chamuscado e de um negócio obscuro correr mal, eis que finalmente um Wither é deixado à solta e arranca a jornada que alimentará pelo menos o resto da primeira temporada. É uma força que não pode ser controlada pela bravura destes heróis, portanto o plano passa agora por ir buscar a ajuda dos quatro heróis que compõe A Ordem da Pedra.

Não é necessário terem experiência prévia na obra da Mojang para desfrutarem de Minecraft: Story Mode, contudo o jogo não se escusa a ir piscando o olho aos mais veteranos, recompensando até quem tentar criar uma peça que não a que está prevista, como se reconhecesse os que centenas de peças criaram antes de chegar aqui - ou quem vai ao Google procurar à laia de conquistar um troféu de ouro.

Contudo, percebe-se que o humor e a emoção no primeiro episódio são introduzidos de uma forma mais ligeira, provavelmente dirigindo a estreia a um público mais jovem que aquele que seguiu Clementine ou Bigby. Isto não significa que não tem valor, significa apenas que, pelo menos na estreia, Minecraft: Story Mode praticamente não é dotado de um peso moral, ou de um humor que faça pensar e que encante na chegada à punchline.

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Isto traduz-se nas escolhas que temos pela frente, uma das assinaturas da Telltale. Estão lá, todavia são ligeiras e servem para pouco mais que dar andamento à narrativa. A escolha que requer mais pensamento é a final: sem estragar a surpresa a ninguém, tem o peso que determina o encaminhamento da aventura, determinando o que fazer a seguir e muito provavelmente como começará o segundo episódio.

E por falar no final, impera mencionar que a segunda hora do episódio é francamente melhor que a primeira, o que abona a favor do seguimento imediato da série. É mais infantil e emocionalmente menos exigente, porém, a verdade é que enquanto escrevo estas palavras tenho a vontade de prosseguir caminho com Jesse e companhia, provavelmente jogando a sua continuação no dia em que ficar disponível.

A Telltale é excelsa em conseguir esta vontade no jogador, provando que muitas - ou pelo menos algumas - das preocupações dos jogadores eram infundadas. Estrear uma série nova com a pressão de tudo o que ela já conquistou em todas as plataformas que foi lançada não é tarefa fácil e, ainda que não vá agradar a todos, certamente também não será uma desilusão para as duas falanges de público que tenta reunir e que já foram mencionadas.

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Minecraft: Story Mode não é apenas texto, com a produtora a dotar o primeiro episódio com algumas secções com Quick Time Events e com breves trechos em que temos de lutar contra os inimigos, mas é algo muito breve e sem grande peso para o cômputo geral da obra, uma vez que as lutas, além de serem escassas, são francamente simples e fáceis.

Analisado numa PlayStation 4, o grafismo é sobretudo a continuação do aspeto gráfico que o jogo original enraizou nos jogadores. Existem alguns planos mais apertados das faces das personagens, mostrando que apesar do estilo quadrado e pixelizado, é possível dotar estes heróis com expressões relativamente eficazes, nunca chegando aos píncaros conseguido por Clementine, Kenny, Lee e companhia, contudo, que se esclareça que usar a mesma bitola para avaliar as várias séries da Telltale será injusto.

Novamente, versar sobre a restante componente gráfica é constar que a segunda parte é superior, seja em termos de cenários, seja em termos de criaturas, o colorido e o design dos níveis muda a favor dos criativos. A sonoplastia é marcada pelo alinhamento de personalidades que emprestam os seus dotes vocais à Telltale: Patton Oswalt, Brian Posen e Ashley Johnson assinam um trabalho assinalável, com Ashley a conseguir demarcar-se com algum sucesso de uma das personagens mais icónicas dos últimos tempo, Ellie em The Last of Us.

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Para terminar a componente técnica importa mencionar dois pontos: na consola caseira da Sony não há falhas gráficas graves, contudo por diversas versões é notório que a framerate não foi otimizada, mostrando alguns soluços. A versão do jogo que experimentei podia ser experimentada com o texto em português, contudo, é PT-BR e não PT-PT.

A Ordem da Pedra é claramente o aquecer dos motores, como já foi mencionado. A história começa a tomar uma forma que promete animar os jogadores durante os próximos episódios, caso a mão da Telltale consiga capitalizar as ideias aqui demonstradas e as ideias do episódio seguinte de que tivemos um vislumbre no final deste. Se será um sucesso ainda não se saberá, todavia, não é o espectacular falhanço que muitos anteviam e até desejavam.

Se estão na dúvida em comprar o Season Pass, talvez seja prudente aguardar pelo segundo episódio. Seja como for, mentalizem-se do seguinte: não tem a liberdade e a personalização do jogo original; para já não tem a profundidade e a emoção de outras obras da Telltale. Mentalizem-se também do seguinte: não tinha obrigatoriamente que ter tudo isso para ser uma oferta interessante.