Uma das melhores experiências que posso ter com um videojogo, e que tem sido repetida ao longo dos anos, é definitivamente os inimigos mais poderosos vulgarmente conhecidos por bosses. O produtor quer, no fim de um nível ou do jogo, fazer uma última avaliação ao jogador e colocar à prova tudo o que aprendeu. É revigorante conseguir ultrapassar estes inimigos e ficam quase sempre na memória dos jogadores, mesmo décadas depois de terem sido desafiados.

Monster Hunter concentra o seu charme particularmente neste tipo de inimigos mais desafiantes, desde que surgiu na PlayStation 2 há precisamente dez anos. Porém, a Capcom nunca explorou devidamente a componente multijogador nas portáteis, plataforma onde decidiu migrar oportunamente, em exclusivo, na família de consolas Nintendo 3DS. Com o seu último trabalho publicado, Monster Hunter 4 Ultimate, posso afirmar que esse aspeto está mais robusto e se estende por mais horas a diversão reunida na aventura a solo.

Começar um jogo deste tipo não é nada convidativo. Se são novatos terão de ter uma mente aberta e paciência para conhecer os sistemas que regem o jogo. Uma vez assimilados, será difícil é não aceitar mais uma demanda para caçar um monstro de grandes dimensões, e adiar assim o término da sessão de jogo. Monster Hunter nunca foi conhecido por dar aos jogadores uma narrativa bem composta, o que faz com que a jogabilidade seja o pilar de toda a sua diversão.

Como diz o título, estão aqui para caçar monstros. E se espreitaram a capa, estes terão dimensões bastante generosas. Primeiro, há que escolher a vossa arma de eleição entre as catorze disponíveis, para estarem mais confortáveis na abordagem que vão dar à caça propriamente dita. Têm um catálogo de armas que varia entre ataques de curto e longo alcance, como as Dual Blades - que escolhi por permitirem-me lutar quase como um herói de um título hack'n'slash - ou a Light Bowgun que nos oferece quase uma experiência similar a um FPS.

No entanto, não pensem que é uma escolha fácil, esta é uma decisão muito pessoal onde, sublinho mais uma vez, que o vosso conforto é a parte mais importante. Cada arma é única com propriedades muito diferentes entre si. Algumas são pesadas e diminuem significativamente a velocidade do vosso movimento, mas conseguem deferir golpes muito poderosos como o Hammer ou a Great Sword. Umas até vos dá liberdade de encadear uma sequência de ataques rápidos. Ou, na minha opinião, a mais interessante, a nova Insect Glaive que vos dá a possibilidade de extrair essências do vosso oponente e usá-las para melhorar a vossa força, velocidade ou defesa.

É muito pouco sensato - como o descobri com as minhas demandas falhadas - iniciar uma cruzada sem estarem devidamente preparados. A preparação não envolve apenas a escolha da arma para o serviço, mas também estarem equipados com o melhor vestuário e itens possíveis.

Para adquirir o que precisam, o dinheiro será o menor das vossas preocupações, felizmente. Em vez disso, durante uma demanda, ou uma simples visita ao terreno habitado pelos monstros, terão de amealhar itens como cogumelos, ervas, bagas e minerais de diferentes tipos. Para depois, quando regressarem a casa, criarem novas e mais potentes poções, munições ou até bolas de tinta para não perderem o rasto da vossa presa.

Um outro tipo de recolha que terão de fazer, de muito maior importância, pelo perigo que envolve, é apanhar os espólios dos monstros que vão enfrentando, sejam eles enormes ou ainda mais pequenos que vocês. Estes são a principal matéria prima para o fabrico de novo equipamento bélico e vestuário para as vossas missões, nos ferreiros das aldeias que visitarem.

Porém, o que eu adorei, nas várias quests que completei, foi a Inteligência Artificial dada às várias criaturas do jogo. Para conseguirem aniquilar uma criatura de porte considerável, não terão que desferir apenas os vossos melhores golpes e desviarem-se dos ataques que vos são dirigidos. É preciso ter bom olho e observar os movimentos da criatura, ver onde esta deixa -vos alguma abertura - existe a possibilidade de jogar com as suas investidas e bloqueá-la em determinados locais do terreno -, como é que ela responde aos vossos ataques, impedi-la de restabelecer a sua energia a descansar ou a comer. Enfim, existe um repertório de comportamentos únicos de cada criatura que dão vitalidade à aventura que é caçar um monstro verdadeiramente imponente.

Todavia, não posso escrever esta análise sem apontar alguns pontos de frustração do jogo. Não é que estejam mal ou bem implementadas, mas existem situações que me aborreceram solenemente, na maior parte das vezes, pelo bloqueio das animações das personagens. Por exemplo, o que me aconteceu imensas vezes, é que sempre que bebia uma poção para restabelecer saúde ou comia carne assada para recuperar resistência, a minha personagem ficava bloqueada enquanto estava a efetuar cada uma destas ações.

Isto obrigava-me a fugir da minha presa para um local momentaneamente seguro, sempre com a câmara apontada para ela para que não fosse surpreendido por um ataque. Porque se fosse, antes da animação terminar, não perdia vida do ataque como a minha ação ficou anulada. Após perder um bom número de vezes, só temos três vidas por missão, e a frustração se ter instalado, tive que encarar isto de outra forma. Não só passei a conseguir adivinhar muitos dos comportamentos das minhas presas, como passei a usar Flash Bombs e outros itens de distração para encadear por instantes o monstro que não me dava um pequeno intervalo para o lanche.

O multijogador funciona como seria de esperar, nas sessões que tive prévias ao lançamento do título. Existem vários modos competitivos, como ser o mais rápido a eliminar um monstro com o vosso nome a figurar numa tabela classificativa dos melhores tempos. No entanto, o que mais me preocupava era a estabilidade dos modos multijogador cooperativo. E estes funcionam na perfeição, mas vejo que estes podem diminuir drasticamente a dificuldade das missões da aventura a solo. Existem ainda missões Guild Quest e Event Quest, no entanto, estes ainda não estavam disponíveis até à conclusão desta análise.

Falando agora da parte técnica de Monster Hunter 4 Ultimate, - e saliento que não tive a oportunidade de experimentar o jogo numa New Nintendo 3DS - a Capcom optou por uma visão artística que não corresponde ao hardware para o qual desenvolveu o jogo. Não vou dizer que não fiquei muito impressionado pelo design criativo dos monstros, pelas ruas vibrantes das aldeias pelas quais passei, ou até mesmo pelos ambientes que nos fazem parecer os seres vivos mais pequenos do jogo. Porém, as texturas do jogo são de baixa qualidade, que se notam bem quando a câmara se encontra muito focada num determinado objeto.

Já a sonoplastia, no quadro geral, fez um trabalho satisfatório. Nada de surpreendente. Mas consegue transmitir bem a tensão, quando um combate de grande dimensão está prestes a iniciar-se, com instrumentos metálicos de sopro orquestrados a pôr-nos em alerta imediato sempre que os ouvimos.

Este tipo de jogo nunca me atraiu, assim como nunca tive grande interesse por jogos com uma abordagem diferente da habitual na nossa indústria - como por exemplo Proteus que reduz a jogabilidade para um mínimo nunca antes visto. A ideia aqui é dar uma oportunidade a Monster Hunter pela primeira vez, o início é lento, mas uma vez habituados a todas as suas regras será difícil dizer que não a mais uma caça antes de fechar a consola. E se gostam da ideia de derrotar bosses pela glória, este é sem sombra de dúvida o jogo ideal para vocês.