Monument Valley 2 apresenta-se com o coração nas mãos - é transparente nas suas intenções. Depois do sucesso que foi o primeiro jogo, a ustwo Games regressa com novos puzzles, primeiro nos dispositivos iOS e agora naqueles que correm o Sistema Operativo Android. Não fará novos fãs, mas não será uma desilusão para quem foi conquistado em 2014.

Não tem o impacto causado pelo primeiro jogo, mas a sua essência está cá toda, sendo capaz de envolver o jogador com os seus cenários, espicaçando-nos a curiosidade e a atenção - e o jogador danado à procura de ver qual é a surpresa que o próximo mundo esconderá, o ponto em que o queixo voltará a cair.

É verdade que pertence à categoria de puzzles, mas isso não o impede de contar uma história emocionante. Sem linhas de diálogo, Monument Valley 2 mostra uma mãe, Ro, e a sua filha numa jornada que estende a mão para apanhar vários frutos de uma árvore viçosa - a aceitação, a separação - uma mãe e uma filha que se revelam por gestos, que se nos conquistam pelo sacrifício e pela luta de quem está disposto a tudo pelo amor.

Imagens Analise Monument Valley 2

A história está entrosada com as mecânicas dos puzzles. Não há uma dificuldade que nos obrigue a ficar uma tarde a olhar para o ecrã, mas sim o convite à exploração, um bom equilibro entre descoberta e resolução. Escrever isto é elogiar a arquitetura ao serviço do design dos níveis. O mexer e remexer dos desenhos que são colocados à nossa frente está associado à recompensa de descobrir o caminho a seguir.

Na sua essência, são puzzles que brincam com a nossa percepção do cenário, com o nosso conceito de lógica e de realizável. Uma vez que este design está interligado com os cenários propriamente ditos, a progressão por novas áreas vai mostrando novas camadas da jogabilidade. Assim, em vez de termos uma obra que revela os seus trunfos em dez minutos, capitalizando-os até terminar, temos sim uma proposta que se vai renovando e com isso renova o nosso interesse em si.

São ilusões de ótica que lembra imediatamente um videojogo que podia ter sido desenhado por  M.C. Escher, relembrando também que houve um jogo chamado echochrome. Tocamos no ecrã do dispositivo móvel para fazer com que a personagem se desloque, tocamos para interagir com os objetos que podemos arrastar, tocamos novamente para rodar o cenário, para girar pequenas manivelas, para participar com a ponta dos dedos numa valsa de descobrimento.

Imagens Analise Monument Valley 2

Sim, há que deslocar a personagem do ponto A ao ponto B, mas a viagem vale sempre mais do que o destino. Indo buscar ao já mencionado arco narrativo, há trechos em que jogamos com mãe e filha em simultâneo, estando dependentes das ações conjuntas. Na horizontal e na vertical, caminhos que se unem em planos diferentes, o impossível da gravidade como conceito prontamente desarmado.

Já bem lançados na progressão por Monument Valley 2, quando já pensávamos que tínhamos as suas mecânicas dominadas, a produtora introduz árvores na obra. Podiam ser uma decoração estilística, mas não, pois é dada ao jogador a habilidade de controlo da luz solar, fazendo com que as árvores mirrem ou despontem enquanto giram sobre si, é mais uma camada dada à jogabilidade; é mais uma camada que remexe a ideia que temos sobre o conceito da obra.

Monument Valley 2 triunfa em ser um jogo inteligente, muito inteligente, mas sem nunca fazer o jogador sentir que está a jogar algo acima das suas habilidades. Sempre que uma nova mecânica é apresentada, há uma curva de aprendizagem composta por suaves incrementos. Os veteranos podem não sentir grande desafio, mas continua a ser inegável, independentemente da vossa experiência, que é uma lição de design de uma ponta à outra.

Imagens Analise Monument Valley 2

Não esperem, porém, que seja uma lição muito longa. É possível terminar o jogo em quatro ou cinco horas. Isto peca por dois motivos. Primeiro não é um jogo barato, e em segundo é uma obra que deixa imediatamente saudades. Compreendo que a produtora não quisesse dar prioridade à quantidade face à qualidade, mas são puzzles que deixam saudades, são personagens que têm mais história para contar, mais emoção para deixar à solta.

O já mencionado design beneficia claramente do departamento técnico. No campo sonoro é um daqueles jogos que pede auscultadores, uma vez que a banda sonora está intrinsecamente ligada ao que se passa no ecrã, complementando bem o grafismo, dando-lhe suporte. E o grafismo, bem, o grafismo é mais uma prova que os videojogos, quando saídos de mentes talentosas, podem ser arte.

Não só as imagens que rodopiamos e estudamos certificam que os puzzles funcionam ao ínfimo detalhe, mas como as cores lhe dão carisma. Saídas de uma paleta garrida, são mescladas até a produtora ter conseguido assegurar a variedade, as texturas e os efeitos necessários para nos encantar. É como se fosse filigrana colorida na ponta dos dedos.

Imagens Analise Monument Valley 2

Amarelos e verdades, fuchsias e degradês, a obra é cuidada e estilizada, capaz de chocar os olhos depois de os embalar. Há cenários em que o arco-íris é trocado pelo preto e pelo branco, combinados até que o cinzento seja apresentado com a exaltação do corte e não como um apaziguamento de sensações.

Mesmo tendo uma longevidade curta e mesmo não conseguindo o impacto do primeiro jogo, aquilo que Monument Valley 2 faz merece a recomendação aos fãs de puzzles. O design aliado a departamentos técnicos inspirados dão o mote para uma história emocionante. Quem gostou do primeiro, é muito provável que já tenha terminado a sequela. Os que ainda não o fizeram, têm a oportunidade de tornar as viagens de autocarro muito mais interessantes.