A gestão do nosso inventário e o constante acumular de recursos muitas vezes de forma automática e quase sem pensar até ao momento em que somos brindados com a mensagem de que o burro já leva demasiada carga são daquelas mecânicas que estão presentes numa enorme variedade de jogos, mas que raramente têm um impacto ou importância notória durante a jogabilidade. De uma forma geral, ou lidamos com a escassez de recursos que nos obriga a pensar duas vezes antes de os utilizar ou então vamos lutando contra o limite aleatório que o jogo determinou para a quantidade de recursos que podemos transportar.

Ou se peca por defeito, ainda que em jogos de sobrevivência isso seja inevitavelmente parte fulcral do seu design, ou se peca por excesso, tornando os recursos de tal forma abundantes ao ponto de serem quase irrelevantes. Dito isto, eis que surge Moonlighter, um roguelike que utiliza de forma extremamente inteligente a repetição que está inerente ao seu género para transformar os recursos obtidos durante a exploração das masmorras em algo tão ou se calhar até mais importante do que a conclusão das mesmas, isto é, que o derrotar do Boss que nos aguarda no último piso de cada uma elas.

Afinal de contas, é através da nossa loja e da venda destes recursos que vamos ganhando os meios para enfrentar os desafios que as dungeons nos vão colocando e chegando cada vez mais longe nas mesmas. Praticamente todos os inimigos derrotados vão largando itens que podem depois ser vendidos na nossa loja, sendo que alguns deles são também importantes para a compra e produção de poções de saúde, bem como de armas e equipamento melhores do que aqueles com que iniciamos a aventura por esta estranha cidade com misteriosas masmorras subterrâneas recheadas de perigos e itens valiosos no seu interior.

Assumindo o controlo de um jovem convicto em chegar às profundezas de todas as masmorras e que herdou igualmente os destinos da loja de família Moonlighter, o jogador equilibrará os dias entre a exploração noturna dos estranhos locais para a obtenção de recursos e a venda e atendimento aos clientes durante o dia. Um dos aspetos que mais impressiona nesta obra é a forma como consegue fazer com que esta dicotomia resulte tão bem, ou seja, consegue tornar a venda de recursos e a gestão da loja tão entusiasmante e recompensadora como a progressão nas masmorras.

Isso deve-se em muito à profundidade que o jogo confere ao processo de venda dos recursos. Não pensem que é só colocar os itens nas mesas e expositores e ver o dinheiro começar a cair na conta bancária. Não, longe disso. Não nos dando qualquer indicação sobre o real valor dos itens, o título da Digital Sun pede-nos para sermos mestres vendedores e analisarmos constantemente a reação dos clientes aos preços afixados para que possamos compreender se o preço está demasiado elevado, um pouco sobrevalorizado, perfeito ou demasiado baixo. 

Para além disso, é também preciso perceber que existem diferentes tipos de clientes, sendo que alguns estão dispostos a pagar quantidades que o comum dos clientes não pode comportar. Se isto ainda não for suficiente para vos convencer da profundidade desta componente da obra, há ainda por mencionar a existência de ladrões sempre prontos a apanhar-vos desprevenidos e roubar os vossos mais valiosos itens, a possibilidade de colocar decorações que, por exemplo, incentivam os clientes a dar gorjetas superiores, e também o facto de que a venda repetitiva do mesmo item pode levar à saturação do mercado e, por consequência, à diminuição do preço que os clientes estão dispostos a pagar.

Tudo isto serve, como é óbvio, para que obtenhamos o maior retorno possível pelas nossas explorações noturnas, sendo que esse dinheiro será depois alocado à já mencionada melhoria de armas e equipamento, mas também da própria cidade e da nossa loja. Numa fase inicial, os objetivos passarão pela entrega de financiamento para a abertura da loja onde comprarão as armas e equipamentos - nota positiva para o facto de podermos colocar itens numa lista de desejos que assinala desde logo os recursos que servem para a sua produção - e da loja onde comprarão as poções e poderão fortalecer equipamento através de encantamentos.

Depois disto poderão proceder à expansão e melhoria da vossa loja, algo que vos garantirá entre outras coisas, caixas registadoras que conferem maior percentagem nas gorjetas, mais decorações e locais de venda e até uma cama que vos garante um bónus de saúde. Se porventura perceberem demasiado que necessitam de recursos que apenas podem ser obtidos numa masmorra já concluída e não quiserem regressar, podem sempre investir na abertura de um loja de retalho onde poderão comprar esses mesmos recursos. Enfim, não faltam formas de gastar dinheiro em Moonlighter e rapidamente perceberão que terão mesmo de obter o maior retorno possível das vossas vendas para continuarem a progredir.

É também por todo este foco no amealhar de recursos que a morte não é um destino tão frequente como noutros títulos roguelike. Morrer significa perder praticamente todos os recursos obtidos, pelo que rapidamente o jogo nos ensina a não ir com "demasiada sede ao pote". Na verdade, seja através de um pêndulo mágico ou de um portal de teletransporte - a utilização de ambos requer o gasto de algum dinheiro -, o jogador dará por si com frequência a travar o progresso na dungeon para voltar a cidade, vender os itens que recolheu e regressar mais tarde com todo o espaço do inventário livre novamente e, possivelmente, já munidos de equipamento mais poderoso.

Uma vez que a melhoria do equipamento está intrinsecamente ligada à progressão nas masmorras, o jogo garante que nunca se tornam mais fortes do que é suposto e que têm sempre um objetivo claro - aquela nova arma ou equipamento que necessita de determinada quantidade de um recurso específico de uma das masmorras para ser produzido - bem presente na vossa mente. O combate de Moonlighter é mecanicamente simplista, mas consegue manter-se interessante graças à enorme variedade de inimigos que requerem abordagens distintas e também às diferentes armas disponíveis - podem, por exemplo, alternar entre a espada de maiores dimensões e o arco e flecha para terem a possibilidade de atacar em proximidade ou à distância.

Como já referi, a morte não é, ou pelo menos não deve ser, um destino frequente nesta aventura, mas isso não significa que não venha a acontecer algumas vezes. A permanência no mesmo piso de uma masmorra durante demasiado tempo lança um criatura fantasmagórica verde em vossa perseguição que é capaz de vos matar com um único ataque. Para além disso, o avançar pelos pisos traz também consigo um maior poder de inimigos que no primeiro nível eram derrotados facilmente, bem como uma maior probabilidade de encontrarem áreas com um número superior de inimigos em simultâneo. 

Os próprios Bosses requerem quase sempre mais que uma tentativa e, como é óbvio, isso significa que terão de recomeçar a masmorra mais do que uma vez. Felizmente, as masmorras não se alargam por demasiados pisos e o jogo coloca-vos rapidamente de volta à ação, algo que impede que a irritação surja quando vemos os nossos esforços falharem. O recomeçar de uma masmorra é muitas vezes também uma nova oportunidade para amealhar recursos e dessa forma aumentar a nossa conta bancária, o que depois permitirá o nosso fortalecimento. É neste ciclo viciante que está o segredo do sucesso de Moonlighter.

Dito isto, as mais notórias deficiências de Moonlighter surgem no seu departamento técnico. Não no que diz respeito ao seu estilo visual, que como tanto outros jogos do género opta por uma estética altamente pixelizada, mas que é capaz de criar cenários diversos - cada masmorra tem a sua própria temática - e designs de inimigos de qualidade, mas sim no que diz respeito ao polimento. Estruturas na cidade que de repente ficaram invisíveis, uma framerate que após uma bastante longa sessão de jogo decidiu começar a soluçar constantemente, obrigando-me a reiniciar a aplicação para que voltasse ao normal, bem como o protagonista a ficar preso momentaneamente no cenário foram apenas algumas das situações com que me deparei durante as largas horas que passei com a obra. 

Estes pequenos soluços não foram suficientes para afetar de forma significativa o meu tempo com a obra e, mais importante que isso, nunca provocaram a minha morte durante as dezenas ou até talvez centenas de passagens pelas masmorras. De referir ainda que a banda sonora, embora faça o suficiente para acompanhar a experiência e acentuar o tom pitoresco da aventura, está longe de conseguir evitar que, após várias horas, não acabem por optar por acompanhar a experiência com a vossa própria banda sonora.

Moonlighter é um excelente roguelike, uma das melhores obras de 2018 e um jogo capaz de viciar e proporcionar inúmeras horas de entretenimento. Se são fãs do género, então o título da Digital Sun é uma recomendação óbvia. Se nunca o experimentaram, Moonlighter pode perfeitamente ser o jogo que vos convencerá das qualidades deste género de experiências. Uma aliança perfeita entre exploração de dungeons e gestão de uma loja faz deste jogo algo especial, diferente e original.