Depois do estrondoso sucesso obtido com Injustice 2, tanto a nível da crítica especializada, como a nível comercial e da receção calorosa por parte dos jogadores, a NetherRealm regressa agora à sua série de maior renome e com uma já longa e atribulada história na indústria dos videojogos. Embora sejam obras diferentes - Mortal Kombat é claramente uma experiência virada para a fação de jogadores hardcore do género -, é notória a influência que a fórmula aclamada do jogo protagonizado por heróis e vilões da DC teve no desenvolvimento de Mortal Kombat 11.

Apesar disso, após o acumular de horas no novo capítulo da série fica desde cedo evidente que o esforço para levar ainda mais longe as opções de personalização que tornaram Injustice 2 uma experiência tão apetecível para jogadores casuais e hardcore, aumentando consideravelmente a sua longevidade para o primeiro destes dois grupos, acaba por ser um dos problemas mais gritantes de uma obra que ao nível da jogabilidade se apresenta praticamente imaculada.

Mortal Kombat 11 tem muito para oferecer no capítulo do loot, mas a velocidade a que o faz deixa bastante a desejar. Não deixa de ser igualmente incrível que num jogo com tantos tipos de moedas distintas, nenhuma delas vos permita desbloquear as skins, acessórios, Brutalities ou Fatalities que efetivamente querem sem estarem dependentes da aleatoriedade das recompensas que o jogo vai oferecendo pelo vosso desempenho. Diga-se também que num título que não é propriamente pobre no número de lutadores que compõem o seu alinhamento, a enorme quantidade de conteúdo de personalização para obter torna-se quase avassaladora.

É esta conjugação de fatores que acaba por prejudicar de sobremaneira a sensação de progressão e recompensa proporcionada pela obra à medida que as horas se vão acumulando. Mortal Kombat 11 não é forreta nas recompensas que concede após cada partida que fazem, seja em conteúdo desbloqueável propriamente dito ou nos vários tipos de moedas que vos permitem ir depois até à Krypt explorar o cenário e abrir as muitas arcas recheadas de recompensas por lá espalhadas, mas isso não impede que a sensação de que temos de trabalhar mais do que seria desejável para obter aquilo que queremos seja constante.

A Krypt leva-vos de volta à ilha abandonada de Shang Tsung e traduz-se num misto de local repleto do que são essencialmente loot boxes que requerem o uso de moedas para serem abertas com alguns puzzles ambientais que envolvem a interação com locais de interesse na ilha para abrir o acesso a novos locais que os fãs da saga gostarão certamente de voltar a visitar, como por exemplo o Lair de Goro. A exploração é feita na terceira pessoa e a obtenção sucessiva de itens clássicos como o martelo de Shao Kahn e o espigão de Scorpion confere-lhe um certo elemento metroidvania. Ainda assim, não consegue fazer muito para disfarçar o facto de ser um modo cujo principal propósito é a abertura de loot boxes.

Mas se o sistema de loot pode estar longe da perfeição, o resto dos elementos que compõem a experiência oferecida por Mortal Kombat 11 apresentam um nível de qualidade que satisfará por completo os fãs do género. Aliás, não seria de esperar algo diferente de um estúdio com tanta experiência neste tipo de obras. Tal como Injustice 2, a nova entrada da série que faz colidir personagens de Earthrealm, Netherrealm e Outworld prima por oferecer um pacote bastante completo, seja através da quantidade de modos disponíveis, tanto offline como online, ou pela diversidade de lutadores e estilo de combate em exposição.

Graças a um bastante aprofundado tutorial que vos levará desde as mecânicas mais básicas de utilizar durante os combates até a elementos mais avançados que provavelmente só serão devidamente utilizados pelos mais habilidosos no género, o novo Mortal Kombat é acessível e suficientemente convidativo para jogadores casuais sem perder a profundidade que aqueles mais habituados às idiossincrasias da série. Acima de tudo, os combates brilham pela fluidez dos movimentos, a incrível sensação de impacto dos diferentes ataques dos lutadores e pelo espetáculo visual que os rodeia.

Como não poderia deixar de ser, as Fatalities que são um dos esteios da série voltam a marcar presença na obra com cada lutador a apresentar dois movimentos de finalização bastante gráficos para fazer a delícia dos fãs. Nota-se ainda assim que os mais espetaculares são aqueles que não estão imediatamente disponíveis para serem executados, isto é, aqueles que precisam de ser primeiro obtidos numa das recompensas aleatórias do jogo. 

Para além disso, houve também a introdução de Brutalities que geralmente levam a decapitações no final de um combate. Para serem realizadas, não só têm de realizar um tipo de ataque específico para finalizar o que resta de saúde do vosso oponente, como também respeitar outros critérios. Por exemplo, uma das Brutalities de Sonya Blade só pode ser executada se não bloquearem qualquer ataque durante o combate. Outra novidade é a existência de Fatal Blows que podem ser descritos como ataques especiais que apenas ficam disponíveis quando a vossa saúde está perto do fim. Para além de serem fáceis de executar e extremamente violentos, são uma boa forma de reequilibrar um combate e até mudar o seu desfecho.

No que diz respeito aos modos de jogo, há a destacar os tradicionais modos para aqueles que quiserem enfrentar jogadores de carne e osso online, ou seja, King of the Hill, Ranked Match, AI Battle, Versus e partidas privadas, bem como a Kombat League, torneio competitivo cuja primeira série arranca daqui a dez dias. Para aqueles que preferem lutar contra a inteligência artificial ou com amigos localmente - há a possibilidade de criar torneios neste último caso -, as Klassic Towers voltam a ser responsáveis por oferecer uma experiência mais ao género das arcadas, colocando o jogador a enfrentar uma sequência de inimigos até ao Boss final para desbloquear um “final” para cada personagem do elenco.

Há torres que vão dos cinco até aos doze adversários, uma torre que vos desafia a derrotar o maior número de oponentes sem sofrerem a derrota e outra que testará a vossa capacidade para sobreviver a 25 lutadores com uma única barra de saúde. Finalmente, existem as Towers of Time que são um conjunto de torres temáticas que oferecem mais e melhores recompensas, terminam com um confronto contra um Boss e apenas estão disponíveis durante um determinado período de tempo antes de serem substituídas por outro conjunto de torres. De referir que é possível utilizar consumíveis amealhados ao longo do vosso tempo com o jogo para tentar inverter algumas vantagens concedidas à IA nas torres. E sim, a questão da dificuldade já foi resolvida.

Para último deixei aquele modo pelo qual todos os jogadores passarão, ou seja, o Modo História. Apesar de não ter o mesmo nível de qualidade da narrativa entregue em Injustice 2, Mortal Kombat 11 oferece ainda assim uma bastante interessante história com momentos de relevo e algumas interações marcantes entre personagens do seu elenco. O seu final acaba por não deslumbrar e aparenta ser mais uma forma de a produtora poder começar do zero num futuro título, mas são três a quatro horas de conteúdo que valem a pena serem jogadas e que não são definitivamente um mero bónus às restantes componentes da obra. Será também, para muitos, a introdução aos diferentes lutadores e os seus estilos de combate.

Relativamente ao departamento técnico, Mortal Kombat 11 segue a linha de Injustice 2 e apresenta-se igualmente como uma das obras mais graficamente poderosas no mercado, o que se torna ainda mais impressionante quando o comparamos com as restantes obras do género no mercado. A modelagem das personagens é particularmente notável, sobretudo no modo história, mas também os efeitos visuais e a qualidade dos cenários que servem de pano de fundo aos combates é igualmente assinalável. Por sua vez, no ramo da sonoplastia, a banda sonora mantém o tom negro, pesado e épico que é característico da série, os efeitos sonoros ampliam com sucesso o impacto dos socos, pontapés e outros ataques dos lutadores, e a vocalização é suficientemente sólida para suportar com sucesso a narrativa.

Desta forma, Mortal Kombat 11 é bastante competente na vasta maioria dos seus processos, falhando apenas na forma como lida com as recompensas ao jogadores, mais concretamente com a aleatoriedade das mesmas, que como é óbvio acaba por se traduzir num falhanço em manter o jogador motivado em busca de desbloquear mais opções de personalização para as suas personagens favoritas. Excelente no departamento técnico e na jogabilidade, e com uma boa oferta de modos de jogo, Mortal Kombat 11 é uma recomendação fácil para fãs da série e do género.