Um videojogo sobre fazer mudanças pode não parecer muito apelativo na teoria, mas Moving Out consegue transformar um trabalho físico em níveis frenéticos, cómicos, cooperativos. Mesmo com alguns momentos onde é a frustração a comandar o estado de espírito, as SMG Studio e DEVM Games entregam uma proposta que no seu cômputo geral merece ser experienciada se partilhada com outros jogadores de carne e o osso.

O processo começa com a escolha e personalização da personagem que querem ser, com mais opções a serem desbloqueadas consoante o progresso que forem fazendo. Desde um humano a personagens com rosto de torradeira ou de vaso, passando por gatos em cadeiras de rodas e unicórnios, Moving Out declara desde bem cedo que quer oferecer sessões de jogo bem humoradas.

Constantemente assente em piadas, o vago arco narrativo leva-nos a vestir a pele de um trabalhador que está a começar uma carreira como Furniture Arrangement and Relocation Technician - ou F.A.R.T. se quiserem usar a abreviatura. Aliás, se optarem pela abreviatura percebem também que as piadas não primam pelas nuances e pelo eruditismo. Como técnico, deslocam-se pelo mapa aos controlos de um camião, parando e fazendo mudanças nos diferentes edifícios que vão sendo desbloqueados.

Em cada local há um determinado número de objetos que têm que colocar no camião de mudanças. O melhor tempo que conseguirem garante-vos uma medalha que varia entre bronze, prata e ouro. Além disso, há objetivos secundários que só são mencionados depois de concluírem o nível pela primeira vez, convidando assim os perfeccionistas a diversas passagens pelo mesmo local.

As regras são incrivelmente simples de compreender, com Moving Out a afirmar-se pela jogabilidade que o alimenta. Temos objetos que podem ser transportados por um jogador, mas outros que precisam de mais força muscular, ou seja, de dois jogadores ao mesmo tempo. Colocá-los nos camião obriga à gestão de espaço, uma vez que o volume de cada item não desaparece depois de depositado com sucesso - a não ser que ativem o Modo Assistência.

É, inquestionavelmente, um videojogo pensado para ser experimentado em cooperação, funcionalidade que comporta até quatro jogadores em simultâneo. Antes de cada nível começar, a obra oferece-nos uma panorâmica do que temos pela frente: gerir o plano de ataque - quem pega em quê, que itens devem ser movidos primeiro, se alguém fica a colocar os objetos no camião enquanto os seus companheiros vão atirando-os do edifício, enfim, diferentes processos que elevam uma jogabilidade que é sempre baseada na física.

Com o passar do tempo, contudo, os processos vão-se complicando. Não só temos pela frente objetos que se partem, como alguns cenários colocam interruptores no caminho, outros levam-nos a um comboio em movimento, e outros há que nos fazem apanhar animais vivos (sim, apanhar galinhas tem tanto de desafiante como de frustrante), e ainda há tempo para termos, por exemplo, que escapar a fantasmas e evitar ancinhos espalhados pelo chão. As produtoras tentam ao máximo que a motivação e o gancho da jogabilidade de Moving Out não se esgotem precocemente.

Muito deste sentimento de novidade está associado ao design dos próprios níveis. Quintas, fábricas, mansões, apartamentos, um rio, enfim, os locais são diversos e os obstáculos também. Por exemplo, temos que mover objetos enquanto saltamos entre troncos e crocodilos, ou enquanto atravessamos a estrada; isto para não falar em plataformas que obrigam a uma temporização apertada ou uma piscina que divide a área de jogo e obriga a uma cooperação em sintonia para demorar o menor tempo possível.

O caos provocado por Moving Out é inevitável. Durante as mudanças vão partir objetos que não precisam de ser deslocados e vão estilhaçar muitas janelas. Tudo faz parte do espectáculo: os efeitos sonoros ajudam ao turbilhão que é a passagem desta equipa de mudanças. A questão é que durante o caminho de destruição em contrarrelógio, ocasionalmente o esquema de comandos em conjugação com a física deixam de lado a diversão e a vertente frenética, incidindo o seu foco na frustração.

Agarrar e arrastar os objetos é fácil, contudo, na hora de os atirar, especialmente quando estamos a deslocar algo que precisa de mais de um jogador, pode ser mais trabalhoso do que seria ideal - apontar, para ser mais preciso. Quando temos em mãos, por exemplo, sofás em L, passar por alguns pontos dos cenários é um teste à colaboração e às próprias amizades - especialmente se terminarmos o processo com uma bofetada. Sim, a mecânica está lá e devia ser usada apenas nos adversários, como nos fantasmas, mas podem ser também aplicadas aos parceiros de equipa.

Nestes momentos, a magia de Moving Out cai por terra, mostrando uma vez mais que o jogo foi pensado para ser - e funciona como - uma garraiada ritmada. Tal como se fossemos profissionais de uma empresa de mudanças na vida real, é entrar no local, fazer o que temos a fazer e sair. Os imprevistos por devaneios dos jogadores fazem parte da diversão, mas a mínima pedra na engrenagem provocada pela obra é notada e amplificada. Felizmente, estes momentos são escassos, mas fica a nota que o título não é apenas uma fábrica de fazer sorrisos e gargalhadas.

Importa destacar dois apêndices à progressão tradicional que acrescentam algo valioso ao cômputo geral. Com o acumular de moedas cumprindo os objetivos secundários já mencionados, podem reviver momentos marcantes na história das mudanças. Graças à VHS Superstore, são cenários onde, bem, decorreram mudanças históricas. Na prática, os processos são os mesmos, mas nestes níveis especiais a criatividade não tem teto, ou seja, podem ter que jogar num labirinto assombrado, por uma cheia, ou num avião, entre outros. Há também um salão arcada onde podem, mediante o amealhar de medalhas de ouro fazendo os melhores tempos, experimentar outro leque de níveis especiais.

O grafismo de Moving Out condiz com o tom bem-disposto da escrita. Ainda que não primam pelo fotorrealismo das texturas, são áreas de jogo com cores pastel fortes, alimentando bem as diferentes divisões de cada edifício. Ao pressionar de um botão temos em destaque os objetos que ainda faltam recolher, com a produtora a perceber que não poderia ter cenários demasiado idênticos. Os gráficos são, acima de tudo, funcionais. Podíamos parar e contemplar cada detalhe, mas o relógio é sempre implacável.

Esta decisão faz também que não tenha notado qualquer abrandamento ou quebra na framerate. Jogado numa PlayStation 4 Pro, é uma proposta fluida, mesmo quando o ecrã está preenchido com itens e a ação é partilhada por mais do que um jogador. E uma palavra ainda para a banda sonora, que coloca nas colunas uma viagem no tempo até aos anos oitenta, encaixando perfeitamente no jogo como um todo.

Moving Out tem a sua componente de estratégia e tem também os seus trechos frustrantes, mas as memórias que deixou estão associadas à cooperação no seu sentido lato. Quando funciona, é uma mistura de adrenalina e sorrisos; é um bom exemplo de não querer ser a parte mais fraca na equipa, melhorando após cada tentativa. Às vezes é preciso um jogo sobre mudar itens para um camião para que essa união seja despertada e consagrada, assim haja a vontade para colaborar.