Pedro Martins por - Jun 4, 2014

Murdered: Soul Suspect Análise

Quantas vezes já morreram à lei dos videojogos? Invariavelmente, a vossa matemática chegará à conclusão que lhe perderam a conta há muito. Seja por falta de habilidade, por culpa do jogo ou por mil e uma desculpas inventadas no momento, sacodem a poeira dos ombros, recarregam o último checkpoint e continuam a vossa estadia no título de eleição. Murdered: Soul Suspect tem como grande premissa alterar esse comportamento automático, ou seja, aqui a morte é definitiva, com o vosso percurso pelo título a cobrar essa reviravolta inicial.

A morte fascina as artes. Em todos os quadrantes existem expressões que retratam à sua maneira o fim, tema também apetecível à discussão sobre essa incerteza. Muitos acreditam que é um ponto final, a maneira da natureza fazer a gestão da condição humana, outros acreditam que é apenas uma passagem para outra etapa. Não sei no que acredita cada membro da Airtight Games, mas conheço agora os desígnios que inventaram para Ronan O’Connor, protagonista de Soul Suspect.

Como já devem ter depreendido, O’Connor morre nos momentos iniciais do jogo. Atirado de uma janela e baleado, as palavras que subsistem não demoram a dar lugar à constatação que deixou o corpo para trás, sendo agora um espectro à solta por Salem, Massachusetts. Não deambula muito até o seu passado de detective dominar-lhe o pensamento, contudo, em vez de investigar a morte de terceiros, aqui a investigação recai sobre si próprio na tentativa de encontrar paz etérea e reencontrar-se com a sua mulher, também falecida.

Na teoria, a produtora arrisca com uma abordagem que deixou muitos curiosos, todavia, as bases já foram experimentadas e ao combinar o sobrenatural, a perseguição de um assassino em série, cargo entregue a Bell Killer, e a resolução de crimes, sabia que teria a atenção de uma falange considerável de jogadores ansiosos por descobrir quem é o assassino e quais são as suas motivações para deixar um rasto de casos à espera do nosso discernimento astuto.

Basta olharem para o sucesso redundante de True Detective para terem uma melhor compreensão do fenómeno. Todavia, a série televisiva da HBO resultou em pleno graças à escrita de Nic Pizzolatto e às prestações dos dois protagonistas. Soul Suspect nunca chega a esse escalão, mas a narrativa não desilude totalmente. É verdade que lhe falta alguma imprevisibilidade, contudo, não é motivo para pousarem o comando e passarem ao jogo seguinte.

Ainda no campo das letras, deixem-me mencionar que a profundidade dada às personagens cumpre os requisitos mínimos numa obra que dá tanto enfâse à sua trama. Ronan tem os seus motivos para continuar a investigação e levar os jogadores a dar uma volta com ele e as personalidades secundárias, sobretudo as que protagonizaram as várias mortes com que nos vamos cruzando a mando do arco narrativo, também não desiludem, sendo penoso assistir ao reviver de um caso secundário que envolve a morte por afogamento atada a uma cadeira, ou testemunhar o sofrimento de Iris e da sua irmã, Rose.

Indubitavelmente, a personagem que mais sobrancelhas vai levantar é Joy, uma médium que, apesar de estar viva, consegue interagir com Ronan. O seu papel ajuda a guiar o protagonista em várias etapas da trama, porém, é a sua personalidade que fará a paciência de qualquer efervescer: adolescente habituada a lidar com este tipo de situações, as linhas de texto, sobretudo na fase inicial, transparecem egoísmo e fazem de Joy uma autêntica diva sobrenatural.

A jogabilidade Murdered: Soul Suspect assenta em vários pilares. Predominantemente, vão ter que resolver cenas de crime recorrendo aos poderes que adquiriram quando morreram. Numa determinada área terão que recolher pistas passando a pente fino o local em questão. Além das pistas, Ronan consegue possuir quem está por perto. Neste estado é possível ler-lhe o pensamento, espreitar o que estão a ver e influenciar o seu julgamento. É possível lerem o pensamento a transeuntes que se cruzem com vocês em qualquer ponto do jogo, contudo, isto normalmente resulta em duas linhas de texto desinteressantes.

Voltando ao que o nosso protagonista tatuado pode fazer quando assume a entidade de outrem, espreitar o que esse indivíduo está a fazer resulta quase sempre no avançar da história, todavia, para mim o mais interessante é mesmo a influência que se pode exercer. Quando chegados a um hospital psiquiátrico, Joy tenta convencer a recepcionista a aceitar uma visita fora das horas normais. Claro que o resultado é um redondo não, contudo, Ronan é capaz de explorar o seu cubículo, olhar para vários objetos circundantes e espreitar o que está no ecrã à sua frente. Depois de assimilados todos os pontos de interesse, podemos fazê-la recordar alguém, apelando ao seu instinto e vergar-lhe a vontade.

Apesar de existir sempre uma lógica neste exercício, alguns deixarão os jogadores a coçarem a cabeça e a pensarem como seria possível discernir aquela cadeia de pensamentos. Felizmente, o jogo redime-se e não penaliza severamente quem falhar, certificando-se que não ficarão presos no mesmo local até a intriga dar lugar à frustração. Invistam tempo suficiente em Soul Suspect e começarão a encontrar um padrão que passa, invariavelmente, por vasculharem todos os locais à procura de pontos de interesse.

Mas não pensem que tudo é fácil e linear. Numa exposição tinha que recolher um determinado número de pistas e faltava-me apenas uma, tarefa que me consumiu demasiado tempo e me deixou exasperado, até perceber que estava, literalmente, a pairar sobre a minha cabeça. E cheguei até ela devido à linha de raciocínio, que me fez lembrar do caso que tinha resolvido previamente.

Esta procura torna-se ocasionalmente frustrante porque na sua condição de espírito, Ronan é capaz de passar pela maioria das paredes e o jogo não tem mapa, ou seja, além de deixar um rasto luminoso na textura que acabou de ultrapassar, ocasionalmente torna-se obtuso explorar o local que nos ocupa momentaneamente. Não pensem, contudo, que podem usar e abusar desta ausência de limitações físicas. A Airtight certificou-se que esta liberdade ilusiva tem os seus limites onde lhe convém tecnicamente, alegando que só podem entrar em edifícios que tenham sido deixados escancarados. Pode parecer rebuscado, mas é compreensível e evita que o jogador se afaste muito do sítio onde está o objetivo.

Mas a jogabilidade não é apenas isto. Não se podem esquecer que Joy é humana, portanto terão que abrir a sua passagem por locais supervisionados. Por exemplo, na esquadra terão que criar um Poltergeist em vários objetos, como telefones, televisões, máquinas de tirar café ou impressoras, enfim, pontos que se tornem o alvo da atenção dos guardas. Ou nas alas do hospital psiquiátrico terão que fazer o mesmo nas câmaras de videovigilância e abrir as portas à sua passagem.

De salientar que Soul Suspect tem várias missões secundárias em que poderão ajudar outros mortos a encontrarem paz. Logo no início do jogo podemos auxiliar uma rapariga que quer perceber como é que morreu e onde está o seu corpo. O desfecho? Os vizinhos não gostaram do barulho que ela fazia. A mesma fórmula é aplicável a alguém que morreu afogada e com um pouco de investigação ficamos a saber que os seus atos finais salvaram vidas. Não só prolongam a longevidade do título, como nos deixa exercitar o nosso lado de Sherlock fora da linha principal.

Se possuir pessoas, televisões e material de escritório não é suficiente, a produtora pensou em vocês, aliás, não foi apenas em vocês porque esta particularidade é obrigatória para avançarem na aventura: podem encorpar um gato preto. Porque não? Enquanto animal de estimação podem aceder a condutas de ventilação e trepar heras pela parede acima. Larguem o comando por breves momentos e o vosso amigo enrosca-se e começa ronronar. Mais, temos um botão dedicado a fazê-lo miar. O nome da ação? Meow.

E para que a vossa progressão pelo jogo não fosse apenas andar de caso em caso, trabalhando cada cena com a minúcia do discernimento, a produtora achou conveniente dotar certos cenários do jogo com demónios. Criaturas dantescas que podem ser avistadas pressionando o R1 e que não precisam de muito para vos sugarem a existência. O processo é simples: estão espalhadas pelo cenário vários pontos gasosos onde se podem esconder, sendo possível viajar entre eles. Num ato furtivo terão que apanhar o demónio distraído e graças a um Quick Time Event terminar a sua existência, sendo possível distraí-los, por exemplo, com corvos.

Existem dois desfechos: ou dominam perfeitamente a mecânica e aniquilam a sua presença rapidamente, o que torna a experiência aborrecida, ou falham e eles reparam na vossa presença, perseguindo-vos momentaneamente e, por diversas vezes, acabando por me enviar ao último checkpoint. Pessoalmente, acho que não só acrescentam nada de significativo à jogabilidade, como patrocinam alguns momentos frustrantes, especialmente quando no cenário estão dois ou três.

Usando a versão PlayStation 4 para analisar o jogo, tecnicamente temos uma obra competente. Não deixará ninguém de queixo caído nem encantará ninguém com a vocalização das personagens, com cada campo a servir apenas o seu propósito. Percorrendo todos os locais clichés neste tipo de jogos – igreja, cemitério, hospital psiquiátrico, etc – a atmosfera representa isso mesmo, um jogo de ação na terceira pessoa com pitadas de terror. Ironicamente, foi nos demónios, um dos pontos que menos apreciei no jogo, que está o seu maior feito gráfico, graças a um design genuinamente assustador.

Murdered: Soul Suspect prometia uma abordagem refrescante e, parcialmente consegue colocá-la em prática, ou seja, a maneira como a narrativa é apresentada serve para cativar os jogadores que, movidos pela sua curiosidade, acabarão por conquistar capítulo após capítulo. Todavia, a execução deixa bastante a desejar, assentando em mecânicas cómodas e que depressa transformam cada resolução de crime numa lista de afazeres pouco flexível. Não quer dizer que tudo seja mau e que seja um calvário chegar ao seu final, apenas que o título não tem pulmões para aguentar o fôlego inicial.

veredito

O argumento alimenta a curiosidade dos jogadores, mas as mecânicas perdem fulgor com o avançar do tempo.
6 Tecnicamente competente. Narrativa deixará os jogadores curiosos. Demónios oferecem momentos frustrantes. Investigação deixa a desejar.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments

Murdered: Soul Suspect

para PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360, Xbox One

MURDERED: SOUL SUSPECT takes players into a whole new realm of mystery…

Lançado originalmente:

06 June 2014