Não faço ideia de quantos jogadores deram uma oportunidade a Mutant Year Zero: Road to Eden desde que este se estreou no mercado no início do passado mês de dezembro, mas é quase criminoso que a obra do estúdio The Bearded Ladies não tenha sido recebida de forma mais calorosa tanto pela imprensa especializada, como pela comunidade de jogadores. Contra mim próprio falo, já que apenas agora encontrei tempo para escrever sobre todas as valências do título.

Pouco importa que já tenham passado quase dois meses desde o seu lançamento, a qualidade deste jogo tornou imperioso que a sua existência não fosse ignorada no VideoGamer Portugal, especialmente porque, ao contrário de muitas outras obras que não chegamos a analisar, já tínhamos acesso a uma cópia da obra desde o momento em ficou disponível no PC, PlayStation 4 e Xbox One - nesta última plataforma está inclusivamente incluída no serviço Xbox Game Pass desde o dia de lançamento.

As comparações com XCOM, a série de eleição neste género de experiências, são óbvias e fáceis, mas Mutant Year Zero não merece ser rotulado como um mero clone das obras da Firaxis. Sim, os combates estratégicos por turnos com enorme ênfase no vosso posicionamento no cenário e na forma como isso influencia as percentagens de sucesso dos vossos disparos são uma componente indissociável da sua jogabilidade, mas é a sua combinação com uma livre exploração de níveis 3D e uma componente de ação furtiva que o elevam para um patamar de qualidade ainda mais assinalável.

Mais do que complementos aos combates tradicionais, a exploração e a ação furtiva revelam-se muitas vezes tão ou mais recompensadores que os confrontos abertos contra vários inimigos em simultâneo. Isto deve-se ao facto de também estes dois elementos da jogabilidade estarem imbuídos de um forte cariz estratégico. É através da exploração livre dos cenários que recolhem os recursos, artefactos e peças de armas que serão depois vitais para melhorarem as vossas armas, a vossa armadura, aplicarem diferentes atributos às mesmas e, não menos importante, comprarem itens como granadas - de fumo, explosivas ou molotov - ou os indispensáveis kits médicos.

E é mesmo importante que explorem exaustivamente os diferentes cenários da campanha, já que os recursos estão longe de serem abundantes e algumas das melhores armas e armaduras apenas são obtidas durante essa mesma exploração. Isto significa que, por exemplo, nunca terão “dinheiro” para se rechearem de kits médicos e que num nível repleto de robôs terão de ponderar se não será mais útil o investimento numa granada EMP para lhes bloquear os movimentos durante alguns turnos. Já a abordagem furtiva mostra-se extremamente útil para reduzir lentamente os inimigos que populam o nível.

De uma forma geral, este processo caracteriza-se por uma exploração do nível para uma análise do posicionamento e rota de movimentos dos inimigos de forma a que possamos maximizar as nossas hipóteses numa emboscada a um oponente que se encontre mais afastado dos restantes. Mais uma vez, para além da estratégia associada à escolha do inimigo, do momento e do posicionamento das nossas personagens aquando da nossa ofensiva, existe também a necessidade de analisar os pontos de danos que as nossas armas silenciosas são capazes de fazer num só turno a um inimigo e se isso é suficiente para eliminar o oponente antes que este tenha oportunidade de alertar os seus companheiros.

À medida que vão progredindo na campanha e que os inimigos se tornam mais poderosos, eliminar adversários de forma furtiva apenas num turno e apenas com as armas torna-se praticamente impossível, e é aí que as habilidades únicas dos nossos Mutants se revelam essenciais para que esta tática se mantenha eficaz. Bormin, por exemplo, consegue incapacitar inimigos com a habilidade Hog Rush, enquanto Farrow tem uma habilidade que lhe permite, à custa de uma ligeira perda de precisão do disparo, garantir que inimigos robóticos ficam imobilizados com uma descarga elétrica.

As habilidades não se ficam por aqui, como é óbvio, e a existência de cinco personagens jogáveis - a party é composta por três - com as suas capacidades únicas e melhorias de armas que aumentam, por exemplo, a possibilidade de incendiar o inimigo ou de provocar uma descarga elétrica, significa que Mutant Year Zero: Road to Eden está munido de todos os componentes necessários para entregar uma experiência tática extremamente profunda, recompensadora e altamente viciante.

Apesar de o modo permadeath estar disponível para aqueles que pretendem uma aventura mais arrojada por este mundo pós-apocalíptico, o processo de aprendizagem advindo do fracasso é claramente parte da experiência e nunca se torna frustrante já que o jogo grava automaticamente o vosso progresso sempre que saem de combate, ou seja, sempre que eliminarem um inimigo de forma furtiva, nunca mais terão de voltar a preocuparem-se com o mesmo. Uma vez que certas habilidades requerem um determinado número de inimigos mortos para voltarem a ficar disponíveis, será frequente terem “mais olhos que barriga” e o jogo não demorará a castigar-vos pela abordagem deficiente aos inimigos.

Com uma longevidade que não é demasiado curta, nem se estende por mais tempo do que é aconselhável, a obra de The Bearded Ladies mantém-se fresca durante as largas horas que passarão com a mesma graças à variedade de inimigos e a cadência com que vão sendo introduzidos, ao excelente design dos níveis que inclui elementos destrutíveis e verticalidade, e uma progressão e habilidades distintas para as diferentes personagens jogáveis. Mutant Year Zero evolui de forma inteligente juntamente com a evolução da habilidade de quem o joga.

Felizmente, não é apenas na jogabilidade que o título brilha, já que também a sua narrativa se revela bastante interessante. Como já foi referido, a obra tem lugar após um apocalipse nuclear provocado pelo homem e o que resta da humanidade coabita na Ark, uma estrutura imponente no qual se tenta viver uma espécie de vida normal. Para ajudar na sua subsistência, Stalkers, grupo ao qual as personagens jogáveis pertencem, são enviados para explorar as terras radioativas populadas por Ghouls, humanos cuja mente e corpo foram corrompidos pelo ar contaminado, conhecida como a Zone em busca de recursos.

Bormin e Dux, as personagens com as quais começamos a aventura, são Mutants, isto é, animais antropomórficos que não têm qualquer memória das suas origens e que foram acolhidos pelos humanos da Ark. Carismáticos - o jogo conta com um sólido trabalho de vocalização -, este duo conhecerá outros Mutants durante a campanha e rapidamente começará a questionar tudo aquilo que sempre assumiu como verdades absolutas. Graças a uma cativante interação entre as personagens e a uma narrativa cujo mistério nos mantém investidos na demanda deste javali e pato falantes, a obra tem neste departamento mais um ponto de interesse onde se calhar nem necessitava, tal é a qualidade inegável da sua componente jogável.

Dito isto, importa mencionar que a conclusão da narrativa deixa bastante a desejar. Não é má, de todo, mas transmite uma sensação de que chegamos simplesmente a um fim do primeiro ato e não ao ponto final da aventura de Bormin e companhia. É também uma pena que as poucas cinemáticas da obra, que são apresentadas com imagens pintadas à mão que parecem saídas de uma banda desenhada, tenham apenas a narração de Bormin, não havendo qualquer diálogo entre as personagens nestes momentos. Na verdade, o diálogo brilha mais pela reações peculiares dos protagonistas ao mundo que os rodeia do que propriamente quando se foca nos desenvolvimentos do arco narrativo.

No que diz respeito ao departamento técnico, o jogo mostra-nos o cenário tridimensional numa perspetiva área e serve-se de uma grafismo sólido que destaca acima de tudo os efeitos de luzes. De mencionar a forma inteligente como a produtora decidiu remover o ruído no ecrã durante a exploração para que a folhagem das árvores e outros elementos do cenário não obstruam a vossa visão da ação. Adicionalmente, é igualmente importante salientar que jogado numa PlayStation 4, a obra mostra-se completamente adaptada para ser controlada por um comando.

Mutant Year Zero: Road to Eden é assim uma muito boa surpresa num género que é praticamente sinónimo de uma popular série de jogos, uma obra que merece ser jogada por todos aqueles que apreciam obras ao estilo de XCOM ou simplesmente experiências pautadas por uma forte componente estratégica. Merecedor de um louvor bem superior ao que conseguiu numa janela de lançamento longe de ser ideal, Mutant Year Zero é um jogo de recomendação fácil e um dos melhores jogos de 2018 - ainda que só em 2019 o tenha jogado.