Os fãs tinham grandes expetativas para Need for Speed. Muitos estavam sedentos de sensações que o género não consegue satisfazer. Viram as primeiras imagens e os primeiros vídeos e acreditaram - ou pelo menos queriam acreditar. A sueca Ghost Games já se tinha estreado na série com Rivals e agora tinha nos ombros o peso de fazer um reboot à saga sem a ajuda da Criterion Games.

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Dediquei uma parte significativa das últimas semanas a deixar-me embrenhar por esta cidade, estes carros, estas personagens. Seguindo a fórmula habitual, começamos insignificantes e gradualmente vamos tornando-nos uma força da natureza automobilística, subindo de nível, comprando e sobretudo personalizando carros, ganhando o respeito dos nossos pares, começando a acreditar que realmente somos os reis destas terras.

Lá chegaremos às mecânicas de condução, contudo há uma trama que se predispõe a alimentar a nossa progressão. Como provavelmente já tiveram oportunidade ver, a Ghost optou por recorrer às prestações de atores de carne e osso, provavelmente para dar um toque de realismo. Não são precisas muitas horas para começarmos a testemunhar as várias falências desta aposta. Ver a prestação destes atores e atrizes é cedo relegar a narrativa para segundo plano e ficar siderado no quão má é.

Por diversas vezes afloram clichés e trocas de diálogos que saem do ecrã como falsos, ou melhor, como atores a representar e não como personagens. É verdade que têm a profundidade de uma folha de papel, contudo há algo na interação entre eles e com a nossa personagem que é ridículo, como se quase tudo fosse uma paródia do próprio jogo.

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Não era preciso sermos contemplados com prestações idênticas às de Bryan Cranston em Breaking Bad, compreendendo que episódios como "Crawl Space" não estão ao alcance de todos, todavia a única surpresa nestas prestações é a forma como aliada a prestações risíveis se alia a estagnação das personagens, ficando a sensação que foi decretada uma linha reta para todas as interações, independente do que está a acontecer à sua volta ou de quem está em determinado momento na cena.

E a narrativa propriamente dita também não está na linha da frente para ser galardoada. Movendo-se sobretudo por terreno já calcorreado, há inveja misturada com a desgarrada vontade de impressionar, como se o valor de cada um dos cinco protagonistas precisasse constantemente de aprovação e reconhecimento: se ninguém souber que és bom de que vale sê-lo?

Começamos a escalada competindo nas ruas de Ventura Bay, provando o nosso valor em vários estilos de jogabilidade. Contudo, quase tão importante como a própria demonstração de habilidade ao volante é a forma como preparamos cada competição. Podemos armazenar vários carros na garagem, comprando e vendendo bólides que ajudam a comprovar a nossa progressão pelo mundo subterrâneo de borracha queimada e de tinta raspada.

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Tal como já disse, vamos ganhando dinheiro e reputação, subindo de nível consoante a nossa prestação. Need for Speed não é um jogo que castiga demasiado o jogador fazendo-o salivar a olhar para carros que não pode ter. Algumas horas depois de ter escolhido o meu primeiro carro já tinha na garagem um Skyline e poucas horas depois já conduzia um Lamborghini.

Ainda que tenha vários carros de marcas consagradas - sim, incluindo o sempre cobiçado F40 - Need for Speed quer que os jogadores não se limitem a comprar novos carros como quem compra o jornal diariamente. Mais que fazer do jogador um novo rico, a Ghost quer torná-lo num mecânico dotado, capaz de personalizar cada carro até à perfeição, ou pelo menos até extrair todo o sumo possível dele.

E isto tem um impacto direto na jogabilidade e na forma como o jogador prepara cada corrida. Não podem - ou pelo menos não devem - encarar uma prova de velocidade com a mesma configuração que alinham numa prova de drift, algo que aprenderão na teoria ou na primeira vez que tentarem "soltar" a traseira do carro e sentirem que os pneus são feitos de Super Cola 3. Não chega a ser algo revolucionário, mas serve para embrenhar o jogador no espírito daquele submundo. Aliás, se quiserem levar a precisão das vossas escolhas ao limite, o jogo permite ajustar a pressão dos pneus traseiros e dianteiros, assim como a resposta e o alcance da direção.

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É também possível alterar o visual da vossa máquina, instalando spoilers e saias, fumando os vidros, alterando os tubos de escape, instalando jantes capazes de fazer chorar os designers da Lamborghini - tudo depende do gosto de cada um, mas se chegarem a comprar o Murciélago LP 670-4 SV, vejam as jantes da fifteen52. Dependerá sempre da vossa obsessão e do dinheiro que tiverem na carteira visual. E se não ficarem satisfeitos, é também possível desenhar as vossas próprias pinturas.

Mais necessária é a atualização da performance de cada carro. Desde o travão de mão à suspensão, passando pelo diferencial, pela embraiagem e pelo sempre necessário nitro, podem facilmente vender um carro totalmente diferente do que compraram. Porém, não pensem que basta ter bolsos fundos para extrair 1000 cavalos, uma vez que além de algumas opções exigirem um determinado nível, estão também dependentes da conclusão das missões dadas por Amy, por exemplo.

O lote de personagens que aparecem nas cenas de vídeo não serve apenas para catapultar a narrativa. Cada uma tem um estilo onde precisam de competir de forma mais ou menos uniforme. Em Need for Speed, o telefone é transversal à forma como progridem na narrativa. Atendendo chamadas, consultando o mapa da cidade ou as mensagens, vendo o estado da vossa reputação dividida pelos cinco estilos, estarão sempre a consultar o dispositivo que opera na NFS NET nuns miraculosos 5G.

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Para tentar diversificar a jogabilidade, temos que aceder aos pedidos para competir em Style, Crew, Speed, Build e Outlaw. Infelizmente, Need for Speed não tem processos tão entusiasmantes como a teoria pode levar a crer. Com o acumular de horas instala-se a sensação de estagnação, praticamente de rotina e não há aquela chama que nos faz correr para o comando sempre que há algumas horas livres no dia.

No seu melhor estão algumas corridas em que o jogador é colocado na "zona", onde a fusão entre homem e máquina não nos deixa pensar em mais nada. Infelizmente, no seu pior está a monotonia e uma inteligência artificial que não coopera com a nossa habilidade, ou seja, mesmo na vossa melhor prestação de sempre, a concorrência tende a ser injusta, sentimento que é instigado por um rubber banding desmedido e extremamente irritante.

Tive algumas corridas em que o segundo ficou para trás, contudo não é essa a norma. Tive muitas corridas em que o segundo ficou para trás e ao mínimo deslize recuperou centenas de metros em segundos, como se a personalização dos seus carros tivesse a opção de teletransporte. Nas primeiras vezes respirei fundo; consequentemente a paciência esgota-se.

Além disso, a categoria de drifting também consegue tocar os dois opostos. Se por um lado consegui divertir-me a encaixar curva e contracurva, multiplicando os pontos e dominando a posição do meu carro, por outro lado sente-se que é demasiado penalizadora, fazendo-me perder essa sensação de encanto ao mínimo toque, ao mínimo raspão. Há sempre jogadores melhor que o que pensamos ser, contudo sei que não sou tão mau como o jogo me quis fazer ver várias vezes.

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Parece que a produtora não teve tempo de ajustar tudo devidamente, afinando a jogabilidade ao que devia ser um desafio proporcional à recompensa. Não é preciso ser injusto para ser progressivamente mais desafiante. Aliás, seria perfeitamente natural que as últimas provas fossem mais exigentes que as primeiras e não haveria nenhum problema em repetir cada uma delas, ensaiando até conseguirmos ser melhores que a concorrência. Infelizmente, Need for Speed opta por se mostrar agreste castigando a performance do jogador que evoluiu durante a sua estadia até então.

Outro aspeto incompreensível é a exigência da sua componente online. Se por um lado é interessante a possibilidade de desafiar outros jogadores e da criação de uma crew, não faz sentido que depois de tanta celeuma no meio, o jogo necessite de uma ligação permanente aos servidores da EA. Se eu quero jogar sozinho, por que motivo sou expulso se a ligação falhar? Por que é que o jogo precisa de ter uma consola online quando o seu dono está a escolher spoilers para o seu carro?

Ainda que não seja assinalavelmente diverso, o grafismo do jogo é um dos seus pontos altos. A fidelidade gráfica é assinalável, contudo a demarcação é a atmosfera que daí advém. A chuva, as poças de água no alcatrão molhado, os reflexos das luzes no carro, o fumo que sai da sarjeta, enfim, Need for Speed tem alguns momentos genuinamente inspirados.

Uma das funcionalidades mais secundárias do jogo é a disposição de alguns locais onde podemos tirar fotografias. É curioso que seja também uma funcionalidade que nos vai relembrando que esta cidade se presta a uma cinematografia assinalável. A sonoplastia também merece ser mencionada, tanto pelo roncar dos motores como pelas várias músicas que compõe um espetro que peca apenas por não ser mais eclético.

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Pode ser perigosamente injusto avaliar um jogo pelo que ele podia ter sido, porém, Need for Speed não consegue ser um jogo de condução facilmente recomendável. A jogabilidade tem algumas falhas e não consegue entusiasmar o suficiente para só descansarmos depois de vermos os créditos finais, algo que aliado a alguma injustiça no comportamento dos rivais e à tão contestada necessidade do online para respirar, é capaz de afastar - ou desiludir - muitos dos que há muitos aguardavam o regresso da série que ajudou a nutrir o seu amor pelo género.