Em incontáveis momentos, Need for Speed Heat fez-me sentir um melhor jogador do que o estava a ser na realidade. A Ghost Games dotou a sua nova obra com um esquema de jogabilidade generoso, que graças a uma nova forma de engrenar o drifting pode transformar cada curva num acontecimento. Não é o melhor jogo de corridas do ano, mas nestes momentos é muito difícil não sentir a descarga de adrenalina enquanto controlamos o acelerador.

Inspirada na Flórida, Palm City é a cidade escolhida para que as corridas e o arco narrativo de Heat tomem conta da nossa estadia. Sim, Heat tem um arco narrativo, um chorrilho de clichés que farão muitos fãs adivinharem os desfechos, sorrirem com as situações onde o heroísmo enlatado e personalidades com a profundidade de uma folha de papel andam à solta. Ninguém compra jogos de corridas arcada pela sua trama, mas estamos perante uma sucessão de acontecimentos que se torna complicadíssimo levar minimamente a sério.

É um argumento que não perde tempo nenhum a nadar sem pé. Depois de uma perseguição que resultou num violento acidente, a polícia equaciona a hipótese de matar o participante numa corrida ilegal. Isto é na cena de abertura, antes de termos oportunidade de personalizar a nossa personagem. Em Palm City, a polícia parece viver para aniquilar os esforços de quem organiza e participa em corridas ilegais, algo que transparece quase como uma obsessão.

Este tipo de corridas é, obviamente, ilegal. Todavia, a forma como a polícia decide combatê-las não obedece propriamente a grandes leis. O Tenente Frank Mercer é o rosto mais visível desta luta, mas a corrupção está por toda a parte, como tão bem espelha a personagem Shaw. Além disto, há ainda personagens que foram criadas para traírem o lado a que supostamente deveriam ser fiéis, quando a sua ajuda é precisa. E como seria de esperar, há ainda a ramificação familiar, graças a Lucas e Ana, irmãos que assumem um papel preponderante na nossa chegada e afirmação nas ruas de Palm City.

A nossa personagem vai, sem grande surpresa, ganhando mais e mais importância na tentativa de lutar contra a força policial, que logo após as primeiras horas de jogo já está, através de uma das personagens, a colocar carros em contentores de forma obviamente ilegal. Escusado será dizer que Heat não vai ficar na história pelo seu argumento descartável, seja pelo alcance do que quer contar, seja pelos vários diálogos paupérrimos, seja pela falta de ambição para tentar entregar algo fora de caminhos já calcorreados.

Por sua vez, a espinha dorsal de Need for Speed Heat apresenta alguns trunfos, ainda que não seja imaculada. Como jogo de arcada, deslocam-se pela cidade, activando corridas secundárias (que podem ser de sprint, em circuito, fora da estrada, de drift, etc) ou participando em missões que fazem a história progredir. Pelo caminho vão amealhando dinheiro ou Reputação. Obviamente, algumas missões de história obrigam-vos a ter chegado a um determinado nível e há uma recomendação para o patamar onde o vosso carro deve estar (isto pode ser melhorado com a compra de peças ou de um carro melhor).

E é precisamente aqui que entra na equação a grande mecânica de Heat: podem escolher se querem correr de noite ou de dia. Enquanto o sol brilha, as provas servem sobretudo para amealhar dinheiro. Quando jogam de noite, as provas servem para ganhar reputação (conquistando corridas, recolhendo colecionáveis, destruindo veículos da polícia, etc), porém, há que contar quase sempre com a inclusão de perseguições policiais no meio das provas ou até mesmo enquanto se estão a deslocar para os eventos ou até à garagem mais próxima.

Não pensem, todavia, que estão seguros se deixarem para trás a polícia. São vocês que decidem quantas corridas é que querem fazer por noite e quantas mais provas fizerem, maior é o Heat. O Heat funciona como um multiplicador da reputação conquistada, contudo, as contas são feitas quando chegam à garagem. E quanto mais Heat tiverem, maior é a presença da polícia - que pode chamar helicópteros, camiões, assim como usar cintas com espigões para cortar a estrada. Isto é interessante porque é o jogador que terá que apostar se quer amealhar mais e mais reputação, arriscando mais e mais ser apanhado, ou se quer dirigir-se a uma garagem mais cedo, com um multiplicador inferior, mas com uma probabilidade menor de ser apanhado.

É inegável que olhar para um multiplicador considerável e fazer todos os possíveis para não dar nas vistas é sinónimo de adrenalina. Quando começamos a ser perseguidos com muito a perder e somos encurralados pela polícia, vendo a barra que nos indica o quão perto estamos de ser presos, é quase como se houvesse um novo sentido que entra em ação, o que nos leva a tentar tudo para tirar o carro daquela situação. São momentos onde Heat faz jus ao nome e onde, acreditem, não há um segundo que seja dedicado ao risível argumento.

Outro dos mecanismos que se torna surpreendentemente parte da equação é a rede de postos de abastecimento espalhados pela cidade. Durante o dia podem usá-los livremente, mas durante a noite estão limitados a três passagens entre visitas às garagens. Os carros vão sofrendo dano (há habilidades que reduzem o dano sofrido ou aumentam o dano infligido) e cada passagem restaura a vitalidade do vosso bólide. Gerir os momentos para tirar partido desta funcionalidade é algo que se revela, como foi mencionado, intrínseco às vossas sessões de jogo.

O sistema dia/noite funciona também porque acarreta as óbvias diferenças estéticas e, uma vez que a Ghost Games foi inteligente a colocar certas missões de história dependentes das recompensas de dia ou de noite, o jogo terá que ir alternando entre as duas “versões” da cidade. Isto evita que o jogador tenha a sensação que já fez e viu tudo em Palm City de forma precoce. Curiosamente, esta sensação de descoberta prolongada faz também com que ir amealhando os colecionáveis (cartazes, arte de rua, flamingos cor de rosa, etc) ou participar em atividades secundárias (realizar saltos, drift em segmentos da cidade, atingir uma determinada velocidade, etc) não sejam vistos como trabalhos poucos minutos depois de começarem.

Com o acumular das horas, todavia, começa-se a sentir algum cansaço na hora de participar nas provas principais. As corridas têm os seus momentos emocionantes, mas a variedade de eventos é claramente demasiado escassa para ser repetida durante várias horas. Vão sendo desbloqueadas novas provas, mas não há a apresentação de novas variantes de forma consecutiva. Sim, há competições fora da estrada e outras em que o drift é rei, mas o molde nunca foge muito do que é apresentado durante os momentos a seguir ao arranque.

Antes de versar sobre a jogabilidade propriamente dita, urge destacar que o dinheiro e o nível da vossa reputação permitem melhorar os vossos carros com um leque recheado de opções: motor, chassis, transmissão, e funcionalidades auxiliares, são estas as principais categorias, sendo que cada uma está dividida em várias subcategorias. Desde o sistema de escape à unidade de controlo do motor, passando pelo turbo, travões, tipos de pneus, embraiagens, caixas de velocidades, e até diferencial, há muito onde investir o vosso dinheiro, com várias opções a serem progressivamente desbloqueadas consoante for o vosso nível.

As funcionalidades auxiliares mencionadas estão alojadas em duas categorias: ativa e passiva. Podem comprar, por exemplo, kits de reparação ou até um item que bloqueia os ataques Kill Switch. No departamento dos auxiliares passivos, podem comprar, por exemplo, uma habilidade que interfere com o radar da polícia, melhorar o nitro do vosso carro e, curiosamente, a possibilidade de reduzir substancialmente o tempo que os pneus demoram a encher depois de passarem por uma cinta de espigões. Apesar de nem tudo ter um impacto significativo, é inegável que o leque de opções é bastante robusto.

Os tais momentos em que o jogador é levado a crer que é o melhor piloto do mundo estão associados à forma como a maioria das curvas pode agora ser negociada. Basta acelerar, soltar o acelerador, começar a fazer a curva e continuar a acelerar para o carro ficar com a traseira solta. Como os carros têm “peso” nos controlos, é muito fácil manter o drift, controlando o ângulo com o acelerador. Na prática, isto significa que perder a traseira e acabar por deslizar em demasiada é um desfecho muito pouco provável.

Assim, abordar as curvas mais longas pode agora ser feito a uma velocidade estonteante, não se perdendo grande momento por ter o carro a andar “de lado”. Este espectáculo é associado ao gritar dos pneus e a facilidade com que muitas vezes ainda vamos a tempo de controlar a trajectória e fazer o carro passar junto dos veículos com que nos cruzamos. Heat foi claramente pensado para que todas as provas sejam frenéticas e desfrutadas mesmo pelos jogadores que se inserem no lote que detesta provas de drifting.

É uma jogabilidade que anda de mão dada com o lado cénico de Palm City, como é comprovado pelas penosas subidas a um monte que faz parte do cenário, recompensando-nos quando o caminho é vertiginosamente a descer. Ou quando exercemos o direito a deslizar é aplicado a corridas que passam por campos, dunas ou simplesmente pelo areal. Os principais problemas da jogabilidade estão associados ao que não controlamos, ou seja, à Inteligência Artificial.

Além de sentir algumas incongruências nas prestações da competição, ou seja, há provas idênticas em que chegar e manter a liderança é muito mais exigente do que noutras. Ocasionalmente são provas bem disputadas e noutros eventos há um fosso enorme que é praticamente impossível de recuperar ou de perder. Mas o grande pecado da Inteligência Artificial é a forma como os polícias têm, sobretudo, o jogador na mira em detrimento dos outros concorrentes.

Não me interpretem mal: quando há lutas minimamente justas, os momentos de adrenalina estão lá; contudo, quando há o segundo e o terceiro classificados por perto, e todas as investidas são contra nós, torna-se complicado achar uma sensação de justiça - por irónico que isso possa soar. É que, convém não esquecer, as corridas são ilegais para todos os participantes, não apenas para quem está a segurar o comando ou a dar uso ao teclado.

Ser enviado para fora da pista ou falhar uma curva poderia ser compreensível, se todos tivessem o mesmo tratamento. Assim, por diversas vezes estava a ter uma prestação sólida e o prazer que se retira de uma prova bem disputada, mesmo que se perca, é estilhaçado porque a esquadra resolveu que o meu carro tinha um enorme alvo pintado na traseira. Gerir estas investidas e a concorrência poderia ser desafiante, caso essa concorrência tivesse que lidar com tantos ataques sedentos de chapa batida.

E por falar em carros, são mais de cento e vinte veículos disponíveis com a progressão feita pelo jogo. É um lote mais do que suficiente, especialmente se tivermos em consideração que há inúmeras opções de personalização - além das melhorias já mencionadas. E sim, o McLaren P1, o Ferrari LaFerrari e o Porsche 918 Spyder marcam presença. É um alinhamento maleável, pois graças às peças que forem comprando, vão tendo bólides todos para o drift, para o todo-o-terreno, e para as competições em estrada. É uma pena, então, que mediante tamanha garagem, não exista a possibilidade de usar uma visão no interior dos carros e assim podermos apreciar por interposta pessoa tamanha assombração.

O grafismo de Need for Speed Heat denota a experiência acumulada pela Ghost Games. Jogado num PC em Ultra, a cidade está cheia de detalhes que permitem uma experiência de exploração interessantíssima, sendo um grafismo que é elevado sobretudo pelos efeitos. Ou seja, não só a sensação de velocidade - com ou sem nitro - faz-se sentir, como a chuva atesta uma atmosfera bem conseguida. É o jogo de corridas com o melhor grafismo? Não, não é.

Todavia, estar nos semáforos e ver uma recta à minha frente. Os faróis de outros carros reflectidos no asfalto, tal como as luzes. A chuva a bater no tejadilho e na câmara, água que também desce pelo chão. Os candeeiros de rua e as luzes encarnadas de aviso nos postes de alta tensão atam tudo isto, conferindo-lhe uma sensação fria. E importa atestar que muito dos cenários, especialmente o que ladeia os traçados, é passível de ser destruído, o que atribui a sensação de destruição a inúmeras partes das corridas. O calcanhar de Aquiles deste mundo não é a qualidade gráfica, mas sim a falta de dinamismo e de vida orgânica presente na cidade.

No que à banda sonora diz respeito, há o roncar dos motores que podem ser trabalhados nas opções de personalização, conferindo-lhes ainda um tom mais rouco. E há uma banda sonora que não demora muito até estar a repetir músicas até à exaustão. Compreendo que estão inseridas no tema citadino e bem sei que pertencem a um género musical que está longe de ser o meu preferido. Todavia, horas e horas atrás do volante deverão fazer qualquer um começar a averiguar como é que podem ouvir as playlists que têm gravadas no Spotify ou no Apple Music.

Quando começam uma sessão de jogo em Need for Speed Heat têm a opção de jogar a solo ou online. Todavia, jogar contra outros jogadores de carne e osso implica acederem a um evento e terem a sorte de encontrarem outros jogadores que se queiram juntar à prova. A componente online parece, pelo menos durante esta fase inicial, uma forma de complementar a experiência que têm a solo, não devendo ser o motivo pelo qual compram Heat.

Need for Speed Heat chega a um universo de videojogos onde temos exemplos como Forza Horizon. Se são fãs acérrimos da série assinada pela Ghost Games, Heat não é uma desilusão de uma ponta à outra, mostrando até alguns laivos da forma que a saga apresentou noutros tempos. Não é, todavia, um jogo que vá fazer os amantes de corridas arcada correrem para o comprar. Pelo menos, enquanto houver curvas para fazer, se a polícia não decidir atacar em frota, haverá sempre a sensação que estou a dominar estas quatro rodas e motor.