Pedro Marques dos Santos por - Nov 25, 2014

Never Alone Análise

Desde os seus primórdios na década de 50, a indústria dos videojogos tentou aliar a interatividade do meio de entretenimento com a sua possível capacidade para conseguir um desempenho satisfatório para lá do departamento de entretenimento, enveredando, mais concretamente, por caminhos educativos. Existem vários exemplos de casos de sucesso e mais ainda de obras que resultaram num redondo fracasso.

Conseguir uma simbiose saudável entre o contributo para a nossa cultura geral e uma jogabilidade capaz de manter o jogador interessado na experiência é uma tarefa hercúlea que, ao mínimo exagero de exposição de informação ou métodos de interação incrivelmente rudimentares, pode facilmente deixá-lo num estado de total e absoluto aborrecimento.

Never Alone consegue, ainda que com vários percalços pelo caminho, o equilíbrio desejado entre jogabilidade satisfatória e uma frequente oferta de informação que nunca nos faz sentir como se estivéssemos de novo presos numa sala de aula a ser bombardeados por informação sobre a qual pouco ou nenhum interesse temos. Na verdade, a componente de aprendizagem da obra, ainda que uma parte fundamental para o valor da experiência como um todo, pode ser totalmente ignorada se assim o desejarem.

O título produzido pela Upper One Games conta-nos a história de uma jovem rapariga que parte em busca de descobrir a origem da gigantesca e interminável tempestade de neve que se abateu sobre a sua aldeia e comunidade, colocando-a em perigo. Introduzindo o jogador à temática central do jogo, as comunidades nativas do ártico, rapidamente somos informados, através de um vídeo introdutório, que a narrativa é inspirada numa lenda com já largos anos de existência, passada de geração em geração, desta comunidade, os Inupiat.

Como seria expectável, a lenda não retrata uma aventura particularmente complexa e repleta de reviravoltas, mas serve um propósito bem definido, desempenhando-o de uma forma absolutamente brilhante. Ao longo da aventura, vamos sendo apresentados a diferentes elementos da cultura deste povo nativo que nos oferecem um olhar mais aprofundado sobre o seu estilo de vida, a sua sobrevivência, as suas crenças e, acima de tudo, a comunhão com o ambiente difícil que os rodeia.

A obra possui vários vídeos de curta duração que estão sempre devidamente interligados com aquilo que a pessoa que controla a ação está a assistir nesse determinado momento. A jogabilidade e a narrativa são o contexto perfeito para que um curto vídeo consiga captar a nossa atenção sem nos saturar com informação supérflua. Um exemplo disso mesmo é a Bola, instrumento introduzido como uma mecânica de jogabilidade, mas que na verdade serve de arma para os nativos caçarem sem provocarem demasiado ruído, evitando assim atrair a atenção dos temíveis ursos polares.

Até mesmo a segunda personagem jogável do título, uma raposa do ártico, é inspirada numa raposa de estimação que protegia fielmente um dos membros desta comunidade. Estes pormenores não contribuem em nada para a experiência jogável propriamente dita, mas enriquecem significativamente a obra e conferem-lhe uma identidade única. Never Alone deve ser apreciado juntamente com os documentários, à medida que estes vão sendo desbloqueados, para uma melhor relação entre jogabilidade e exposição de informação.

Avaliando-o apenas com um videojogo, o título integra-se no género de plataformas que faz da sua mecânica central a interação entre as duas personagens. Alternando entre a rapariga e a raposa, ou jogando com um amigo cooperativamente, o jogador terá de saltar, proteger-se do vento e utilizar as características únicas de cada personagem para ultrapassar obstáculos e escapar aos poucos inimigos que surgirão pelo caminho. A Upper One Games não tenta reinventar a roda com a sua jogabilidade, mas introduz variedade suficiente para que a experiência se mantenha fresca durante a sua curta duração – cerca de cinco horas.

Apesar de a experiência poder ser desfrutada, sem problemas de maior a solo, a verdade é que o título funciona bastante melhor com dois jogadores ao leme. Se não tiverem alternativa, fiquem avisados que passarão por vários momentos de frustração quando virem a personagem controlada, momentaneamente, pela inteligência artificial revelar as suas tendências suicidas e arruinar o vosso progresso, ainda que, felizmente, os pontos de controlo sejam muito simpáticos. Para além disso, os controlos não possuem a precisão que se lhe exigem nas secções mais apertadas, algo que se torna mais que evidente nas secções finais da obra.

Desde o seu anúncio, Never Alone captou a atenção da audiência graças ao seu excelente e único estilo visual. Pois bem, o produto final não desilude e afirma-se com uma das obras mais belas atualmente disponíveis no mercado, fazendo lembrar pinturas a óleo com ambientes construídos em três dimensões, embora se mantenha sempre numa perspetiva sidescroller. Para além disso, algumas cinemáticas foram produzidas com um estilo visual alternativo que serve de homenagem à arte rupestre produzida por membros desta comunidade.

A banda sonora é também ela competente, embora esteja sempre remetida para um plano secundário ao longo da experiência, acompanhando-a com tons suaves e minimalistas. A narração é feita através de um membro da comunidade Inupiat, recorrendo ao dialeto da mesma e contribuindo assim para conferir uma maior autenticidade ao título. Tanto no departamento gráfico como na sonoplastia, esta é uma obra que prima pela sofisticação e que consegue distinguir-se facilmente da vasta maioria de jogos que chegam ao mercado.

Never Alone é uma experiência interessante, mas com problemas demasiado evidentes para serem ignorados na sua jogabilidade. A temática e o conceito da obra são únicos e produzem um título capaz de nos entreter e, em simultâneo, contribuir para o nosso conhecimento. O estilo visual é lindíssimo e memorável. No entanto, tudo isto de pouco serve quando as mecânicas base de um jogo de plataformas são pouco precisas e frustrantes. Um documentário bem trabalhado, com uma jogabilidade razoável é a melhor maneira de descrever este título.

veredito

Um título de plataformas com uma temática extremamente interessante, mas que vê a sua jogabilidade obstruir a mensagem que tenta passar.
6 Temática interessante. Estilo visual lindíssimo. Controlos pouco precisos. Inteligência artificial problemática.

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Never Alone

para PC, PlayStation 3, PlayStation 4, PS Vita, Xbox One

A new puzzle-platform game based on the culture and folklore of Alaska…

Lançado originalmente:

01 January 2015