A sensação de aventura: sair de um lugar conhecido para expôr o nosso âmago ao que está para chegar. No sentido mais abstrato, dobrar uma esquina. Next Stop Nowhere não engana ninguém e cedo declara ao que vem: fazer o jogador sentir essa motivação para o descobrimento; criar a ilusão de que estamos em movimento pelo Espaço. A próxima paragem apenas a Night School Studio sabe, usando esse trunfo para tentar a surpresa.

Vestimos a pele de Beckett, homem de vida pacata que tenta passar pelos dias sem levantar fervura. É um estafeta que conhece os recantos aos céus e que tem em Cody, a Inteligência Artificial da sua nave, o seu grande amigo e confidente. O jogo arranca com o protagonista a entrar num bar e a conhecer Serra, como quis o destino - ou o argumento da obra.

Serra está com um problema em mãos: o seu filho precisa de ajuda, precisa de ser encontrado e resgatado o mais rapidamente possível. Há uma urgência instalada e há também a ajuda de Beckett disponível. Partem para o desconhecido alicerçado em mistério. Seguimos o rasto de Eddy, o filho; migalha a migalha num carreiro de revelações sobre quem é, o que fez e por onde passou.

Como em Oxenfree e Afterparty, temos infindáveis escolhas para fazer. Várias opções nos diálogos entre as personagens - as principais e as que vamos conhecendo pelo caminho - e também algumas que criam a ilusão de que estamos no comando do desenrolar dos acontecimentos. Podemos, por exemplo, escolher que local vamos visitar a seguir, ainda que o jogo não pareça muito honesto nas consequências advindas dessas mesmas decisões.

É, portanto, uma proposta erigida nos moldes dos videojogos anteriores. Há uma inegável química entre Beckett, Serra e Cody. São personalidades diferentes que chocam para se unir, são existências que chegam a Next Stop Nowhere oriundas de passados muito diferentes. Ajuda, claro, que a vocalização faça um trabalho mais do que competente para lhes dar dimensão e para continuar a ilusão que estamos ali, ao seu lado, pelo Espaço adiante.

Quando não estiverem a prestar atenção ao que é dito, estarão a movimentar as personagens pelos diferentes locais, algo simples, uma vez que basta tocar no ecrã do vosso dispositivo móvel para indicar o caminho a seguir. Menos “fácil” são os trechos em que controlamos a nave: não me entendam mal, basta tocar no ecrã ou no comando, mas a câmara não está posicionada no melhor local, o que denota uma contínua sensação de que isto é mais custoso do que deveria ser, sabotando a percepção que se tem do próximo obstáculo. Ainda que mais diluído, este é um sentimento que continua quando temos que nos desviar no último segundo das investidas das naves inimigas.

Além destas secções mais frustrantes - mesmo experimentadas com um DualShock 4 ligado ao iPad - há dois problemas que minam Next Stop Nowhere a médio e longo prazo. Não só há a clara sensação que as escolhas que vamos fazendo não fazem o argumento guinar, como estamos perante uma obra presa por arames tecnicamente. É desapontante lidar com carregamentos que fazem o conteúdo dos cenários saltar alguns fotogramas, mas isso é apenas uma das arestas que nos fazem perder a confiança na robustez do jogo.

Durante a minha travessia, o jogo entrou num círculo que quase me obrigou a começar a aventura. O jogo encarrega o jogador de realizar tarefas pela nave, obrigando-nos a percorrer as diferentes divisões até que o arco narrativo passe para o próximo ponto de interesse. Durante uma dessas tarefas mundanas, regar as plantas para ser mais preciso, as portas para as restantes divisões não abriram, obrigando-me a reabrir a aplicação. Quando o fiz, ainda que a vocalização estivesse presente, fui brindado com um ecrã negro e nem mesmo o reiniciar do iPad consertou. Ainda não percebi como o progresso voltou a dar sinais de vida, pois recomeçar um ponto gravado também não resolveu o problema durante as primeiras tentativas.

Sorte talvez, sim, talvez. Mas esta falta de confiança esteve comigo, saltando para a primeira fila do pensamento sempre que realizava uma tarefa ou interagia com um objeto. Nunca se sabe muito bem quando é que Next Stop Nowhere nos vai brindar com uma falência técnica. Talvez seja consertada por sorte novamente, mas nunca chega a ser uma proposta sólida em que o jogador esteja apenas e só focado em absorver os desenvolvimentos da aventura.

E por falar em objetos com os quais interagem, sem nunca poder ser visto como uma aventura gráfica, a obra espalha diversos itens pelos cenários, alguns dos quais imprescindíveis para progredirem. É claramente uma tentativa para fazer os jogadores explorarem todos os seus recantos, todavia, uma vez que os cenários nunca são propriamente amplos, o mais difícil mesmo é não repararem neste pontos de interesse. Novamente: Next Stop Nowhere não foi engendrado para ser uma proposta desafiante.

Além da vocalização já mencionada, importa também destacar que o grafismo é interessante. Nunca se afirma pelo detalhe ou pela qualidade das texturas, mas sim pela plasticidade. As cores garridas e contrastantes dão à obra uma tonalidade de ficção científica, uma tonalidade de um sonho febril em pleno Espaço. Somos um visitante destes locais tal como as personagens que lhe chegam, tantas vezes pela primeira vez.

Os roxos chocam com os verdes gritantes, convidam os olhos a demorarem o seu tempo enquanto movemos a personagem. Vários tons de azul que a retina toma ocasionalmente por verde. Laranjas à descrição. Depois de a nave precisar de um reparo a caminho do Borlang Diner, aterra num local onde tudo isto é combinado na primeira cena, convidando a imaginação e a curiosidade para um calmo passeio pela área. Next Stop Nowhere faz isto recorrentemente ao longo das horas que oferece.

Não seria certamente um enorme choque se a exclusividade Apple Arcade for temporária. Se Next Stop Nowhere acabar por chegar a novas plataformas, será porventura uma proposta mais sólida, pelo menos no seu aspeto técnico. Neste momento, esta versão é uma aventura que começa melhor do que vai amadurecendo. É pena, pois o arranque deixa no ar uma vincada sensação de aventura, uma sensação de aventura que se vai diluindo com o passar dos minutos e das horas.