Ni no Kuni foi um sucesso inesperado. Uma colaboração de sonho entre uma casa bem habituada a produzir Role Playing Games, a Level-5, e um estúdio reconhecido internacionalmente pelo seu único e lindíssimo estilo visual nos seus filmes de animação, o Studio Ghibli. Os condimentos necessários para um jogo de qualidade e incrivelmente belo estavam todos lá, mas ninguém estava à espera que o casamento resultasse naquilo que, entretanto, se tornou num verdadeiro clássico de culto que, infelizmente, continua preso a uma exclusividade na PlayStation 3.

Ni no Kuni 2 Imagens Analise

Com a sequela, a história seria forçosamente diferente. O estilo visual continua presente, mesmo sem a colaboração ativa do estúdio de animação, mas são as expectativas associadas ao título que ditaram uma necessidade diferente para surpreender os jogadores, para entregar algo capaz de superar o original sem perder tudo aquilo que o tornou tão especial. Trinta horas depois de iniciar a aventura do jovem Rei Evan, posso afirmar que Ni no Kuni II não desilude, muito embora não entregue uma narrativa tão cativante como seria desejável.

Depois de uma estranha abertura que nos introduz a Roland, um homem misteriosamente transportado para um mundo muito diferente do seu, Revenant Kingdom coloca-nos no centro da vida atribulada do Rei Evan, um jovem prestes a realizar a sua provação para suceder ao seu falecido pai no trono de Ding Dong Dell. Como seria de esperar, as coisas não correm como o esperado e Evan vê-se forçado a fugir, com a ajuda de Roland, do seu próprio reino devido a um golpe de estado liderado por quem era considerado o principal aliado do seu pai, mas que afinal acabou até por ser responsável pela morte precoce.

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O prólogo do título é eficaz em introduzir as personagens e as dinâmicas do seu mundo, bem como a mostrar-nos um pouco do seu renovado sistema de combate, contudo, o prólogo acaba igualmente por ser algo enganador. Especialmente pelo tom pesado, carregado e emocional com que faz os jogadores arrancar a aventura, o que deixa antever um tipo de narrativa que nunca chega verdadeiramente a materializar-se. Apesar das circunstâncias negativas, esta é uma obra quase sempre alegre e otimista, focada no bom de todos aqueles com quem interagimos.

Isto poderá desapontar alguns, mas a verdade é que Ni no Kuni II entrega igualmente uma história interessante. Não entrega nada de verdadeiramente surpreendente ou memorável, contudo, faz o suficiente para manter o jogador investido na demanda do jovem protagonista e dos seus aliados. É uma história que tem a inocência e a ingenuidade de uma criança no seu coração, uma história sobre a construção de um reino onde não existe guerra, um reino capaz de convencer todas as nações do mundo a assinar um tratado de paz para criar um mundo onde todos se respeitam e são bondosos.

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Obviamente, há uma força maligna que ameaça esse objetivo e caberá aos nossos heróis impedir que as suas intenções tenham sucesso. Ainda assim, o tom da aventura nunca se torna demasiado negro, preferindo sempre uma postura mais otimista em relação aos acontecimentos que se vão desenrolando. Felizmente, a obra é suficientemente charmosa para assegurar que, mesmo sem surpreender o jogador, a sua atenção não se perde e a vontade de ver Evan ser bem sucedido continua presente.

Se a componente narrativa pode não ser tão especial como a do original, Revenant Kingdom é claramente uma obra mais expansiva no que diz respeito à sua jogabilidade e aos seus sistemas RPG. Na verdade, Ni no Kuni II apresenta-se muitas vezes como um RPG de ação com um combate em tempo real assente em combinações de ataques ligeiros e ataques fortes, para além das habilidades que requerem uma determinada quantidade de Mana.

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O combate é fluído e a possibilidade de escolher a personagem da party que pretendem controlar diretamente durante as batalhas permite também que o jogo possa experimentar as habilidades de diferentes personagens em primeira mão, evitando assim que o combate se torne demasiado fatigante. A inteligência artificial que controla os companheiros é competente e nunca se torna um estorvo. Adicione-se a possibilidade de utilizar as criaturas elementares conhecidas como Higgledies como auxílio nas batalhas mais exigentes e temos um combate que, para além de ser competente, é visualmente apelativo.

Para ser sincero, a única crítica negativa passível de ser apontada ao combate de Ni no Kuni II é que nunca se torna suficientemente exigente. Não só é extremamente fácil subir de nível para tornar quase todos os oponentes inofensivos, como a variedade de habilidades e opções que o jogo coloca à nossa disposição faz com que os desafios sejam quase sempre superados de forma acessível. Durante as minhas 30 horas, foram raras as vezes que tive sequer de recorrer a itens de regeneração de saúde e a única vez que sucumbi perante um inimigo deveu-se a uma significativa diferença de nível.

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Mantenham as vossas personagens com o melhor equipamento disponível em qualquer momento, adaptem os bónus estatísticos em relação aos danos causados a determinado tipo de inimigos e a resistência a determinadas condições antes de qualquer Boss e explorem ao máximo os cenários sempre que os visitarem pela primeira vez e estarão munidos para terem uma experiência acessível que raramente vos testará a habilidade. Noutros jogos, isto podia ser um aspeto negativo, mas tendo em conta a quantidade de conteúdo e de diferentes de atividades que o título tem para oferecer, nunca encarei isto como um problema, mas sim como um assegurar que os travões na progressão eram mínimos.

Quando não estiverem a combater monstros no vasto mundo de Revenant Kingdom ou nas suas muitas masmorras, o título incumbe-nos com a missão principal de construir o nosso reino e desenvolvê-lo desde os seus modestos princípios até um reino digno desse nome. Não estava à espera que tal fosse acontecer, mas esta aparente atividade acessória à campanha principal rapidamente se tornou no elemento mais viciante da experiência com a vontade de melhorar os edifícios do reino, construir novas secções, recrutar habitantes mais capazes e recolher os benefícios de tudo isso a tornar-se no fio condutor da aventura.

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Há algo de extremamente recompensador em ver a nossa obra ser progressivamente melhorada e transformada em algo absolutamente impressionante e neste caso, a construção do reino acabou mesmo por ser o elemento chave para que todas aquelas horas passadas a realizar tarefas secundárias mundanas se tornassem subitamente justificáveis e cativantes. A vontade de crescer um pouco mais, de evoluir determinado edifício para desbloquear o desenvolvimento de equipamento mais poderoso está sempre presente e mantém-nos muitas vezes alheados do percurso principal da narrativa durante horas a fio.

Para além das atividades alusivas à construção do reino, existem ainda outras atividades secundárias à disposição, entre as quais se incluem inimigos espalhados pelo mundo de dificuldade mais elevada, o desbloquear de todos os Higgledies espalhados pelo mundo e as mais tradicionais missões secundárias. Embora muitas destas últimas, não sejam mais do que fetch quest, o facto do jogo ser simpático com o número de pontos de viagem rápida que oferece faz com que realizá-las nunca se torne algo cansativo. 

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Por fim, há também confrontos que se assemelham a batalhas entre exércitos que colocam Evan a comandar as suas forças num confronto contra um exército oponente. Utilizando um sistema de cores ao estilo pedra-papel-tesoura, estas batalhas são provavelmente o tipo de atividade menos bem conseguido da obra. Isso não se deve ao facto de serem más ou aborrecidas, deve-se sim ao facto de dependerem mais do nível das vossas forças comparativamente aos inimigos do que propriamente da vossa qualidade enquanto estratega. No fundo, Ni no Kuni II é um jogo rico em conteúdo e, felizmente, todo ele é apresentado de forma a convencer o jogador de que vale a pena o seu investimento de tempo.

No que ao departamento técnico diz respeito, já sabem o que vou dizer, não já? Ni no Kuni II: Revenant Kingdom é uma obra visualmente impressionante. Não pelo seu fotorrealismo, mas sim pela forma como adapta o estilo visual do Studio Ghibli e transforma a sua experiência num filme de animação jogável. O colorido e a diversidade de cenários ajudam igualmente a tornar esta uma aventura visualmente estimulante em praticamente todos os momentos. Pena que as suas masmorras secundárias não sejam igualmente memoráveis.

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Já na sonoplastia, a banda sonora orquestral do título faz jus à aventura monumental e de viagens pelo mundo a que o protagonista se propõe. Acompanha com sucesso a experiência, mas é possível que a dada altura se cansem de ouvir o tema que acompanha as batalhas no mundo aberto. Um ponto negativo que convém mencionar é a utilização escassa de vocalização ao longo do jogo. Não posso deixar de acreditar que muitas cenas e momentos narrativos seriam altamente beneficiados se fossem acompanhados por uma vocalização que, quando presente, mostra ter qualidade.

Ni no Kuni II: Revenant Kingdom é um RPG de enorme valia que nos capta a atenção pela sua aparência vistosa, mas nos mantém interessados através do seu cativante conteúdo. Um digno sucessor do clássico de culto lançado na PlayStation 3, a obra da Level-5 executa quase tudo com uma confiança e uma qualidade que se torna quase impossível não darmos por nós a investir duas, três, quatro horas seguidas na aventura de Evan e companhia sem sentirmos o tempo passar por nós. A ambição de ver o nosso reino materializar-se em algo majestoso é o elemento mais brilhante de um título que merece a atenção de todos os fãs do género.