Numa época dominada por ferozes campanhas de marketing, dezenas de vídeos dedicados a explicar e revelar todos os detalhes e pormenores que antigamente eram deixados bem escondidos apenas para serem descobertos quando o jogo chegasse às mãos dos jogadores e estes começassem a conversar entre si sobre as suas experiências, a conservação do mistério é agora encarada quase como um exclusivo para o departamento narrativo das obras e mesmo aí nem sempre é assegurado por vídeos promocionais que acabam por revelar mais do que seria desejável.

NieR: Automata, a nova obra do produtor japonês Yoko Taro, produzida pela Platinum Games e publicada pela Square Enix, tem no facto de se propor a surpreender constantemente o jogador uma das suas melhores qualidades. Se leram outras análises a este título, provavelmente já saberão que o jogo necessita de ser concluído várias vezes para obterem a experiência completa. Não, não se trata de um jogo em que momentos de escolha vos obrigam a regressar para saber o que teria acontecido se a vossa decisão tivesse sido diferente. Trata-se, isso sim, de uma obra que tem a coragem de limitar o acesso a porções significativas da sua narrativa aos que se derem ao trabalho de concluir cada uma das suas “fases”.

Imagens Nier Automata Analise

Com dezenas de finais diferentes, embora a maioria deles sirva apenas para efeitos de comicidade, o RPG de ação recompensa constantemente o jogador, oferecendo-lhe novo e igualmente interessante conteúdo sempre que este pensa que chegou ao fim da sua estadia neste mundo pós-apocalíptico. Num universo em que aquilo que resta da humanidade foi obrigado a fugir para a Lua após uma invasão alienígena ter lançado várias formas de vida mecânicas na Terra que levaram ao fim da civilização, o jogador assume o controlo de 2B, uma android pertencente a uma organização criada pela humanidade para combater as máquinas e reconquistar o planeta de forma a que que os humanos possam fazer o seu regresso triunfante.

Apesar do conceito interessante e dos seus esforços para entregar algo memorável, o arco narrativo transversal à aventura deixa a desejar, sobretudo na primeira fase da campanha. A dupla de antagonistas que servem como vilões da primeira metade do jogo é fraca e têm a mesma profundidade e entrega das suas linhas de diálogo de um vilão de um qualquer desenho animado para crianças e são a prova mais evidente do principal defeito de esta componente da obra, ou seja, a pobre caracterização das suas personagens. Mesmo a protagonista e o seu companheiro de viagem demoram demasiado a tornarem-se interessantes e os momentos que se queriam mais emocionais acabam por não ter o impacto desejado.

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Dito isto, NieR: Automata brilha através da forma como apresenta a sua história e sobretudo pela forma cria com sucesso um mundo repleto de máquinas com personalidades distintas que, embora não passem de caricaturas, introduzem um muito necessário humor a uma campanha protagonizada por androids que são instruídos a não demonstrar emoção. Voltar a colocar o jogo na prateleira após o primeiro rolar dos créditos é um erro, não só porque ficam a perder muito conteúdo, mas sobretudo porque perdem o contexto que transforma uma narrativa algo sofrível em algo cativante que, mesmo não eliminado os seus problemas, ofusca-os com momentos de enorme qualidade e que tornam o mundo onde o jogo tem lugar bem mais interessante.

No fundo, as subsequentes campanhas oferecem uma perspetiva alternativa sobre os mesmos eventos e alargam por mais algumas dezenas de horas o final anticlimático da aventura de 2B e 9S, o seu companheiro de viagem. É certo que ter de repetir o mesmo progresso durante uma parte significativa da segunda e até quarta campanha do jogo é algo cansativo, mas o facto dos mesmos momentos narrativos se fazerem acompanhar por novos pedaços de informação sobre o mundo e os inimigos e, mais importante que isso, por novas e frescas secções de jogabilidade ajuda a tornar cada uma delas memoráveis e sucessivamente mais interessantes que a anterior. Por exemplo, achei a segunda campanha bem mais satisfatória que a primeira, algo que teoricamente não faz muito sentido tendo em conta que durante 70% do tempo são praticamente iguais. A questão é que os momentos em que não o são, fazem tudo valer a pena.

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Como qualquer obra de origem nipónica, NieR: Automata está recheado de situações que vos farão coçar a cabeça e outros que colocarão um sorriso na cara do jogador devido ao ridículo daquilo que lhe é apresentado no ecrã. Isto é especialmente verdade nas missões secundárias espalhadas pelo mundo aberto. Infelizmente, para lá da personagens ecléticas que vos dão a conhecer, este conteúdo acessório peca pelo seu ciclo repetitivo que, aliado a um mundo aberto que deixa bastante a desejar e desprovido de locais de interesse após uma primeira visita, não recompensam o tempo investido pelo jogador na sua conclusão. 

Existem exceções, claro, mas tanto o mundo aberto como as atividades secundárias parecem existir apenas para servir os elementos RPG deste título de ação ao invés de terem sido pensados como componentes essenciais à experiência. Armas e equipamento para comprar e melhorar, atributos sob a forma de chips para personalizar e conferir diferentes bónus estratégicos e itens para vos ajudar durante as batalhas, seja para regenerar saúde ou bónus defensivos e atacantes momentâneos, são algumas das opções para personalizarem a vossa personagem e para a moldar, mesmo que de forma ligeira, ao vosso estilo de jogo e abordagem aos inimigos. São mecânicas interessantes, mas não sei se justificam a existência de um mundo aberto e missões adicionais apenas para obter o dinheiro, recursos e experiência necessários para as explorar convenientemente.

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Tendo a Platinum Games como a sua casa de produção, não é surpreendente que o combate seja o elemento que mais constantemente se destacou ao longo das dezenas de horas que passei com o título. Apropriando-se da ação na terceira pessoa de outras obras da produtora como Bayonetta e Metal Gear Rising, NieR: Automata oferece um combate entusiasmante que tem tanto de divertido e satisfatório, como de diversificado e refrescante. Tal como mencionei na minha antevisão ao que, sei agora, era o prólogo da aventura, a obra tem na sua alternância entre estilos e géneros de jogabilidade a principal razão pela qual se mantém fresca durante horas a fio.

Embora se mantenha maioritariamente fiel ao frenético combate na terceira pessoa assente em combinações de ataques rápidos e ataques fortes, bem como ao uso do pequeno robot que vos acompanha como arma de fogo para ataques de longo alcance, ao longo da aventura, o jogo tem inúmeras sequências em que transforma por completo a sua jogabilidade. Por vezes a câmara é fixada e o jogador explora uma área como se estivesse a jogar um side-scroller, outras vezes a protagonista faz uso da sua nave de voo e somos transportados para um twin-stick shooter ou um top-down shooter. Felizmente, estas transições não resultam em momentos de jogabilidade pouco inspirados causados por mecânicas mal aplicadas, mas sim em momentos que impedem que a obra caia num ciclo de repetição - tal como acontece nas missões secundárias - e que deixam sempre o jogador curioso e incerto relativamente ao que o jogo lhe vai apresentar nas sequências seguintes.

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Mesmo quando o título se concentra na ação na terceira pessoa que popularizou esta produtora nipónica, a variedade de armas - e combinações das mesmas - disponíveis aliadas ao esforço das diferentes campanhas para introduzir novidades capazes de diversificar aquilo que coloca no ecrã e à disposição do jogador são suficientes para impedir que a monotonia se instale. Visualmente espetacular e com um número agradável de confrontos memoráveis, NieR: Automata é um RPG de ação que se destaca bem mais graças à ação do que aos seus elementos RPG.

Tecnicamente, esta obra está longe de ser deslumbrante e tem alguns problemas difíceis de ignorar. Como já mencionei, o mundo aberto monocromático é extremamente aborrecido de se ver e de se explorar. Existem áreas de alguma beleza, mais concretamente, aquelas em que se verifica a colisão de uma civilização destruída com uma natureza descontrolada, contudo, mesmo essas áreas não tem personalidade suficiente para ficar cravadas na mente do jogador. Ainda assim, a framerate sofrível, que aponta aos 60 fotogramas por segundo, em algumas das áreas de maior dimensão é o seu maior problema, sobretudo na PlayStation 4 original, onde o jogo foi testado. Por sua vez, a banda sonora é excelente, contribuindo para criar uma atmosfera distinta entre as diferentes áreas do mapa e alternando com sucesso entre sonoridades suaves e ritmos frenéticos.

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NieR: Automata é um muito bom jogo de ação que não retira o melhor proveito dos seus elementos RPG. O seu mundo aberto é pobre e desprovido de vida - o que faz sentido tendo em conta a narrativa, mas torna-o desinteressante de explorar - e as missões secundárias seguem um padrão repetitivo que é apenas ligeiramente mitigado pelas personagens secundárias que introduzem. Apesar da narrativa e a escrita não serem brilhantes, as suas ideias e a forma como é apresentada são mais do que suficientes para recompensar o tempo que lhe é dedicado pelo jogador. Muito longe de ser perfeito, a sequela do clássico de culto é uma obra bastante competente que merece a atenção dos fãs do original, dos fãs da Platinum Games e dos fãs de títulos deste género.