Tal como a protagonista em redor da qual a história se vai desenvolvendo, Night in the Woods é um jogo estranho e peculiar. Não é estranho apenas porque se quer diferenciar da maioria dos títulos que inundam o mercado, mas sim pela forma como retrata os seus eventos e caracteriza as suas personagens. Uma obra que se propunha a abordar temas bem reais e com os quais muitos daqueles que lhe darão uma oportunidade já lidaram ou continuam a lidar muito depois da consola e a televisão serem desligados e os comandos que as controlam terem sido pousados longe do olhar.

Apesar de alguns passos em falso e do infeliz, mas talvez adequado, sabor amargo que deixa na boca daqueles que chegarem à sua conclusão, o título da Infinite Fall faz demasiadas coisas bastante bem para se deixar arrastar pelas suas componentes mais desapontantes. Repleto de charme e de personalidade, este jogo de aventura com foco quase exclusivo na sua narrativa e personagens transporta-nos para a vida e para a psique de um tipo diferente de protagonista, uma protagonista muito longe de ser a heroína da sua própria história, mas que consegue ser bem mais real e identificável do que os quase ridiculamente perfeitos líderes da basta maioria das histórias que este meio nos tem oferecido ao longo dos anos.

Imagens Analise Night in the Woods

Mae, a protagonista de Night in the Woods, não é perfeita, nem nunca o tenta ser, mas é real e isso permite ao jogador encontrar um pouco de si próprio nela. Alguém presa no passado, incapaz de lidar com a pressão ou a responsabilidade da vida adulta e desesperadamente tentando-se agarrar ao que ainda lhe resta dos seus tempos áureos, daquilo que lhe dá conforto, daquilo que a protege de tudo o que não está preparada para enfrentar e daquilo que lhe ofereça uma sensação efémera de felicidade e a impeça de cair numa espiral negativa. Lutando contra a mudança e perdendo-se na nostalgia, Mae é uma adolescente peculiar transformada numa jovem adulta incrivelmente incompetente.

Não serão raras as vezes que se sentirão frustrados com as suas ações à medida que a narrativa se vai desenrolando, mas é difícil não perceber o seu apelo. No fundo, Mae é a personificação daquela parte que todos temos dentro de nós, a parte que quer ser criança para sempre, que quer viver uma vida idílica sem problemas, dificuldades ou responsabilidades, que quer passar todo o seu tempo a divertir-se com os seus amigos e a ignorar tudo aquilo que não lhe traga satisfação imediata. Vocês sabem, aquela parte de nós que nos esforçamos para abafar para que possamos ser indivíduos competentes e funcionais durante a vida adulta, impedindo que nos transformemos apenas em crianças no corpo de adultos.

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Acabadinha de abandonar, sem aviso prévio ou justificação convincente, o ensino superior para regressar à sua cidade natal, a minúscula vila de Possum Springs, a protagonista enfrenta agora a realidade de que a vida não parou enquanto esteve ausente e que os seus problemas não ficaram para trás após ter deixado a universidade. Com um passado atribulado e uma personalidade atormentada, Mae tem nos seus pais e melhores amigos um pronto socorro para a sua saúde mental e para a impedir de se deixar cair para o abismo. Night in the Woods aborda, ainda que de forma subtil, temas como a depressão, a solidão e a ansiedade, tendo nesta jovem a sua atormentada, mas bem intencionada protagonista.

Sem estudos, empregos ou qualquer outra responsabilidade digna desse nome, o jogador comanda Mae ao longo de dias rotineiros em que o principal objetivo passa por combater o aborrecimento de uma terra que nem consegue justificar o investimento necessário para oferecer sinal de telemóvel aos seus habitantes. Contando a sua história através de caixas de diálogo sem vocalização, o título coloca quase sempre nas nossas mãos a decisão de como passar o tempo, polvilhando os seus pequenos cenários com inúmeras atividades e interações secundárias que, embora opcionais, são parte intrínseca da experiência.

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Ainda assim, no centro da narrativa estão Angus, Gregg e Bea, os três melhores amigos da protagonista e que lhe servem de apoio emocional durante a aventura. Na verdade, o principal elemento jogável de Night in the Woods prende-se não só com os momentos de diálogo, nos quais podem moldar o tom da conversa ou o seu tópico, mas sim com os momentos em que o jogo pede ao jogador para escolher com quem quer passar o seu tempo. É aqui que o título da Infinite Fall mais brilha, quando se foca no mais básico, nas relações entre este quarteto de amigos e nas interações com os restantes habitantes de Possum Springs.

Apesar destas decisões não afetarem o desenlace final da obra, oferecem-lhe um incentivo para ser jogada mais que uma vez, especialmente se quiserem passar mais tempo com um dos amigos com o qual tenham interagido menos durante a vossa primeira aventura. Com uma duração à volta das sete horas, recomenda-se que o façam, pois são estes momentos de lazer que são mais reveladores sobre cada um dos amigos, o seu historial com Mae e a própria personalidade da protagonista. Felizmente, cada uma das opções oferecidas é igualmente recompensadora e oferece diálogos marcantes que elevam a experiência para um nível superior.

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Sem grandes surpresas, muito do sucesso de Night in the Woods deve-se à qualidade verdadeiramente excecional da sua escrita. Isso vê-se na forma como o jogo alterna eficaz e inteligentemente entre momentos recheados de humor e outros em que o lado mais negro das personagens vem ao de cima, na maneira como os estereotípicos amigos - Bea é a rapariga gótica, Angus é o gigante amável e Gregg é o arruaceiro hiperativo - se revelam ser muito mais que isso e que, apesar da sua má influência e da alteração de dinâmicas do grupo introduzida pelo regresso da protagonista, desde cedo revelam ter as suas próprias motivações, objetivos, desejos, dificuldades e traços de personalidade únicos que os tornam mais reais e os permitem ficar com o jogador bem depois da campanha terminar.

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Fazendo uso do tom sarcástico e muitas vezes passivo-agressivo de Mae, o título coloca com frequência um sorriso na cara do jogador que é muitas vezes seguido por momentos em que o verdadeiro estado de espírito e personalidade atormentada da protagonista assume o papel de destaque para uma mudança de tom que transforma a boa disposição em algo que introduz a dolorosa realidade que a protagonista tanto se esforça evitar. Um exemplo disso mesmo é uma conversa entre Mae e um familiar que começa de forma amigável, passa para críticas dissimuladas até culminar num troca de palavras agressivas em poucos segundos. Esta transição podia ser abrupta, mas graças à qualidade da escrita tal não é o caso, pois tal como no mundo real, o humor e o sarcasmo são utilizados para esconder os demónios interiores.

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Infelizmente, um pouco como aconteceu com Firewatch da Campo Santo, Night in the Woods perde a dada altura o fio à meada e decide introduzir um mistério para quebrar a monotonia da vida nos subúrbios destes jovens adultos. Ao fazer isso, o título acaba por colocar momentaneamente de lado a interação de Mae com o mundo e as pessoas que a rodeiam, preferindo enveredar por um caminho mais metafórico e menos credível cujas respostas estão longe de satisfazer e que parece fora do lugar comparativamente à restante aventura. O problema é ainda mais acentuado pelo facto de ser este mistério que alimenta os vossos últimos momentos com a protagonista e companhia, originando uma conclusão que tem tanto de abrupta, como de desapontante.

Apesar de ser na sua essência um jogo de aventura, a jogabilidade típica de títulos de plataforma é parte integrante desta obra. Uma vez que será através da agilidade da protagonista e da sua tendência para trepar edifícios e caminhar sobre fios de eletricidade que descobrirão novas personagens com quem interagir e outras atividades, Night in the Woods conta com uma forte componente de exploração, embora essa exploração passe por percorrer as mesmas áreas e interagir com as mesmas pessoas todos os dias, algo que serve para enfatizar a vida despreocupada e rotineira de Mae.

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Como facilmente se verifica através da imagens que acompanham este texto, o título da Infinite Fall tem no seu estilo visual uma das suas melhores características. Visualmente deslumbrante e com um grafismo que parece ser construído através da montagem de vários recortes de papel, a obra serve-se de cores vibrantes e diversificadas para criar uma experiência extremamente bonita de se jogar e com um estilo bastante próprio. Por sua vez, a banda sonora calma, suave e atmosférica tem o condão de acompanhar fielmente a aventura, sem nunca parecer fora de lugar ou exagerar na sua intensidade. Dito isto, a ausência de qualquer acompanhamento musical em algumas sequências deixa um vazio que apenas é preenchido pelo seu regresso.

Night in the Woods é um título estranho, mas incrivelmente eficaz naquilo que se propõe a oferecer. Sim, os seus visuais estilizados e premissa interessante podem ser suficientes para captar a vossa atenção, mas é a qualidade da escrita e as suas cativantes personagens que o transformam em algo especial. O final sabe a pouco e o mistério que domina as últimas horas da aventura nunca consegue cativar o suficiente para fazer com que a sua resolução seja recompensadora, contudo, a mistura entre humor e a exploração de temáticas mais sérias fazem com que toda a experiência valha a pena.