As últimas semanas de 2016 ficaram marcadas pela chegada às lojas de dois títulos que passaram por um processo de desenvolvimento infernal, mas que, sem se saber bem como, conseguirem escapar à tragédia do cancelamento que parecia inevitável. Final Fantasy XV e The Last Guardian foram ambos anunciados com quase 10 anos de antecedência para uma consola que nasceu, cresceu e morreu sem nunca ter tido a satisfação de oferecer aos seus donos aquilo que lhes havia sido prometido. Chegaram tarde e a más horas, mas, dependendo daqueles a quem perguntarem, ambos encontraram um sucesso junto da crítica especializada e dos fãs que muitos julgariam ser impossível para obras de tão torturada produção.

Nioh não tem a dimensão, popularidade ou importância dos jogos mencionados no parágrafo anterior, contudo, este projeto da Team Ninja também passou pela sua quota parte de dificuldades durante o ciclo de produção, tendo o seu desenvolvimento supostamente arrancado em 2004. No entanto, cedo a Koei Tecmo se apressou a remover o título da consciência pública à espera do momento certo para o voltar a lançar às feras e colocá-lo novamente sob as luzes da ribalta. Felizmente, tal como os títulos já mencionados, a espera por Nioh valeu a pena e, muito embora não seja o sucessor de Ninja Gaiden pelo qual os fãs da série aguardam, apresentasse desde já como candidato a um dos melhores jogos de ação deste ano que ainda agora começou.

Imagens Nioh Analise

Transportando-nos para o século XVII, Nioh é protagonizado por William, um irlandês aprisionado na Tower of London. Resgatado pelo seu espiríto guardião, a fuga do protagonista coloca-o em rota de colisão com Edward Kelley, o principal antagonista da aventura, momento no qual William vê o seu guardião ser capturado pelo vilão que foge rumo a terras nipónicas em busca de Amrita, uma fonte de riqueza mística vital para o desfecho da guerra entre os vários clãs no Japão. É assim que o título dá início a uma narrativa de perseguição e vingança que leva o protagonista a formar alianças com várias figuras importantes nesta batalha, ajudando-se mutuamente de forma a que todos os envolvidos consigam atingir o seu objetivo final.

Detentor de poderosas habilidades em combate, William faz uso das suas capacidades especiais para livrar, pouco a pouco, o território japonês da ameaça Yokai, demónios, ou se preferirem, criaturas sobrenaturais de origens misteriosas, que aproveitaram a guerra para destruir e ocupar vilas inteiras do Japão. Apesar de várias cinemáticas e do esforço claro da produtora para entregar uma narrativa com princípio, meio e fim que dê uma motivação clara ao jogador e ao protagonista para as suas ações, a história está longe de ser cativante e a própria estrutura do jogo faz com que seja muitas vezes difícil acompanhar aquilo que está a acontecer.

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Vocalizado na sua maioria em japonês, à exceção do vilão e do protagonista, Nioh não abusa dos momentos em que diálogo e a jogabilidade coincidem no mesmo espaço, ainda assim, quando o faz obriga o jogador a parar aquilo que está a fazer para ler as legendas, o que nunca é agradável. Para além disso, o facto de as missões poderem, por vezes, demorar várias horas faz com que seja frequente terminarem-nas já sem se lembrarem do motivo narrativo que as originou. É certo que podem assistir às várias cinemáticas no menu do jogo, mas de qualquer das formas, é importante mencionar desde já que a narrativa não é, nem quer ser, o ponto mais forte da obra.

Como certamente já saberão de cor por esta altura, o novo título da Team Ninja possui várias semelhanças com as obras que colocaram a From Software na lista de produtoras mais populares da atualidade. No fundo, Nioh é um título de ação Hack ‘n’ Slash que adiciona um pouco mais de velocidade ao ritmo mais pausado da série Souls, bem como vários elementos para se diferenciar das obras às quais foi beber inspiração de forma bastante clara. Pode partilhar o mesmo ADN das experiências difíceis e castigadoras da casa de Hidetaka Miyazaki, mas não se limita a ser um clone de Dark Souls. Não, Nioh é uma iteração relativamente à fórmula de sucesso destes títulos, uma iteração com vários pontos de contacto com as obras em que se inspira, mas que oferece uma experiência capaz de evitar a queda na repetição e familiaridade.

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Extremamente aprimorado e fluído, o combate é o principal destaque de uma obra que desafia constantemente o jogador a melhorar, a pensar antes de agir, a aprender o padrão de ataques dos inimigos, a testar diferentes estratégias em diferentes oponentes, a ser calculista perante os obstáculos e, acima de tudo, a dedicar-lhe a sua ininterrupta atenção e dedicação. Começar Nioh é saber de antemão que vão morrer com frequência, que terão uma penosa curva de aprendizagem pela frente, que terão de esbarrar inúmeras vezes no mesmo boss até finalmente saborearem o doce palato do sucesso. Encontrem o desejo e a motivação para ultrapassar as adversidades e o jogo tratará de vos encher com um gigantesco sentimento de satisfação, que é a principal recompensa que qualquer obra de entretenimento pode almejar oferecer ao consumidor.

Tal como nas obras da From Software, o jogo não pausa até que cheguem ao final da missão em questão. Significa isto que podem ser atacados enquanto tentam utilizar itens, sejam eles bombas, talismãs que conferem danos elementais às armas, ou elixires para restaurar a saúde, ou quando quiserem fazer alterações ao vosso equipamento e arsenal. Não existem classes, mas a variedade de armas assegura a existência de vários estilos de abordagem ao combate. Machados, lanças, espadas e, a minha favorita, Kusarigama têm diferentes vantagens e desvantagens consoante prefiram uma maior capacidade defensiva, ataques lentos mas poderosos ou um foco na velocidade. Aliem a estas armas de corpo-a-corpo a utilização oportuna de hand cannons, pistolas e flechas, bem como às diferentes stances que permitem alternar entre uma postura mais defensiva ou mais atacante consoante os inimigos que surgem pela vossa frente, e percebem rapidamente que a variedade de opções oferecidas pelo combate do título não escasseia.

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Ataques ligeiros, ataques fortes, bloqueios, movimentos esquivos e utilização de itens são as mecânicas nas quais assenta o combate, sendo que estas assumem formas diferentes consoante a arma que possuem, o grau de familiaridade com a mesma, o peso do equipamento que ostentam nesse momento e as habilidades especiais desbloqueadas para a arma em questão. Sim, são imensas as opções de personalização da vossa personagem, para alguns até poderão ser demasiadas, mas aqueles que se derem ao trabalho de as explorar ao máximo e de experimentar com as mesmas sairão claramente beneficiados. As opções são tantas que é provável que, dependendo do vosso estilo de jogo, cheguem ao final da aventura sem experimentar muitas delas, algo que até pode incentivar alguns a uma segunda viagem por terras japonesas.

De volta às semelhanças com a série Souls, embora a maior velocidade do combate de Nioh incentive o jogador a tomar a iniciativa com maior frequência, a gestão de stamina - aqui denominada de Ki - continua a ser fundamental para o vosso sucesso, especialmente porque se a deixarem esgotar deixarão William completamente vulnerável, incapaz de se esquivar ou bloquear as ofensivas inimigas. Sem nunca pedir ao jogador para ficar na defensiva, a barra de Ki obriga-nos a agir de forma cuidadosa e pensada. Frente a inimigos Yokai, capazes de envolver a área numa “gosma” que consome o vosso Ki a uma maior velocidade, é particularmente útil a mecânica que vos permite recuperar um pouco do vosso Ki após cada ataque com o pressionar de um botão no momento certo. A sua utilização é vital para tornar estes confrontos mais acessíveis, contudo, é também bastante fácil esquecerem-se de o fazer em momentos de maior aperto.

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Substituindo o mundo aberto por áreas de dimensão reduzida que fazem sempre questão de levar o jogador em direção até ao objetivo final - na maioria dos casos, trata-se de um boss -, a obra da Team Ninja não coloca um grande ênfase na exploração. Sim, existem atalhos para descobrir e salas com tesouro para encontrar, mas em momento algum se sentirão perdidos ou indecisos sobre o caminho que têm que seguir. Dividindo-se por missões principais e missões secundárias, Nioh consegue dessa forma oferecer alguns momentos de jogabilidade diferente do padrão constante que seguem as missões principais. Claramente mais acessíveis em termos de dificuldade, as atividades secundárias servem como um método interessante de dar ao jogador oportunidade de acumular mais Amrita e também de se introduzir a novos inimigos.

Pensem em Amrita como o equivalente de Nioh às Souls de Demon e Dark Souls e perceberão rapidamente qual é o seu propósito nesta experiência. Acumulada através da destruição dos inimigos - que deixam também cair o equipamento e as armas que utilizarão, sendo que quanto mais forte for o inimigo, maior será a qualidade do equipamento oferecido -, Amrita permite-vos elevar o nível da personagem através da melhoria de determinadas características, entre elas Magia, Força, Stamina, Habilidade e Espírito. Como certamente já adivinharam, se morrerem, toda a Amrita em vossa posse ficará numa sepultura protegida pelo espírito guardião, sendo que se morrerem novamente antes de conseguirem chegar à sepultura e recuperá-la, esta perder-se-á para sempre. 

É aqui que o título se torna mais castigador, mas é também aqui que separa aqueles que desistem à primeira adversidade daqueles que reagem ao fracasso como um desafio à espera de ser superado. Perder quantidades consideráveis de Amrita é frustrante e desanimador - acreditem, passei por isso várias vezes - e nem sempre se apresenta como uma mecânica equilibrada, tendo em conta a facilidade com que a morte pode surgir, contudo, acaba por ser uma dolorosa lição através das quais o jogador deve retirar as devidas ilações.

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Os títulos da From Software popularizaram a expressão “Git Gud”, algo que tem tanto de conselho viável na abordagem ao fracasso no jogo - cada morte deve ser encarada como uma oportunidade para aprenderem e melhorarem -, como de desculpa esfarrapada para os problemas de equilíbrio que os títulos apresentam. Não será certamente uma surpresa quando digo que os bosses são de longe os desafios mais exigentes que a obra tem para oferecer. Afinal de contas, faz sentido que assim seja. O problema é que a dificuldade dos mesmos faz com que elevem o nível da vossa personagem de tal forma que a maioria dos inimigos padrão do jogo acabam por se tornar quase inofensivos nas missões seguintes. Isto é especialmente notório nas primeiras horas do jogo e após os primeiros bosses que, como descobrirão, vos conseguem destruir com apenas meia dúzia de ataques consecutivos.

Nas horas seguintes, há medida que vão lentamente melhorando e dominando aquilo que Nioh atira na vossa direção, o desequilíbrio surge através da distância entre os locais de Pray. É nestes locais que o jogador poderá, entre outras ações, gastar a sua Amrita e oferecer equipamento supérfluo ao deuses na esperança de que sejam recompensados com os muitos desejados elixires. Servindo como checkpoints aos quais regressarão sempre que morrerem, sempre que os utilizarem os inimigos fazem respawn, o que significa que se porventura quiserem regressar à base para elevar o nível da personagem terão de voltar a enfrentar os inimigos que já haviam eliminado. 

Até aqui nada de novo, a questão é que, quanto mais elevado o nível atual da personagem, mais Amrita necessitarão para voltar a subir de nível, o que se torna particularmente frustrante quando exploram uma área durante largos minutos, acumulando quantidades significativas de Amrita, e percebem que estão demasiado longe do checkpoint original e que não existe nenhum local de Pray nas proximidades. 

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Basicamente, isto traduz-se em duas situações: ou recuam até à base com medo de perderem a Amrita e voltam a enfrentar os inimigos já defrontados ou arriscam e afastam-se ainda mais do último checkpoint em busca de novo local de Pray. Se a primeira opção torna a experiência algo cansativa e repetitiva, a segunda leva a que a morte seja incrivelmente penalizadora, pois sabem de antemão as dificuldades por que terão de passar até chegarem à vossa sepultura. Numa experiência com um combate já por si só bastante exigente, estas circunstâncias deveriam ser evitadas, porque servem quase sempre apenas para gerar frustração.

Existe uma linha muito fina que separa o desafio justo e recompensador da dificuldade frustrante e cansativa. Nioh, tal como as obras em que se inspira, nem sempre gere esse equilíbrio da melhor forma. Dito isto, os momentos em que tudo funciona na perfeição sobrepõem-se com facilidade aos que nos levam a ponderar atirar com o comando à parede e isso é o principal elogio que se pode fazer a uma obra deste género. 

Se assim preferirem, o título permite-vos jogar em modo cooperativo, contudo, é importante salientar que apenas poderão cumprir missões com amigos se já as tiverem concluído a solo. Apesar de existir a possibilidade de utilizarem um item para pedir auxílio durante a vossa primeira demanda por uma missão, acabarão por ficar entregues ao destino no que diz respeito à habilidade do vosso companheiro e à sua utilidade. Percebem-se as razões pela qual a Team Ninja implementou essa restrição, no entanto, essa decisão acaba por tornar o modo cooperativo redundante.

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Tecnicamente, o título da Team Ninja é competente, mas revela a sua idade no departamento gráfico. Contando com diferentes modos de jogo consoante a vossa preferência relativamente a uma framerate sólida ou a uma resolução mais elevada, Nioh é um título capaz de produzir efeitos atmosféricos e de luz bastante interessantes. Os cenários, embora não primem propriamente pela diversidade ou até pela sua dimensão, proporcionam segmentos apelativos e ambientes de alguma beleza, desde que não se aproximem demasiado das texturas. Já a modelagem das personagens parece saída de um jogo do início de vida da PlayStation 3*. No que diz respeito à sonoplastia, a obra transporta-nos com sucesso para um cenário oriental e gere a sua intensidade consoante a ação que decorre no ecrã. Contudo, em momento algum se destaca ou é capaz de se fixar na mente do jogador.

Concluindo, Nioh é um excelente título de ação que oferece uma jogabilidade fluída e altamente satisfatória que castiga e recompensa o jogador em iguais quantidades. Não consegue evitar alguns momentos de frustração provenientes de uma dificuldade que nem sempre se apresenta de forma equilibrada, mas é uma obra que fará as delícias daqueles que adoram um bom desafio e que se apaixonaram pela série da From Software. Partilhando várias semelhanças com Demon’s Souls, Dark Souls e Bloodborne e adicionando-lhe elementos únicos e uma identidade própria, Nioh é um hino à jogabilidade, uma obra perfeita para aqueles que colocam este elemento acima de qualquer outro nas suas experiências videojogáveis e um regresso à boa forma da Team Ninja. Se a dificuldade não vos assusta, então a recomendação é óbvia.

*O título foi analisado na PlayStation 4 original. Existem relatos de que o grafismo é significativamente melhor na PlayStation 4 Pro.