Filipe Urriça por - Jun 14, 2022

Nobody Saves the World (Switch) – Análise

Fazer um metroidvania não é uma tarefa fácil. Para o retrocesso funcionar, após termos galgado uma boa parte do mapa, é necessário uma evolução de ambas as partes: do jogo (que vai ficando cada vez mais desafiante) e do jogador (que vai jogando cada vez melhor). Nobody Saves the World é genial e é claro que foi feito por uma produtora que já mostrou que faz um trabalho exímio na criação de jogos metroidvania, a DrinkBox Studios – produtora canadiana conhecida por ter feito Guacamelee! (Análise VideoGamer Portugal), série que já conta com duas obras. Porém, Nobody Save the World não é o nosso típico metroidvania, como diz o sábio burro no filme do Shrek: “(…) são como as cebolas, têm várias camadas”.

O jogo da produtora canadiana começa com uma premissa simples que começa no título: um zé-ninguém salva o mundo. Até antes de começarmos o jogo ficamos com esta questão por responder: “por que motivo é que o mundo precisa de ser salvo?”. A resposta é igualmente simples à premissa: Nostradamus, um poderoso feiticeiro, desapareceu e há uma entidade maléfica que está a fazer crescer uma massa ou um parasita como se fosse um tumor a aumentar em proporções preocupantes. Nós, um simples indivíduo de olhos, literalmente, vazios, passamos de um vulgar zé-ninguém a herói quando nos deparamos, por mero acaso, com a varinha mágica do grande Nostradamus. Esta varinha tem em si o grande sistema de mecânicas que o jogador vai utilizar na sua estadia no mundo idealizado pela DrinkBox Studios.

Esta varinha mágica permite ao seu utilizador mudar de forma: seja para uma animal selvagem, um monstro horrível ou para um indivíduo com habilidades especiais. Esta varinha é o truque para um metroidvania puro e duro, não no grafismo, mas com os conceitos e mecânicas a funcionarem na perfeição como uma máquina bem oleada. Assim temos um vasto mundo cheio de masmorras para completar, um combate desafiante para descobrir e muitos níveis para subir nas diferentes formas que podemos assumir.

Primeiro, é-nos dada a permissão de nos transformar num rato, como é óbvio, não é um animal poderoso, mas é já nesta forma que aprendemos que somos mais do que os nossos ataques. O pequeno roedor é bom para passar em locais estreitos, esta é uma das características que o define. Há outras formas, como a tartaruga e a sereia, que vos permite realizar uma deslocação aquática, há outros seres vivos com outras características que podem ser úteis durante o combate. O cavalo é bastante rápido, enquanto que o caracol (apesar de naturalmente não ser tão veloz) deixa um rasto pegajoso que abranda os inimigos que se aproximam. Curiosamente, quase todas as habilidades não se fecham numa única personagem.

Nobody Saves the World é um jogo que vos dá um autêntico laboratório para experimentarem diferentes combinações de habilidades passivas e de ataques. Por que motivo queremos um guarda com habilidades de uma arqueira ou de um rato? É simples, porque há certos tipos de habilidades e de ataques que quebram a proteção que alguns inimigos têm. Por exemplo, podem entrar numa masmorra que tenha inimigos com proteções que só quebram com técnicas ou golpes de Strength ou Sharp, habilidades que estão normalmente associados ao guarda, à arqueira e a outras personagens (como uma muito curiosa que é, essencialmente, um culturista) . Quanto mais evoluírem as diferentes formas nas quais se podem transformar, mais opções ganham para moldar uma personagem ao vosso gosto.

Evoluir uma forma qualquer não incrementa apenas os números das estatísticas das capacidades físicas das personagens que temos ao nosso dispor. Ganham, pontualmente, novas habilidades, desbloqueiam espaços para adicionar mais ataques ou habilidades passivas e conseguem aceder a novas formas cada vez mais poderosas ou com alguma característica bastante útil. Para evoluir é necessário amealhar pontos de experiência e para consegui-los é preciso completar as inúmeras demandas existentes. As demandas, missões mais conhecidas pelo termo quests, são uma constante do jogo e é por isso que o menu está feito de forma a que possam ser rapidamente acedidas.

quests para eliminar inimigos numa quantidade específica, com uma habilidade especial que acabaram de adquirir ou até com uma combinação de ataques pré-determinada. Ainda ganham pontos de experiência por passarem dungeons, por fazerem quilómetros a andar ou por destruírem uma quantidade assinalável de objetos. Enfim, vão querer fazer todas estas missões porque há vários locais com desafios que têm um nível recomendado para terem a capacidade de ultrapassá-lo – podem visitar esses locais quando quiserem, o mais provável é que não se aguentem em pé por muito tempo. Se estão no nível vinte, não é uma boa ideia entrarem numa masmorra, por exemplo, que vos avisa ser necessário terem o nível quarenta ou cinquenta. Esta limitação pode ser muito artificial, mas é uma boa forma de sabermos por onde podemos e devemos nos dirigir para progredir na campanha e no próprio escalar de níveis.

Explorar é um dos pontos fortes de Nobody Saves the World. Graças a um mapa bem detalhado (sem detalhes a mais), com as dungeons bem assinaladas, assim como todos os sítios de interesse importantes para continuarmos a nossa jornada, é raro ficarmos perdidos. Não é só o design do combate que está meticulosamente bem feito, as próprias dungeons têm personalidade estética e vários pormenores para nos desafiar. Por exemplo, algumas masmorras, têm paredes que disparam flechas, sítios específicos onde podemos ser envenenados por um fumo tóxico, assim como inimigos com comportamentos peculiares aos quais temos de nos habituar para conseguirmos vencê-los.

Esta obra dos produtores de Guacamelee! foi cuidadosamente criada para proporcionar diversão, assim como desafio em doses generosas. A diversão vem do combate bem desenhado e com um desafio bem equilibrado apesar de ser ligeiramente exigente. Basta sabermos o que podemos usar a nosso favor para ultrapassarmos qualquer dungeon que seja mais complicada que o normal. O que temos de garantir para o nosso sucesso é equiparmos a personagem eleita para encarar o desafio com as habilidades passivas e golpes que consigam quebrar as proteções que os inimigos possam ter.

Também existem algumas particularidades, únicas a cada dungeon, que tornam o combate ainda mais interessante. Há sítios onde os ataques têm um aumento enorme na percentagem do dano infligido, por isso, conseguimos passá-los bem se não formos atingidos uma única vez. Há outro local em que as proteções não quebram definitivamente, porque estas regeneram-se após um breve período de tempo, ultrapassar este desafio significa sermos suficientemente astutos para aproveitar estas janelas de oportunidade para vencer os inimigos temporariamente enfraquecidos. Enfim, monotonia não é uma palavra que possa ser utilizada para definir Nobody Saves the World.

Esteticamente, a obra da DrinkBox Studios é muito bonita, parece que estamos perante uns desenhos animados que passavam ao sábado de manhã. Mesmo num mundo fantasioso que está prestes a ser destruído por uma entidade maléfica, Nobody Saves the World ainda consegue ser muito colorido e com uma vasta paleta de cores. O jogo não cai no típico cliché visual de ter uma atmosfera com uma tonalidade bastante castanha ou demasiada cinzenta. Em suma, a arte do jogo salienta muito bem o tom cómico que os produtores quiseram dar, seja através da expressividade das personagens ou das formas exageradas dos desenhos.

A varinha mágica de Nobody Save the World foi uma ideia brilhante e transformadora para o design do jogo, tanto do combate como do mundo que está ao nosso alcance para explorar. Aqui está um dos melhores metroidvania que o mercado dos videojogos recebeu nestes últimos tempos. Enquanto Hollow Knight: Silksong não chega para roubar toda a atenção dos jogadores e de quem produz conteúdo sobre este meio do entretenimento, têm nesta obra canadiana uma excelente proposta para vos satisfazer em todos os pontos que um metroidvania de excelência como este sabe fazer.

veredito

Se gostam de um bom metroidvania não precisam de procurar mais, esta obra canadiana é excelente. O combate é equilibrado, o jogo é desafiante sem ser demasiado difícil e a arte é adequada ao tom do jogo. Joguem-no, não se vão arrepender.
9 Tom cómico. Combate fantástico. Boas dungeons. Elenco de personagens.

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Nobody Saves the World

para PC, Xbox One, Xbox Series
Nobody Saves the World

Jogo de ação dos produtores de Guacamelee!

Lançado originalmente:

2022