Todos os anos procuro pelo menos um título para me entreter o ano inteiro. Normalmente, a minha escolha recai nos denominados rogue-likes ou rogue-lites, consoante uma menor ou maior inspiração no clássico que começou esta espécie de categoria: Rogue. Em 2011 passei horas e horas com a obra de Edmund McMillen, The Binding of Isaac, fortemente influenciado pelo primeiro The Legend of Zelda, que por sua vez partilha similaridades com Rogue. Foram mais de cem horas com esta obra, coisa pouca se formos ver outros jogadores do Steam, todavia serve para reafirmar que não passei um mau tempo com este jogo, sempre a recolher novas descobertas e novos detalhes, como poderes únicos ou bosses. Enfim, um tipo de jogo que nunca me desiludiu.

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Os rogue-likes, quando bem feitos, são jogos que garantem longas sessões de jogo seja a masterizar um determinado elemento que os compõem, seja a darmos aquele clique para entrarmos em sintonia com o jogo depois de termos perdido inúmeras vezes devido a uma distração nossa. Mesmo com segundos, minutos, que se transformam rapidamente em dezenas de horas, arrisco até dizer ultrapassar os três dígitos do contador do Steam que nos informa do tempo total das nossas sessões, é incrível como uma fórmula que parece tão simples nos consegue manter interessados em explorar todos os seus segredos. Com comunidades ativas sedentas por desvendar tudo o que um título desta categoria tem para oferecer; por atingir o que os outros não conseguem pela aleatoriedade que está enraizada no código deste tipo de jogos.

Nuclear Throne é a mais recente obra que vem juntar-se ao clube dos rogue-likes cada vez mais preenchida no catálogo do Steam. E é bom constatar que se pode colocar lado a lado com os melhores do género, como Dungeons of Dredmor (2011), FTL: Faster Than Light (2012) ou Spelunky (2013). A produtora holandesa liderada por Rami Ismail, voz ativa nas redes sociais, pegou na sua forma única de entregar jogos de ação e aumentar consideravelmente a escala no seu conteúdo para entregar Nuclear Throne num estado imaculado. Claro que isto só foi conseguido pelo bom filtro de feedback dos jogadores, que foram recebendo nas discussões da comunidade Steam.

Neste labor da Vlambeer, vocês terão de passar por vários níveis para se poderem finalmente sentar no trono que dá título ao jogo. Nuclear Throne é um atirador na terceira pessoa com uma câmara que nos dá uma vista de cima, difícil, mas cheio de ação que fazem lembrar títulos que eram lançados nas máquinas dos salões de jogos do café da esquina. Há muitos aspetos que fazem deste jogo tão apelativo, a começar pelo vasto elenco de personagens, passando pelas várias armas que se podem obter, inimigos e até pelas várias formas que se podem abordar as partidas para atingir o trono.

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Comecemos pelos controlos. Este é o que se intitula de um twin stick shooter se for jogado com o comando, como foi pensado para ser jogado na PlayStation 4, mas que funciona perfeitamente com a combinação natural de teclado e rato. Têm o movimento da personagem no teclado, nas habituais WASD, com os disparos, mira e poderes da personagem controlados no rato. É simples e convidativo a experimentar algumas partidas. O que não quer dizer que o caminho até ao objetivo final, depois de se submeterem a diversos inimigos a dispararem sobre vocês e a investirem com ataques corpo-a-corpo, não tenha os seus obstáculos.

As armas ao nosso dispor são um verdadeiro deleite de usar contra os diversos inimigos que habitam as diversos dungeons que nos esperam. É claro que não vão começar logo com um poderoso canhão laser, mas à medida que avançam e desbloqueiam conteúdo, terão acesso a equipamento bélico que causa cada vez mais dano nos inimigos e de forma pomposa como se pode verificar em todas as explosões patrocinadas pelos disparos de Bazuka ou de Lança-Granadas. Se preferirem um combate mais próximo do inimigo ainda têm ao vosso dispor Miniguns triplas, com variantes com munições laser ou com as habituais balas, para dilacerar tudo o que ousar ser uma barreira no vosso caminho. Assim o jogo de bullet hell faz-se a dois, mas muito mais problemático para quem está do outro lado da vossa mira.

No entanto, o uso das armas fará um maior sentido se jogado de uma determinada forma, com uma determinada personagem. Por exemplo, temos a Crystal que se pode transformar numa pedra preciosa, durante um certo período de tempo, para absorver ou refletir os projeteis que vos irão atingir. É também a personagem mais recomendada a jogadores novatos, pois é a que tem a maior quantidade de saúde e permite, graças a tal e à sua habilidade já referida, ter uma abordagem mais relaxada e entrar, sem exageros, "à Rambo" para dizimar os que se opuserem no seu caminho.

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Também o resto do elenco, que tem aspeto de ter saído de um laboratório de experiências que correram mal, tem o seu apelo pelas habilidades e vantagens que demonstram. No caso de Melting, provavelmente o extremo oposto de Crystal, tem um valor de saúde muito reduzido, mas pode fazer explodir os cadáveres que se encontram espalhados pelo cenário, causados pelas balas das vossas armas. Também consegue evoluir muito mais rapidamente, pois cada morte infligida garante-lhe mais rads - unidades a recolher para aumentarem de nível.

Evoluir é um dos vossos objetivos a curto-prazo que querem garantir para no final de cada nível poderem escolher novos poderes. Esses rads</em> têm que ser recolhidos num intervalo de tempo reduzido, o que pode levar a situações de risco se a ganância vos toldar decisões mais seguras. Se derrotarem um inimigo que foi parar mesmo para o centro do tiroteio onde balas e diversos projeteis estão a ocupar esse espaço, há que escolher entre sacrificar umas unidades de saúde por uma possível evolução quando o nível ficar limpo e só avançar quando há espaço suficiente para ir resgatar o que sobrou de rads. Normalmente haverá quase tempo de sobra, mas em níveis mais avançados, quando as balas trocadas são muitas e os inimigos têm mais resistência ao dano, um passo em falso pode levar-vos ao fim da partida.

Bloodlust - que vos acrescenta, de vez em quando, unidades de vida quando eliminam inimigos - é um dos poderes que mais utilidade tem, se forem um íman de balas quando ainda estão a dar os primeiros passos em Nuclear Throne. Rhino Skin para usar com Melting é igualmente útil, pois acrescenta quatro unidades à vossa barra de saúde. Existem mutações (a verdadeira designação destes poderes) para todos os gostos de forma a equilibrar a vossa partida. Podem receber um semelhante a Bloodlust que vos aumenta as munições, um que vos melhora a precisão dos disparos, e ainda outro que vos permite atrair rads que se encontram a distâncias maiores.

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Não existe uma única personagem perfeita, por muito fácil que pareça a sua utilização. Mas é com o complemento dos poderes e das armas, assim como a adaptação constante às diversas situações que vão aparecendo que fazem de qualquer elemento deste elenco poder ser perfeito para um jogador em particular. O nível de personalização pode ser enorme.

As várias componentes técnicas não são propriamente o fator mais apelativo do jogo, mas a Vlambeer certificou-se que entregaria algo coerente que se verifica ao longo do jogo. O grafismo em pixel art está muito bem imaginado, com detalhes muito bem implementados. Como acontece em enormes explosões que fazem o ecrã estremecer, dando mais dinamismo à ação a decorrer. No capítulo sonoro temos bons efeitos que são rapidamente lidos que nos indicam o que vai acontecer a seguir. Já a música de Nuclear Throne é assinada pelo finlandês Jukio Kallio que compôs um excelente genérico "Legend of the Throne", que adoro ouvir sempre que inicio o jogo; acordes de guitarra sublimes que me fazem adiar mais um pouco o clique sobre "Play" para começar a jogar.

Se a longevidade não é um fator determinante para comprarem um jogo, é preciso ter em conta que Nuclear Throne ainda vem com um modo cooperativo local para partilhar o divertimento que a obra consegue gerar. Este género é demasiado fácil para vocês, que são muito competitivos e conseguem serem uns mestres de qualquer jogo num curto espaço de tempo, então têm desafios diários e semanais para mostrarem ao mundo, ou aos vossos amigos quem é o melhor em Nuclear Throne num conjunto de níveis iguais para todos os jogadores durante o tempo descrito.

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Este novo rogue-like pode não ser a minha escolha de eleição para este ano, porque este encontra-se mesmo a acabar. Porém, será certamente a minha escolha para continuar a jogá-lo em 2016, para atingir níveis de sessões semelhantes a The Binding of Isaac. Se sempre torceram o nariz a este tipo de género, Nuclear Throne é muito acessível pela sua simplicidade e grande elenco de personagens, suportado por um bom leque de poderes a escolher. É sem dúvida uma das melhores obras a serem moldadas na incubadora que é o Early Access, num claro trabalho conjunto entre a Vlambeer e a sua comunidade que apresentou o seu parecer sobre o jogo desde o primeiro dia.