Sem dar grandes sinais de abrandamento, a indústria dos videojogos parece continuar investida na produção de remasters e remakes de obras do passado longínquo ou mais recente e de graus variados de sucesso junto da crítica especializada e no que à movimentação de cópias diz respeito. É difícil argumentar contra o facto destes relançamentos introduzirem os títulos a novas gerações de jogadores, mas também é inegável que os critérios para a escolha dos jogos que recebem este tratamento estão cada vez menos exigentes.

Odin sphere leifhraser

Se Odin Sphere é merecedor ou não de um remake não me cabe a mim dizer, mas uma coisa vos posso garantir: Leifthrasir, subtítulo da nova edição do Role-Playing Game, é uma excelente obra que merece ser desfrutada pelo maior número de jogadores possível. Lançado originalmente para a PlayStation 2 numa fase em que a PlayStation 3 até já se encontrava disponível em alguns territórios, este clássico da Vanillaware pode ter passado despercebido a toda uma audiência já totalmente focada nas consolas da nova geração e isso é uma tremenda injustiça. Não por se tratar de um título de qualidade, mas sim por ser um atestado de saúde a um género que já estava longe dos seus tempos áureos.

Apresentando-se como um RPG de ação com alguns elementos característicos de Dungeon Crawlers, a jogabilidade do título conta com a complexidade, a profundidade e o sistema de progressão que são esperados de qualquer obra pertencente a este género. Felizmente, o jogo não introduz todas as suas mecânicas nos primeiros minutos e opta por ensinar o jogador de forma gradual, permitindo assim que tenhamos tempo para compreender todos os elementos da jogabilidade antes de novas mecânicas serem apresentadas e colocadas à nossa disposição. Seria muito fácil para uma obra como esta tornar-se demasiado confusa e assustadora, mas o método como o título nos vai explicando as suas várias componentes faz com que este se acabe por fixar como uma experiência bastante acessível.

Odin sphere leifhraser

Com um foco claro na ação frenética que oferece e no seu combate assente em combinações e nos usos de ataques especiais, Odin Sphere pode não ter neste departamento a complexidade e a componente estratégica que normalmente caracteriza estes jogos, mas isso não impede, como fica rapidamente evidente após algumas horas, que o combate não possa ser igualmente satisfatório e profundo. É verdade que o título está bastante longe de ser uma obra difícil ou particularmente exigente, uma vez que foram pouquíssimas as ocasiões em que cheguei a estar sequer perto de perder uma das inúmeras batalhas que enfrentei durante o jogo.

Isto deve-se sobretudo ao facto de a obra colocar um enorme ênfase na importância do vosso nível e dos níveis dos inimigos nas batalhas que enfrentarão ao longo da campanha. Sendo colocados num cenário dividido em várias áreas compartimentadas que terão de explorar de forma sequencial fazendo o vosso percurso até ao boss que vos espera na área final, o jogador encontrará áreas de batalhas, áreas de descanso e áreas com tesouros à espera de serem recolhidos. Significa isto que até chegarem à batalha, a vossa personagem provavelmente já terá subido tantos níveis que o inimigo final dificilmente será tão perigoso como poderia ser caso a progressão fosse mais lenta.

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Claro que a ascensão de nível estará sempre dependente da forma optarem por jogar, ou seja, poderão usar os phozons, obtidos maioritariamente durante as batalhas, para plantar sementes e obter frutos que restauram a saúde e oferecem quantidades consideráveis de pontos de experiência ou então para melhorarem a vossa arma ou mesmo o poderio das habilidades especiais. Numa fase mais avançada, estes frutos podem ser ainda utilizados em conjunto com outros alimentos em receitas que fornecem doses muito mais elevadas de experiência, sendo mais útil utilizar os phozons nas habilidades especiais e adquirir os frutos e alimentos nos vendedores ambulantes das áreas de descanso para produzir as receitas.

Ainda relativamente ao combate, Odin Sphere: Leifthrasir classifica a nossa prestação nas várias áreas de batalha com diferentes pontuações, sendo que quanto melhor a classificação melhores são as recompensas obtidas nessas áreas. Algumas destas áreas oferecem ainda cristais que desbloqueiam novas habilidades e expandem assim a robusta árvore de habilidades que o título apresenta. No entanto, algum dos cristais estão escondidos em áreas secretas que não surgem no mapa e que são bastante fáceis de serem esquecidos, dando um incentivo a uma exploração mais atenta dos cenários por onde passarão durante a campanha.

Odin sphere leifhraser

Como se decisões como utilizar os phozons para a progressão da árvore de habilidades ou para a progressão do nível da personagem, comer os frutos de forma imediata ou guardá-los para receitas futuras, quais os itens de bónus estatísticos a utilizar, o título conta ainda com um profundo sistema de alquimia que vos permite produzir, a partir da combinação de determinados itens, uma enormidade de poções que podem servir para restaurar a saúde ou para efeitos e ataques especiais, sejam eles ciclones, explosões, nuvens tóxicas, entre outros. Se existe algo que não falta na experiência desta obra é a diversidade de opções e métodos para enfrentar todos os inimigos e obstáculos.

No que diz respeito à narrativa, Odin Sphere oferece-nos várias campanhas protagonizadas por cinco personagens distintas, mas que contam todas elas com o mesmo elenco de personagens e que fornecem diferentes perspetivas relativamente ao arco narrativo geral. A história de Gwendolyn, por exemplo, conta-nos a aventura de uma jovem rapariga em busca de provar o seu valor ao seu pai, o Rei Odin, e também corresponder às expectativas geradas pela sua irmã entretanto falecida. Todas as narrativas são interessantes e mantêm-nos investidos na aventura de cada uma das personagens, infelizmente, o facto de terem de reiniciar o progresso de evolução da personagem e das habilidades sempre que assumirem o controlo de uma nova personagem torna-se algo cansativo e desmotivante.

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Tudo somado, incluindo New Game +, têm aqui conteúdo de alta qualidade para muitas dezenas de horas, sendo apenas de lamentar o facto do título não fazer parte do programa Cross-Buy, uma vez que a sua jogabilidade encaixa na perfeição na PlayStation Vita. Esteticamente lindíssimo, oferecendo cenários de grande beleza e bastante diversificados, inimigos e personagens com designs memoráveis e extremamente apelativos, o título da Vanillaware é um regalo para os olhos e uma das obras mais bonitas disponíveis no mercado. Uma banda sonora orquestral de igual qualidade e o facto de todos os diálogos serem vocalizados de forma eficiente também ajudam a cimentar a experiência como um todo coeso homogéneo no que ao polimento diz respeito.

Caso ainda restem dúvidas, termino afirmando que desfrutei bastante do meu tempo com Odin Sphere: Leifthrasir e que é praticamente impossível não o recomendar a qualquer jogador, sejam eles fãs ou não do género de experiência em questão. Recomeçar o progresso sempre que iniciam uma nova campanha é frustrante, especialmente tendo em conta que não o terão de fazer apenas por uma ocasião, mas a qualidade da narrativa e o combate altamente satisfatório são mais do que suficiente para abafar esse problema. A longevidade pode assustar alguns, mas a viagem vale claramente a pena, mesmo com alguns percalços pelo meio.