Uma ideia genial para videojogo que poderá ter sido inspirada por uma famosa pintura no Vaticano, conhecido por "A Escola de Atenas", pintada por Raphael. Em Okhlos uma representação em pixéis aparece para dar o início ao jogo. Filósofos da altura pensavam sobre a sua religião politeísta, nos vários Deuses que adoravam e sobre o que recebiam em troca. Foi então que estas entidades se revoltaram e bateram literalmente o pé a este movimento intelectual. É assim que começa a grande premissa de Okhlos. Um videojogo vindo da Argentina pela dupla que representa a Coffee Powered Machine.

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Este jogo funciona como um roguelike, contudo com diferenças que o distingue da grande oferta encontrada no Steam. A mais clara é que este é um jogo em que lutam através de cliques, não com um controlo preciso nas teclas direcionais, seja de quem dispara ou dos próprios disparos.

O filósofo que vão controlar tem de usar a sua melhor arma contra os Deuses: o seu poder de persuasão no povo grego. À medida que agregam seguidores, aumentam também o vosso poder de combate. Agora compete-vos a vocês espalhar a destruição pela Grécia Antiga e enfrentar criaturas mitológicas assim como gigantes como Apollo.

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Vocês controlam a multidão que juntam separadamente do líder que a convocou. Ou seja, na prática, controlam o filósofo com o teclado e a multidão com o rato. Nas primeiras sessões é um bocado confuso, se forem como eu esquecem-se de prestar atenção ao filósofo e este é eliminado facilmente entre a multidão. Porque este é o líder que une o povo, se morre também o destitui, o povo perde sentido e direção do seu objetivo. Podem ainda espalhar a multidão pela área do jogo, assim como comprimi-la como uma lata de sardinhas para passar em locais exíguos ou evitar perigos.

Começam como um líder solitário que à medida que progride pelas cidades gregas vai influenciando novas pessoas. Contudo, há que saber escolher quem recrutar para a vossa causa. Há cidadãos, defensores, militares, filósofos e escravos. Os Cidadãos são a unidade mais básica; os Defensores fazem exatamente o que o seu nome significa; os Filósofos acabam por funcionar como a quantidade de vidas que ainda têm disponíveis; Os Escravos transportam itens; já os Guerreiros dão um valor mais elevado no dano que podem infligir. Ainda há animais que podem recrutar, sem que estes contem para o total de membros total. Mesmo que com golpes muito fracos, conta sempre para o valor total de dano que podem aplicar num determinado inimigo.

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Exatamente como muito jogos deste género que começa a inundar o Steam, este funciona por salas, depois de estar limpa de inimigos a porta abre-se para a seguinte até chegarem ao boss. Contudo, aqui não há um controlo para onde vão ou devem ir, são conduzidos para onde quer que a porta seguinte vos leva. Mas a cada passagem existe um mercador que vos pode dar incrementos nas vossas estatísticas, como defesa ou ofensa, a troca de membros da vossa massa de seguidores.

Há heróis, provenientes das obras literárias de Homero: Ilíada e Odisseia. Duas grandes epopeias fantásticas que tiveram o seu grande conjunto de heróis e personagens famosas, nomeadamente Ulisses. Todavia, também as histórias populares da religião europeia também tiveram direito a entrar em Okhlos. Noé, por exemplo, o homem que construiu a arca e a encheu de animais, duplica o número de animais que têm a vosso dispor. Penélope, esposa de Ulisses, dá um aumento na barra de saúde. Andrómaca, para não faltar a inspiração evidente na mitologia grega, que teve a sua descendência um papel importante na Guerra de Troia, dá em Okhlos um aumento na força ofensiva. Os grandes nomes da Filosofia grega também não podiam faltar, sendo Parmênides um dos nomes em destaque. Enfim, existe uma enorme enciclopédia a preencher de nomes, mais ou menos famosos da nossa história e cultura grega, que oferece um melhoramento à vossa prestação.

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Se há um tendão de Aquiles relacionado com o jogo, será sobretudo nos seus controlos. É difícil fazer com que todos os membros da vossa multidão façam tudo o que vocês ordenarem com extrema precisão e prontidão. Há mapas que tem muitas casas, estruturas e edifícios públicos. Navegar entre eles é um tormento para tantas pessoas sedentas de sangue divino, fartas de serem comandadas pelos desejos dos Deuses.

Durante as minhas sessões de jogo gostei de pensar que isto era tudo propositado. Gostei sobretudo de imaginar que Okhlos era uma grande alegoria, onde alguém que tem uma determinada ideia contrária à norma resolveu passar a sua mensagem e as pessoas, que nem gado obediente, seguiram cegamente as suas ideias. Já assistimos e continuamos a assistir na nossa sociedade a tantos exemplos de situações em que indivíduos que falam antes de pensar e pessoas que concordam com a sua linha de pensamento fazem o seu trabalho sujo para que as suas ideias prevaleçam. Todavia, duvido que este tenha sido o caso dos produtores argentinos, ou talvez o ciberespaço atual, dominado por redes sociais, os tenha influenciado indiretamente.

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Quanto à parte técnica, achei interessante o que tentaram fazer. Temos personagens em duas dimensões a navegar num espaço de três. Dá certamente um efeito estranho, mas consegue o que quer. Fazer com estes pareçam figuras de papel a vaguear e a destruir uma maquete representativa da Grécia Antiga. Para dar ainda uma atmosfera ainda mais convincente, a lista de faixas da Banda Sonora assinada por A Shell in the Pit (compositor do videojogo Duelyst) encaixa muito bem numa Grécia popular e no seu folclore tradicional.

Sim, Okhlos é um jogo com alguma falta de controlo. Tentem controlar uma multidão enraivecida, conseguem talvez meia dúzia de pessoas, mas os restantes cem continuam à solta a provocar o caos. Todavia, Okhlos consegue ser muito divertido e obviamente, essa falta de controlo aparente nas primeiras sessões de jogo vai-se dissipando com técnicas que vão adquirindo para sobreviver até à aniquilação do último Deus resistente. Okhlos vale bem a pena, é um roguelike alternativo com boas doses de humor. Está garantido o regresso para novas sessões de caos grego.