Tenho duas memórias muito vividas sobre a minha estreia nos videojogos em que a temática central é o skate. Um nível que tinha uma escola como pano de fundo e a música 96 Quite Bitter Beings dos CKY em looping - ambos extraídos dos primeiros três capítulos da série Tony Hawk Pro Skater. Posteriormente experimentei a série Skate da Electronic Arts, mas estas duas tranches nunca se diluíram com as novas vivências acumuladas.

OlliOlli é um jogo inserido no mesmo género, todavia completamente diferente das duas séries mencionadas. Com deslocação horizontal e uma visão em 2D, não foi precisa mais que uma mão cheia de minutos com a PlayStation Vita nas mãos para reparar nas semelhanças com Canabalt e ficar absorto pelo ritmo e fluidez a fazer lembrar Runner. Os oito pontos do tutorial servem bem o seu propósito de escolaridade obrigatória, explicando todas as vicissitudes do esquema de controlo do jogo sem grande margem para mal entendidos ou manobras dúbias.

Veteranos no treino, não passam de caloiros na centena de níveis que têm pela frente. Escudados pela lógica, existe uma curva de exigência desenhada para acompanhar na perfeição a vossa automação dos truques e métodos que acabaram de aprender. Como em qualquer título inserido neste género, vão cair incessantemente. E com cada queda, imagino a minha personagem a levantar-se, esfregando as palmas das mãos polvilhada com gravilha digital nos jeans azuis, recomeçando o nível com o queixo arranhado mas levantando. OlliOlli é gracioso na maneira como penaliza o jogador, fazendo-o cair quase sempre de forma estóica.

Todavia, é precisamente nos momentos em que estão em cima da prancha de madeira que o exclusivo PlayStation Vita da Roll7 demonstra o que vale. A fórmula não é nova: ir do ponto de partida até à meta onde está uma claque à vossa espera sem cair e realizando manobras que retiram o máximo do cenário, amealhando o maior número de pontos possível. O número não é mais que a confirmação da variedade da jogabilidade: 120 truques e grinds estão à vossa disposição para serem consultados no Tricktionary e materializados nos vários níveis, seja na secção amadora ou profissional.

Apesar de tudo isto, o que mais gostei em OlliOlli foi a sua jogabilidade: tão simples e desafiante ao mesmo tempo. Depois de pressionarem duas vezes o botão X a personagem ganha balanço, não sabendo o que a passagem do carrossel de oportunidades que é a deslocação horizontal do cenário encerra. O analógico esquerdo é utilizado para quase tudo: pressionem-no e ele prepara o salto, libertem-no e ele é executado. No ar, deslizem-no para os vários pontos cardiais e os truques começam a aparecer. Se sentirem que a vossa sorte compensa o lado temerário, podem ainda usar o L e R da vossa portátil para adicionar a conjugação do verbo girar à vossa lista de afazeres. Contudo, não basta desafiarem a gravidade, terão que trabalhar com a falta dela. Para consumarem todos os pontos amealhados enquanto estavam terão que pressionar o botão X o mais próximo do momento em que as quatro rodas beijam o chão. Contudo, a ganância ganha muitas vezes e acabarão por executar o procedimento demasiado tarde, o que resulta numa conclusão falhada, perdendo todos os pontos que já imaginavam serem somados à vossa conta.

Estes procedimentos são as raízes de OlliOlli, os alicerces, as bases que servem como emulsionante não à diversão mas sim aquela sensação que nos faz voltar para mais um nível, para mais um ajuste na pontuação, para apenas mais dez minutos quando sabemos perfeitamente que só temos cinco disponíveis. Mas o que seria das raízes sem a água que as transforma em algo vistoso? Felizmente, a produtora Roll7 junta a quantidade substrato ideal com o desenho inspirado dos níveis, onde todos aqueles procedimentos podem ser colocados em prática.

Desde os primeiros níveis em que as rodas auxiliares ainda estão na bicicleta às variantes profissionais, as etapas são como uma tela de linho: no versão poderão estar cheias de binário indecifrável, contudo, à superfície que é jogável não são menos que um traço de aguarela ininterrupto que coloca os jogadores numa zona em que nada importa, uma dança que não sendo dos cisnes tem o mesmo factor encantatório. Comecem a encadear as manobras no início do nível e o resultado é o mesmo que a cordilheira de ondas perfeitas que faz o surfista chegar de uma praia à outra. A grande diferença é que aqui não estamos dependentes da natureza, estas "ondas" foram aqui colocadas com sapiência e de maneira a que não sejam variáveis na nossa prestação.

Seja no solo ou a fazer grind em telhados de barracas, barras de ferro, bancos, enfim, uma panóplia de acessórios colocados no centímetro exato que nos fazem encadear uma manobra contínua e sem momentos mortos, ou melhor, em momentos vivos graças à nossa prestação, que só é conseguida por entrarmos num estado zen, independentemente de estarmos com a portátil da Sony no sofá, no autocarro ou no turbilhão de distrações patrocinadas pelo quotidiano.

Além do modo carreira, OlliOlli tem alguns modos auxiliares. Cada nível tem um "spot", um piscar de olhos ao multijogador, já que é aqui que entram em confronto direto com jogadores de todo o mundo pela melhor pontuação naquele talhão de cenário. Estes trechos só demoram alguns segundos e, mal terminem a vossa prestação, ficam a saber a vossa pontuação, o vosso lugar no ranking e quem é o líder desse lugar. Finalmente, o último modo que vale a pena mencionar é o "Desafio Diário". No menu principal têm a opção de participar no desafio do dia - é mostrado o tempo que resta até terminar. Depois de treinarem durante o tempo que quiserem, têm uma única oportunidade para mostrarem o que valem. O resultado dessa tentativa é gravado e só podem tornar a experimentar este modo quando o calendário avançar uma casa. Ainda que tudo faça parte de um teatro digital, a pressão esmagadora só é combatida com nervos de aço.

O grafismo do jogo não é nada de deixar ninguém sem palavras. Como já foi mencionado, os níveis são em 2D com as camadas de detalhes a serem sobrepostas. As imagens que acompanham este texto ilustram bem isso. Ainda assim, importa mencionar que Olliolli é composto por várias áreas e de uma maneira geral nunca senti que estava há demasiado tempo a deslizar com um único pano de fundo. A banda sonora cumpre o exigido: dá ambiente à ação e, sobretudo, não se intromete na nossa prestação, deixando-nos concentrar na tarefa de não beijar novamente o cimento.

Olliolli é uma das maiores surpresas de 2014. Frenético, inspirado, capaz de nos fazer regressar a ele vezes sem conta, retira partido da portabilidade da consola onde foi lançado em exclusivo. Muitos pensarão que é ideal para curtas sessões de jogo - o que não é mentira - enquanto estão à espera que a vossa vida saia da pausa temporária, porém, graças a uma jogabilidade imaculada e a um desenho de níveis que coloca tudo no sítio oportuno, é natural que essas pausas comecem a ser provadas pelo título da Roll7 frequentemente. Como nota final, importa referir que o conteúdo oferecido justifica o investimento de dez Euros.