A série de animação japonesa - e de banda desenhada manga - One Piece possui uma legião vasta legião de fãs que segue religiosamente cada novo episódio da aventura de Monkey D. Luffy, o pirata de borracha. Com mais de 600 episódios, que começaram em 1999, One Piece é louvado pelo seu humor desvairado, pelas suas personagens memoráveis e pela história única sobre piratas. Porém, nem todos os videojogos inspirados na série de Kōnosuke Uda gozam do mesmo estatuto, nomeadamente o mais recente título lançado na Nintendo 3DS que estava somente disponível no Japão para a PlayStation Portable - One Piece: Romance Dawn.

Criar um jogo Role Playing não é pera doce e nem todas as produtoras têm as mãos calejadas para se aventurarem neste tipo de trabalhos. A complexidade intrínseca a este género foi completamente ignorada pela Three Rings. Esta não teve estofo suficiente - nem vontade, pelo que demonstraram - para erguer um título tão ambicioso quanto este. Após cerca de uma dezena de horas a passar a pente fino este RPG, teci as minhas conclusões que podem ler nos próximos parágrafos.

O arco narrativo percorre os primórdios da série anime, exibida no final dos anos 90, das aventuras marítimas de Luffy e do seu bando de piratas invulgares. Desde tenra idade que Luffy sonha em ser um famoso pirata, depois de ter sido salvo por Shanks de um monstro marinho. Mas para conseguir vingar nesta arriscada carreira, Luffy tem que adquirir o título de Rei dos Piratas ao conseguir o maior tesouro da era dos piratas - o One Piece. Todavia, Luffy não é um simples pirata porque na sua infância este ingeriu, inadvertidamente, uma das Frutas do Diabo que lhe deu o poder de esticar os seus membros, tal como o Mr. Fantastic da Marvel. Infelizmente para o herói, esta Fruta tirou-lhe a possibilidade de nadar.

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É já neste elemento do jogo que a Three Rings começa por revelar as suas fragilidades. A história é-nos apresentada de forma muito pouco trabalhada. Temos cenários estáticos como se fossem uma espécie de tela sem vida nem esplendor. Depois, por cima estão retratos dinâmicos - retirados certamente do Bilhete de Identidade de cada membro do elenco - com os respetivos balões de diálogo. A representação do conjunto de sentimentos e expressões que definem o caráter icónico das diversas personagens é simplesmente lamentável. Assistir a uma secção da história, com 20 a 30 minutos de duração, é um processo penoso para o jogador. Felizmente existe a possibilidade de avançarmos a narrativa com o pressionar de um botão. Mas caso queiram ver algumas belas sequências de animação melhoradas pela Toei Animation, é inevitável terem de aguentar com a narrativa para poderem acederem a estes pequenos tesouros escondidos.

A jogabilidade poderia ter sido um campo facilmente explorado, se este não estivesse minado de incongruências que o enfraquecem. E, para piorar a situação, a fórmula usada repetidamente pelo jogo é discernida diante dos nossos olhos após passar um breve par de horas - que para um RPG não é, praticamente, nada.

One Piece: Romance Dawn é no seu âmago um RPG com combates por turnos. O primeiro passo consiste em escolher um destino no mapa, onde as missões principais estão assinaladas com edificações da localidade em causa. De seguida, quando atracarem o vosso barco, a história começa nos moldes já mencionados acima e num dos momentos cruciais definidos pelo jogo terão de percorrer um ou mais labirintos até chegarem ao boss do nível. Caso escolherem uma missão secundária, o processo é o mesmo - como é claro, não avançarão na narrativa. E é sempre assim, sucessivamente. Após derrotarem um dos vilões desbloqueiam duas missões secundárias e um ou dois locais reservados para a progressão na história.

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O combate é simples mas frívolo e maçador com o passar do tempo. Isto devido ao design dos próprios níveis e da Inteligência Artificial que assume um comportamento previsível. Basta lerem o nome do nível em que vão entrar e saberão com antecedência que papel de parede é que será usado - que já viram anteriormente em dezenas de outros locais. Além disso, não existe um desafio propriamente dito, podem pressionar o botão A repetidamente e vencem as batalhas sem problemas.

O único ponto favorável em termos artísticos, são sem dúvida as sequências de animação da série One Piece. O resto do jogo não prima por um grafismo de qualidade assinalável. Aliás, é cansativo combatermos vezes sem conta clones dos mesmos modelos de inimigos em pontos diferentes do mapa. Já a enérgica banda sonora é assinada por Hyoue Ebata, músico conhecido por colaborar em outros animações e programas televisivos nipónicos.

Só posso recomendar One Piece: Romance Dawn a fãs acérrimos dos desenhos animados em que se inspira, para assim poderem ver pequenas, mas belas curtas metragens inéditas de One Piece. No entanto, como RPG, este título da Namco Bandai Games afunda-se como um prego.