Se por um lado, a beta de Onrush serviu para eliminar desde logo a ideia da minha cabeça de que estaria prestes a receber o muito desejado sucessor espiritual de Motorstorm, por outro, serviu também para me despertar o interesse por uma experiência bastante diferente daquilo a que este género nos habituou. Como escrevi na antevisão, Onrush é “um jogo de corridas onde o objetivo não é a 1ª posição”, não é ser o primeiro a cruzar a meta, mas sim ser parte de um coletivo a lutar pela vitória da sua equipa e destruição dos adversários.

É esse sentimento que está no cerne desta obra dos produtores da série que fez delícias na PlayStation 3, isto é, a competição no seio de uma equipa para superar os adversários, quaisquer que sejam os meios necessários para que tal aconteça. Contribuir para o sucesso do nosso conjunto através da prestação individual é o nosso objetivo no início de cada prova, independentemente do tipo de corrida em que estamos prestes a participar.

Onrush é, por isso, uma experiência diferente de tudo o resto. Não é um título de combate veicular em que o único objetivo é a destruição dos outros carros. Existe ordem por entre todo este caos, uma variedade de comportamentos a ser adotados para ajudar a levar a nossa equipa à vitória, uma componente estratégica na escolha da classe de veículos disponíveis, enfim, existe muito a ter em conta numa experiência que por vezes se apresenta de forma algo superficial.

Como já disse no passado, o ADN de Motorstorm é facilmente identificado em Onrush. A sensação de velocidade, o caos das corridas off-road com múltiplos percursos e o constante uso do turbo e o espetáculo visual daí resultante são exemplos disso mesmo. O jogo da Codemasters pega nos melhores elementos de Motorstorm e aplica-os a uma fórmula completamente distinta, contudo, os resultados falam por si mesmo, uma vez que se traduzem numa experiência altamente cativante e única.

Apesar de ter na sua componente online o elemento em que as suas valências são melhor realçadas, Onrush apresenta uma experiência robusta para aqueles que preferem jogar a solo. Com inúmeros eventos, cada um deles com os seus próprios desafios secundários que servem como introdução aos diferentes tipos de corrida e às habilidades das diferentes classes, terão de colocar várias horas na obra para concluírem todas as provas e todos os objetivos com sucesso.

Dito isto, é possível que, a dada altura, a motivação para continuar a abrir caminho pela componente solitária se torne a antítese daquilo que deveria ser a experiência do título, ou seja, um desafio algo monótono e, acima de tudo, cansativo. Isto deve-se muito ao facto de existirem apenas quatro tipos diferentes de corridas e de a recompensa ser sempre a mesma, isto é, diferentes opções de personalização para os corredores e os seus veículos. Para alguns, a vontade de ter tudo aquilo que a obra tem para oferecer poderá ser suficiente para os manter ligados, mas no meu caso revelou-se insuficiente.

Ainda assim, retirei várias horas de diversão durante o meu tempo a solo com Onrush, embora seja inegável que, mais tarde ou mais cedo, a necessidade de se saltar para o online seja quase obrigatória para refrescar a experiência. Arriscaria dizer que Onrush está no seu melhor se conseguirem arranjar cinco amigos para compor uma equipa e partilharem desta forma a experiência, delineando estratégias e contribuindo para o vosso sucesso de forma mais tangível.

Esse é também um dos pontos menos conseguidos do título. Refiro-me à forma como, apesar de estarmos sempre inseridos no contexto de uma equipa, o jogo transmitir sempre a sensação de que estamos entregues à nossa sorte, de que existe pouca cooperação entre parceiros. Sim, algumas classes de veículos possuem habilidades que são focadas precisamente nesse esforço coletivo, mas durante a maioria do tempo a entreajuda, a comunicação entre colegas é inexistente. Cada um faz o seu trabalho de forma isolada e espera que os restantes cumpram com igual competência os seus papéis.

Não fiquem, ainda assim, com uma perceção errada sobre a qualidade da obra. Onrush é um título de qualidade e que consegue com sucesso oferecer o tipo de experiência que pretende. Diferentes modos requerem diferentes abordagens e, por isso, a utilização de diferentes classes. Por exemplo, no modo Overdrive, que vê a pontuação da equipa aumentar sempre que o turbo for utilizado, opto quase sempre pela classe Enforcer que me garante turbo sempre que destruo veículos na pista e me aproximo de inimigos.

Já o modo Switch é provavelmente o mais interessante dos quatro - Switch, Lockdown, Countdown e Overdrive -, pois dá a cada jogador um número restrito de destruições, sendo que cada destruição leva à mudança de classe, ou seja, vão desde as ágeis motas até aos mais pesados veículos de quatro rodas. Através dessa mecânica, os jogadores são forçados a analisar cuidadosamente quando devem arriscar e tentar destruir um inimigo ou procurarem resguardar-se das ofensivas adversárias.

Lockdown, por sua vez, é o menos feliz da lista de provas, colocando as duas equipas numa luta para conquistar uma zona em constante movimento. A zona é conquistada quando uma equipa conseguir ter mais carros no interior da zona que os adversários durante cinco segundos consecutivos. Infelizmente, este modo resulta melhor na teoria do que na prática, uma vez que existem partidas em que sentimos que não temos participação direta nos acontecimentos, pois andamos sempre atrás da ação e não no centro dela.

No que diz respeito ao departamento técnico, Onrush mantém a espetacularidade visual que caracterizou as obras anteriores da Evolution, com pistas que levam os jogadores por diversos cenários que vão desde florestas até rochedos à beira-mar pontuados por cores vivas e pintadas pelos rastos deixados pela constante utilização do turbo. A banda sonora ajuda igualmente a realçar o ritmo frenético das provas e o caos que vai pautando a ação.

Onrush é, assim, uma obra de vários méritos, oferecendo uma experiência em tudo distinta no género em que se insere, que tenta transformar um género normalmente individualista em algo focado no coletivo - com diferentes graus de sucesso. Com um modo a solo robusto e uma componente online capaz de dar o ar da sua graça, o título tem tudo para oferecer inúmeras horas de caos veicular, mesmo que a ausência de uma progressão significante e a existência de apenas quatro tipos de corridas possa acabar por originar alguma fadiga.