Os governos de todo mundo têm contado, nos últimos anos, com uma enorme dificuldade em proteger os seus cidadãos. No entanto, a segurança nacional tem sido mais uma desculpa do que uma prioridade para justificarem as suas ações contra o terrorismo, ou seja, sermos constantemente espiados pelas autoridades. Hoje em dia a privacidade praticamente não existe, as redes sociais ajudaram bastante para que a nossa identidade online seja cada vez mais fácil de ser acedida por desconhecidos. Obviamente, é proibido e punido por lei aceder a informações privadas como as trocas de mensagens instantâneas, email ou mensagens privadas enviadas através de redes sociais. Mas até que ponto é que esta invasão à privacidade pode ser aceitável quando se investigam crimes? 

Orwell coloca, e bem, esta questão, mas a uma escala um pouco maior. Um crime isolado envolve, normalmente, um punhado de pessoas. No entanto, ataques com recursos a explosivos que destroem edifícios inteiros ou que provocam dezenas de mortes e feridos tem de ser analisados por uma perspectiva diferente. Há mais pessoas envolvidas e o ato de terrorismo em si tem um impacto não só nas vítimas, como nas pessoas que passam pelo local diariamente. 

Imagens Analise Orwell

O título da produtora alemã Osmotic Studios instiga quem joga o que seria da nossa segurança se esta fosse controlada por cidadãos comuns. Nunca fez tanto sentido uma afirmação do humorista George Carlin: “Nunca desvalorizem o poder de pessoas estúpidas em grandes grupos”, visto os resultados dos últimos eventos políticos. E os produtores de Orwell, partilham veemente da mesma opinião do humorista e isso reflete-se bastante no título.

Orwell é um jogo de investigação, onde o jogador é um mero cidadão que teve acesso à nova plataforma, de nome homónimo ao jogo, do ministério da segurança do governo ficcional The Nation. Assim, os cidadãos podem participar na segurança do seu país, procurando indícios que apontem para a resolução de crimes e atentados à segurança da população. Neste caso temos uma bomba que explodiu na Praça da Liberdade, colocando em causa a segurança apertada lá existente, com câmaras por tudo quanto é sítio. O jogador é assim incumbido de descobrir quem causou esta explosão que provocou vítimas mortais e vários feridos.

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É aqui que entramos em contacto com o administrador do software. Nesta primeira comunicação, é-nos explicado como é que vamos proceder para recolher informação vital para resolução deste atentado. Através de uma publicação noticiosa, das redes sociais e de métodos intrusivos. Estas últimas formas de recolher provas seriam consideradas crime caso fosse uma outra pessoa qualquer a aceder a essa mesma informação. 

Vão poder vasculhar mensagens enviadas através de programas de mensagens instantâneas, como o Skype, e até aceder à transcrição de chamadas telefónicas. As teias desta conspiração ficam cada vez mais largas envolvendo mais pessoas do que apenas a suspeita inicial. Mas para progredir no jogo há que selecionar a informação correta que aparece nos diversos meios, a que está destacada pelo programa informático Orwell. Todos estes dados têm que ser selecionados por vocês e inseridos na base de dados de Orwell, só assim é que o caso se constrói, só assim é que vão moldar os acontecimentos ocorridos que envolveram as pessoas que estão a investigar.

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O jogador é assim um filtro de informação para as autoridades. E é esta qualidade de interpretação que afetará o curso da narrativa. Numa das conversas, por exemplo, houve uma troca de mensagens entre um casal de namorados em que um admitiu ter tirado o cartão de crédito do outro para fazer umas compras. Se quiséssemos podíamos tirar essa parte fora de contexto e acusar o indivíduo de roubo. São escolhas como estas que vão determinar o futuro de cada uma das personagens que tem uma ligação a este crime.

Mais tarde aparecerão também incongruências entre declarações de determinadas pessoas. Poderão ser sobre valores nos quais acreditam, a relação que têm entre certas pessoas da sua vida ou ainda simples sentimentos que transmitem em certas situações. Escolham uma e o indivíduo fica marcado pela vossa compreensão dos factos. Certa ou errada, é sempre complicado retirar a verdade de uma afirmação por escrito sem sabermos o tom que o emissor queria transmitir ao destinatário. 

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Uma parte que não faz muito sentido é de haver um administrador que não é muito mais inteligente que o próprio software, ainda por cima com comentários inapropriados na maioria das vezes que introduzimos novas informações na base de dados. Muitas vezes este acabou por condicionar as minhas escolhas, visto que queria contrariar as suas afirmações e opiniões que tinha sobre este atentado e as pessoas envolvidas.

O sistema organiza muito bem as informações, contudo, a forma como acedemos a estas é muito unilateral. A maioria dos acontecimentos é registada por uma única publicação noticiosa, não há outras fontes de informação onde podemos verificar a informação que nos é dada. E, por vezes, ficamos perdidos no meio de tanta informação, na procura exaustiva de uma mínima incoerência que possa acender uma luz sobre os próximos passos dos autores da explosão. Não é que o texto seja mau de ler, é um dos aspetos narrativos que os produtores melhor acertaram, mas é a quantidade enorme de linhas de texto, de fontes de informação; é como tentar encontrar uma agulha num palheiro.

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O visual também serve bem o propósito de apresentar uma interface limpa, sem nunca cansar a vista em busca de excertos de texto. Quem costuma visitar sítios de videojogos pela Internet vai reconhecer o visual das fotografias de Orwell muito facilmente, inspirados na publicação online que tem assumido uma postura feminista em relação a muitos assuntos polémicos. Para fotografias de rostos, tipo passe, funciona perfeitamente. Porém, ficam muito estranhos, confusos e distorcidos quando estão a tentar representar paisagens ou corpos inteiros através de polígonos sobrepostos. 

Orwell quer ser atual e incitar o debate de temas dos quais os governos ainda não encontraram solução. Há uma trama muito interessante a seguir, sobretudo quando nos afastamos e imaginamos sermos uma outra pessoa com uma opinião totalmente diferente. E se somos um entre milhares que acederam a este programa, é assustador constatar os efeitos que Orwell poderia ter se  fosse implementado num futuro próximo de forma a reduzir o horror sofrido por inocentes. Orwell merece ser experimentado, não só por ter sido muito bem executado, como por ser muito interessante tentar desvendar casos com recurso a uma ferramenta que retira a privacidade à sociedade como forma de a proteger.