Pedro Martins por - Apr 26, 2017

Outlast 2 – Análise

Os amantes de videojogos de terror, apaixonados pelo salto danado e pela tensão de arregalar os olhos, há muito que tinham Outlast 2 na mira. Nós, os amantes do respirar fundo antes de abrir uma porta, há muito que certamente tentávamos adivinhar o que o novo jogo da Red Barrels tinha para contar e para fazer sentir. Esse dia finalmente chegou e é uma obra que me deixou com vários sentimentos à flor da pele.

Apesar de não ser amado por todos, o primeiro jogo da série foi uma agradável surpresa, uma obra que colocou a produtora canadiana no mapa. As expectativas para Outlast 2 eram elevadas, alimentadas por vídeos e trechos jogáveis que indiciaram o quão sombria era a sequela, que não era apenas mais do que já tínhamos visto no título original e no DLC Whistleblower.

Imagens Analise Outlast 2

Terminei Outlast 2 na noite passada, tendo passado as horas desde então a assimilar o que tinha experienciado durante aquelas horas. Jogamos na pele de Blake Langermann, um cameraman que parte numa aventura jornalística com a sua mulher Lynn. O jogo arranca com o casal num helicóptero a perseguir a história: uma mulher foi misteriosamente assassinada.

Para surpresa de ninguém, o helicóptero despenha-se e o casal separa-se. Atordoados, começamos a espinha dorsal do arco narrativo de Outlast 2: procurar e encontrar a nossa mulher. Pouco depois de encetarmos a perseguição à nossa amada, o jogo decide começar a mostrar as suas garras, revelando as vagas inspirações no massacre de Jonestown, ou seja, estamos rodeados de fanáticos que estão dispostos a tudo para dificultar-nos a vida, para nos fazer passar horas mergulhados no que parece um inferno saído da mente de Dante.

Estes grupos de pessoas vivem de e para a religião, para uma crença cega que remove barreiras do senso comum e da compaixão humana. Mais: esta crença não encontra o mínimo entrave em espezinhar a vida para agradar ao superior espiritual – muito perto do final, uma personagem afirma claramente que matou os seus filhos para ser ouvido. 

Imagens Analise Outlast 2

É simples: para chegar a Lynn, Blake terá que abrir caminho pelo culto. São grupos de diferente índole, com o jogo a dividi-los em Católicos e Heréticos. Todavia, as suas práticas, a forma como veem nesta dupla seres que são o seu novo foco acabam por resultar para o mesmo fim. A religião alimenta o arco narrativo, associando-se ao sexo e à reprodução do humano, o que obviamente aponta o holofote para Lynn.

Não é o argumento do ano, mas ainda assim é aquele tipo de argumento que seduz a curiosidade, que faz o jogador ficar até ao fim para ver até onde vai esta loucura colectiva e este total desprendimento da realidade, ficando ainda assim aquém na forma como o seu cerne é aprofundado. Não só toca em vários temas tabu, como o faz de uma forma crua, violenta, que agasta o jogador incessamente, que o derruba depois de o marcar para os próximos meses, anos até.

Imagens Analise Outlast 2

Outlast 2 é um dos jogos mais violentos que já experimentei, é um dos jogos mais chocantes de que lembro. Quando uma mulher presa e partida pelas articulações não é o mais chocante, quando animais esventrados se amontoam, quando uma degolação é o previsível, é porque estamos perante uma obra que bate em quem joga impiedosamente. A produtora sabia perfeitamente que após duas ou três horas de jogo já nos tinha caídos no chão, mas continua sem dó nem piedade.

Há uma parte já na segunda metade da obra em que das sanitas começa a brotar sangue, inundando a casa de banho, momento que antecede uma chuva de sangue. Em vez de ficar surpreendido, o meu pensamento foi simplesmente: “claro que o jogo faz isto”. É um jogo que dificilmente não levantará celeuma, pois à violência gráfica junta-se a violência psicológica, um tipo de tormento em que a produtora mostrou-se igualmente impiedosa.

Imagens Analise Outlast 2

Isto, porém, levanta um problema. É verdade que há encontros e situações que nos fazem saltar da cadeira e há trechos em que a tensão é palpável. Porém, sente-se que há aqui o chocar por chocar, o que é pena, pois em várias situações isto é usado em detrimento de trabalhar um tipo de terror e suspense em crescendo, ou seja, parece que Outlast 2 perde o foco, especialmente no miolo da obra, que em alguns casos é simplesmente penoso.

Lembro-me particularmente de uma secção com uma jangada que se arrasta por tanto tempo que parece estar ali apenas para aumentar a longevidade. É uma parte que poderia ter menos de metade do tempo e o efeito seria idêntico. O arranque do jogo é fortíssimo e o final, ainda que curiosamente mais calmo, dá que pensar, questionando se vale a pena todo o sacrifício e devoção a um Deus, se Ele afinal está a ouvir quem aniquila tudo na sua vida, às vezes até aniquilando a sua própria vida.

Imagens Analise Outlast 2

Muitos desses sustos são obviamente alimentados por encontros imediatos com os inimigos deformados que chegaram a estes locais antes do jogador e que não querem – mesmo – que cheguem a Lynn. Isto alimenta também a sua jogabilidade. Sendo um jogo Outlast, não têm como se defender, participando num jogo do gato e do rato, munidos com a vossa câmara e com a possibilidade de esconderem-se em vários objetos, espreitando a cada canto e esquina.

A Red Barrels quer impor aquela sensação de impotência, o que resulta na maioria das vezes, ainda que na recta final acuse algum cansaço. Essa eventual fadiga não chega, porém, às perseguições, que são sempre descargas de adrenalina que nos transformam em seres atarantados. Esta sensação de urgência – para não escrever medo – é executada com mestria nas secções com Marta, inquestionavelmente uma das presenças mais fortes em Outlast 2.

Imagens Analise Outlast 2

Transversal a toda a obra é a câmara de Blake. Continuamos a vasculhar os cenários à procura de baterias – e de pensos para nos curarmos dos encontros a que não conseguimos escapar – para alimentar a sua visão nocturna que nos permite ver por entre o breu. Quem não gostou desta mecânica, certamente não é agora que vai ficar fã. Ao longo da nossa travessia pelo mundo de Outlast 2 a câmara vai detectando vários pontos de interesse que podem ser filmados pelo jogador e revistos para ficarmos a conhecer um pouco melhor o que aconteceu ali – algo que na prática acaba por refrescar um pouco o cerne da jogabilidade.

Uma parte do arco narrativo é um revisitar do passado de Blake, pelo que há várias secções jogadas numa escola. Sendo Outlast 2, é uma escola Católica, com várias referências religiosas espalhadas pelos corredores e pelas salas de aula. Estes momentos culminam na explicação do que aconteceu a Jessica, uma personagem misteriosa que passa por muito, que leva, novamente, a obra a versar sobre temas sombrios. Estas secções foram também a forma encontrada para diversificar um pouco o departamento gráfico.

Imagens Analise Outlast 2

E nesse departamento, Outlast 2 é uma obra bastante competente. A modelagem das personagens fica aquém quase sempre, mas as texturas e, sobretudo, a forma como os efeitos são conjugados ajudam a criar um ambiente soturno que não levantará grandes sorrisos a muitos jogadores. Os efeitos também estão bem conseguidos, seja nas fogueiras onde seres foram queimados vivos, seja no tom vermelho quando chove sangue, a PlayStation 4 Pro apresenta um departamento capaz.

O jogo acaba com a aproximação, mergulho e saída das minas. Não são pertença a um design perfeito, mas são indubitavelmente cenários claustrofóbicos, com Blake a passar muito tempo a esgueirar-se por nesgas que tornam a respiração pesada a qualquer um. De notar, todavia, que demoram algum tempo até chegar até às minas, o que ajuda a espicaçar a curiosidade e a antecipação do que se esconde lá em baixo.

Imagens Analise Outlast 2

É muito injusto escrever sobre Outlast 2 sem mencionar a sonoplastia. A vocalização é sólida, mas não deslumbra. O que deslumbra do início ao fim é a banda sonora, um design sonoro imaculado, que sublinha os momentos de tensão de uma forma que se sente pelo corpo adentro. É sem qualquer dúvida um dos pontos mais elevados do jogo, sendo uma lição de como alimentar o suspense além do visual, aparecendo sempre no momento ideal e, não menos importante, remetendo-se a um silêncio que nos diz que algo está prestes a correr mal, muito mal.

Gutural, cru e pejado de situações chocantes e polémicas, Outlast 2 não é um mau jogo, sendo recomendável a quem gostou do primeiro. Pessoalmente, julgo que o primeiro é mais conseguido, uma vez que a sequela tem um meio muito mais mastigado, capaz de proporcionar momentos que eram escusados. Além disso, há aqui muito para vos chocar e para vos deixar incrédulos, sim, mas terror na sua essência, aquele que se movimenta debaixo da pele, esse é muito menos abundante.

veredito

Disposto a chocar sem pedir desculpa, Outlast 2 não é um mau jogo de terror, mas fica aquém em vários segmentos. Com esta matéria-prima, o argumento podia ser mais profundo.
7 Excelente sonoplastia. Alguns momentos de tensão densa. Arco narrativo podia ser mais profundo. Trechos que se arrastam demasiado.

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Lançado originalmente:

25 April 2017