Se eu escrever a palavra Nintendo, a vossa mente é assaltada com discernimentos sobre o quê? Muito provavelmente sobre a NX, talvez sobre Super Mario Run. Mas quantos pensam imediatamente na Wii U? Quem é que ainda está com a atual consola fixa da casa liderada por Tatsumi Kimishima? Os mais céticos poderão afirmar que é uma ilha com cada vez menos náufragos. Talvez. Mas olhem que esses resistentes têm agora mais uma proposta capaz de prolongarem a sua estadia antes de tentarem sair.

Paper mario color

Paper Mario: Color Splash chegou ao mercado há apenas alguns dias, alargando com uma entrada sólida o catálogo de títulos exclusivos da plataforma, prolongando a sua vida útil graças ao labor da Intelligent Systems. É o melhor jogo lançado para a consola? Não. É o melhor jogo da série? Não. É um título recomendado? Sim, sem grandes dúvidas. Pode não atingir os píncaros de The Thousand-Year Door, mas certamente é uma obra mais conseguida do que Sticker Star. Se são fãs da série é provável que já se tenham decidido, contudo importa mencionar que têm aqui uma prenda de Natal antecipada.

Praticamente tudo em Color Splash gira em torno da cor, da sua manipulação. A vossa entrada na Ilha das Seis Cores é feita pelo Porto das Cores. Sem grande surpresa, o local perdeu as suas cores e o canalizador mais famoso do mundo dos videojogos está agora incumbido de investigar o que aconteceu, começando na Fonte das Cores. Além do elenco habitual num jogo Mario, a personagem em destaque é o Pintas, uma lata de tinta que nos vai acompanhar ao longo da aventura e que ajuda a vincar o tom da escrita graças a várias interjeições.

Paper mario color splash

Logo no início, "O senhor Lata é o meu pai. Eu chamo-me Pintas" fica dada a deixa para que Color Splash se venha a afirmar pela linhagem do seu humor. Com o progredir da narrativa, os Masquitos de Palha em riste dão origem à busca das Estrelas de Tinta e não são precisas muitas horas que a motivação de Mario se volte para o desaparecimento de alguém que lhe é próximo. Por essa altura já estarão familiarizados com considerável mundo do jogo, oferecendo um mapa-múndi com os cenários que foram desbloqueando, assim como a percentagem do cenário que pintámos e as estrelas que apanhamos, com incontáveis níveis a pedirem que os jogadores regressem para completarem tudo a 100%.

Não é tanto que o arco narrativo seja um sorvedouro da curiosidade do jogador desesperado por saber o que acontecerá no final. Não é mau, mas destaca-se pela qualidade da escrita colocada ao serviço de um sentido de humor afiado praticamente de uma ponta à outra. Isto resulta porque além de gozar com tudo à sua volta, a Intelligent Systems vira essa tenacidade para dentro, brincando com as personagens do jogo, escrevendo o que muitos jogadores estariam a pensar. Quando alguém é raptado, é o próprio jogo a gozar com a situação; quando Mario se apresenta ao serviço, são as personagens que brincam com o facto de ele ser um canalizador e de nunca haver um bom quando é preciso.

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Isto resulta tudo em português. Sim, porque Color Splash está totalmente localizado no nosso idioma, o que facilita a vida aos mais novos, mas também denota o esforço da Nintendo num título que dificilmente estará na tabela dos mais vendidos em Portugal este ano. Isso é com a Nintendo, com os jogadores está uma excelente localização, que consegue algo muito difícil: fazer com que o humor funcione. Algo que merece ainda mais destaque porque os trocadilhos raramente optam pelo caminho mais direto, ou seja, sente-se que não foi apenas uma tradução direta. E acreditem, é uma quantidade enorme de texto para trabalhar, uma empreitada que certamente terá demorado muito tempo até estar concluída.

Onde Paper Mario: Color Splash não recolherá pareceres tão unânimes é na sua jogabilidade. Há inimigos visíveis no ecrã, sendo a tarefa do jogador investir contra eles usando o seu martelo ou tentar passar sem ser detectado. Há ainda a possibilidade de serem surpreendidos, mas é algo que nunca chegou a ser um problema. E quando decidem batalhar, o sistema não é propriamente desafiante ou complexo, assentando em poucos pilares que são assimilados rapidamente.

Paper mario color splash

Na sua essência, o que nos é oferecido é um Role Playing Game por turnos. Temos uma seleção de Cartas de Combate da qual podemos retirar aquelas com que queremos atacar. Há cartas pintadas e cartas que precisam de ser coloridas pelo jogador. Depois de lançado o ataque, temos que pressionar o botão do GamePad com o timing oportuno para infligir mais dano. Mesmo nos cenários mais avançados, nunca tive grande dificuldade em derrotar os inimigos, nunca estive perto de ficar sem cartas a meio de um combate, nunca tive perto de ficar sem moedas para comprar mais cartas na loja.

Sejamos claros: Paper Mario: Color Splash não é nem quer ser um jogo difícil. As mecânicas estão lá para a eventualidade de ficarem sem cartas, por exemplo, sendo possível recorrer a uma Roleta de Combate onde a troco de algumas moedas ficamos com as cartas que nos calharem em sorte, porém, como já disse, duvido que seja uma mecânica a que muitos jogadores darão uso ao longo das suas aventuras.

Paper mario color splash

O baralho de cartas propriamente podia ser mais diversificado, algo que deveria estar associado à subida de nível da personagem. Não há propriamente experiência a ser ganha, com o jogo a recompensar a progressão do jogador aumentando, por exemplo, os Pontos de Vida e a quantidade de tinta que podemos armazenar, algo que para muitos será pouco. Esta tinta armazenada - amarelo, azul e vermelho - é também usada para irmos pintando os cenários, pois existem vários pontos bem visíveis com falta de cor, o que é mais uma fonte de moedas, cartas e tinta.

Mas se tudo falhar, durante a vossa aventura poderão entrar em torneios Pedra, Papel, Tesoura. As regras são as conhecidas, contudo, a ganhar 300, 500 e 1000 moedas por ronda, mesmo que tenham que pagar 100 moedas ao Toad para entrarem ilegalmente em mais uma ronda, é fácil perceber que rapidamente chegam aos milhares de moedas, facilitando a tarefa de atestar o baralho de cartas antes de cada cenário, sendo a maneira da produtora assegurar-se que ninguém fica impedido de continuar a aventura por falta de matéria de ataque.

Paper mario color splash

E por falar em cartas, além de martelos, martelos KO, chinelos mola, Piquinhos, saltos, saltos em linha, cogumelos, flores de fogo, permitam-me destacar as Cartas de Objeto. Seja uma ventoinha gigante, um extintor, um desentupidor, um limão ou ainda o meu preferido, o Gato da Sorte, não só o dano infligido é enorme, como está assegurado o espetáculo gráfico, os momentos maiores que a vida em que são quebras todas as barreiras do lógicos e vemos o jogo a enveredar ainda mais pelo non-sense, algo que adorna o humor já mencionado várias vezes ao longo deste texto.

Há algo de satisfatório em alimentar o nosso lado perfeccionista e deixar cada cenário completamente pintado e com as estrelas apanhadas. Não é um jogo curto, mas também não é um jogo em que se possam perder e explorar largas áreas. Os cenários são relativamente curtos, mesmo dungeons como a Torre Carmim, mas comungam praticamente todos de um grafismo que, possivelmente graças à paleta de cores escolhida, são um assalto visual bastante interessante. E o estilo em cartão ajuda a que a obra tenha um carisma próprio.

Paper mario color splash

Além disso, convém mencionar que são variados, portanto não pensem que estarão sempre a jogar a mesma área com diferentes nomes. Apesar de não ser necessário nesta altura, mas Color Splash prova novamente que mesmo com as suas limitações técnicas, a Wii U consegue ser palco de videojogos bastante interessantes analisados pelo ângulo do seu grafismo. E o mesmo pode ser dito sobre a sonoplastia, sendo uma obra com uma banda sonora memorável, mutando-se a favor de cada área, não sendo curta na hora de diversificar e de dar sentido à progressão por cenários diferentes.

Quem não é fã da série, não é Paper Mario: Color Splash que os vai converter. É verdade que as mecânicas não são profundas e que a evolução da personagem é ligeira. Contudo, se estão na disposição de uma obra feel good que oferece dezenas de horas sem o stress de estarem constantemente a estudar técnicas e a auditar o inventário, têm aqui uma boa oferta. E não se preocupem com o vosso inglês, pois um dos seus pontos mais fortes é a cuidada e eficaz localização para o nosso idioma. Lembrem-se apenas que quando parece bloqueado, há sempre a hipótese de usar a habilidade Recorte. E lembrem-se também que o Kamek, ou melhor, a sua habilidade para roubar ou baralhar as vossas cartas é tão irritante quanto a produtora quereria.