Tenho por hábito tornar a minha personagem numa pessoa altruísta, educada e respeitadora das leis e normas que regem a vida em sociedade, quando o videojogo em questão me permite agir desse modo. Porque mesmo abdicando de bens necessários para a minha sobrevivência, de arriscar a minha vida para salvar outra, ou até de tomar decisões difíceis que me deixem de consciência tranquila, sei que de uma forma ou de outra - na maioria das vezes - serei recompensado. Com novos itens ou, aquilo que procuro atingir, o final feliz pré-determinado pelos produtores.

Mas e se porventura me deparasse com um videojogo em que estivesse condenado a obedecer a um sistema governamental sem escrúpulos, que me vê como um simples objeto? Tomei decisões moralmente corretas, cumprindo sempre a lei. Estas ações levaram-me a um único destino: a cadeia. Fui ingénuo ao ponto de ficar sem dinheiro para pagar a renda do meu apartamento e, mais importante, deixei de conseguir sustentar a minha família que dependia inteiramente de mim. Tudo isto poderia ter sido evitado se tivesse aceite uns simples subornos. De uma forma geral, esta foi a minha primeira experiência com Papers, Please. Depois de várias tentativas e ter carimbado uma boa quantidade de passaportes vou contar-vos o que acho de Papers, Please.

Acabaram de receber uma boa notícia: foram admitidos pelo programa contra o desemprego do governo para trabalhar como funcionário aduaneiro, na fronteira que divide os dois países que acabaram de assinar um tratado de paz, Kolchia e Arstotzka. A vossa principal função passa por carimbar passaportes para admitir ou proibir cidadãos residentes em Astotzka e emigrantes dos países vizinhos. Não somos apenas um agente que dá ordem de restrição ou permissão de passagem para Arstotzka, somos uma pessoa que decide o destino de centenas de vidas que passam por lá. Poder passar para o outro lado da fronteira significa poder continuar a trabalhar, visitar um membro da família adoecido ou, em cenários ilegais, poder continuar o tráfico de drogas. A decisão final é vossa.

À medida que os dias vão passando, as regras e ordens para cumprir para as pessoas estarem certificadas para entrar em Arstotzka vão aumentando. Basicamente, a vossa função resume-se a estarem atentos na verificação de todos os pequenos detalhes dos documentos que vos são entregues, para no final darem a ordem de passagem, com um carimbo verde, ou da sua proibição com um carimbo vermelho.

Se acompanharam a análise até aqui sabem que fui demasiado inocente ao acreditar que ao respeitar rigorosamente a lei seria premiado com algum tipo de conteúdo. Porém não houve nada que me influenciasse a pensar deste modo, muito pelo contrário; os sinais estavam todos lá: trabalho para um país ficcional da Europa de Leste, em plena época da guerra fria, os confrontos entre as nações vizinhas acontecem diariamente e, como se ainda não chegasse, o desemprego é uma dura realidade para milhares de pessoas. Os criadores deste título independente esmeraram-se ao dar-nos elementos que pintam um país que nenhum turista se atreveria a visitar.

Algumas das pessoas aparecerão com documentos forjados ou expirados e, por vezes, vão apelar ao vosso lado mais benevolente para que vocês lhes concedam passagem. Outras vezes serão iludidos com promessas de favores sexuais por parte de senhoras que trabalham em casas de divertimento noturno, ou serão ainda subornados com algum dinheiro extra. É por isso, nomeadamente por este dinheiro a que têm acesso de forma ilegal, que têm de jogar bem com as duas oportunidades que têm para errar. E como diz o um velho ditado "à terceira é de vez", quando atingem três erros são cortados no vosso salário. E este é essencial para a vossa sobrevivência e dos vossos familiares.

A escolha do estilo artístico de Papers, Please foi uma excelente opção, com uma paleta de cores que sustenta ainda mais a atmosfera pesada e negra do jogo. No entanto, comparar o rosto das pessoas com as fotografias dos seus passaportes é por vezes complicado. Já no capítulo sonoro, podia fechar os olhos desde que inicio o jogo e saberia perfeitamente que me encontrava num qualquer país do Leste da Europa. Um trabalho irrepreensível neste departamento.

Papers, Please, tal como muitos outros videojogos independentes, encontrou um cantinho de diversão onde mais ninguém foi procurar. Não só o consegue numa situação aparentemente monótona - carimbar papelada não deve ser uma tarefa propriamente entusiasmante -, como também numa época de angústia social. Aconselho que deem uma hipótese a este título, por ser maduro e único na onda de jogos indie que têm chegado ao Steam.