Tal como Beyond Eyes, Perception é um videojogo com o coração no lugar certo. Ao dar a quem joga a oportunidade de vestir temporariamente a pele a uma protagonista invisual, a produtora The Deep End Games podia transmitir a sensação das barreiras a ultrapassar, sensibilizando para a vida a real, a vida que não passa num televisor.

Inserida no género de terror psicológico na primeira pessoa, a obra publicada pela Feardemic conta com a experiência de criadores que anteriormente tinha emprestado os seus dotes a séries como BioShock e Dead Space. Ou seja, podia estar criado o cenário ideal para que a experiência acumulada fosse colocada ao serviço de um conceito capaz da tal sensibilização, de nos proporcionar uma experiência enriquecedora num género que reina entre os mais populares.

Imagens Analise Perception

Infelizmente, como terão oportunidade de ler durante este texto, sem ser um desastre completo, Perception não consegue ter uma execução à altura do seu conceito. Em termos mais práticos, jogamos como Cassie, que tem a simples tarefa de explorar uma mansão em New England numa mescla de sonho e realidade, ou melhor, perseguindo sonhos que a levaram até aquele local. 

Onde o jogo consegue imprimir melhor este destaque a uma protagonista fora do cânone habitual é na sua independência, ou seja, na forma como prova que não tem medo de estar ali e de instigar contra o desconhecido. Sendo um videojogo dado ao fantástico, seria natural que uma pessoa com todos os sentidos ficasse pela porta. Cassie, mesmo sem conseguir ver, é um testemunho do incrível que os invisuais conseguem, não num videojogo, mas sim no quotidiano.

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O arco narrativo parece ser propositadamente ambíguo, com o próprio desenho da casa a ir-se mutando com o passar do tempo, o que acresce à desorientação que sentimos. Todavia, Perception começa a falhar na hora de dar vida à entidade que nos vai perseguindo, designada simplesmente por Presence. Há vários problemas com a inclusão desta entidade, que quase sempre me pareceu forçada.

Como não pode ver o que a rodeia, a protagonista usa uma bengala para bater no cenário, emitindo um som que, para o jogador, é complementado com ondas sonoras e visuais temporárias, ou seja, é um sistema de progressão feito à base da ecolocalização. Porém, é um sistema que em termos básicos de jogabilidade não resulta, uma vez que, não só me parece ser uma noção errada de como uma pessoa invisual se desloca, como acaba por cair rapidamente na repetição.

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E obviamente que isto está também relacionado com a forma como lidamos com a presença misteriosa que nos persegue, uma vez que a mesma reage ao som. Instaurar ações furtivas não seria um problema, mas a forma como tal é feito deixa a desejar - batam muitas vezes com a bengala porque estão à procura de se orientarem e são brindados com a Presence. O resto pouco difere dos restantes videojogos que usam um processo de perseguição: corram e escondam-se ou morram a tentar.  

E convém não esquecer que quando morrem, o sistema de checkpoints tem momentos demasiado castigadores, levando-me para o mesmo sítio da casa e fazendo-me por diversas vezes repetir um progresso que já tinha feito e que foi perdido sem eu ter grande culpa. Sim, porque a toda-poderosa Presence ocasionalmente dá uma hipótese muito escassa de fuga. Nos seus piores momentos, é um teste à paciência do jogador e um ponderar se vale mesmo a pena continuar.

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Apesar da bengala usada por Cassie ser o cerne da jogabilidade, a protagonista tem também à sua disposição um telemóvel que acaba por ser a sua ligação ao mundo exterior. É possível, por exemplo, tirar fotografias que posteriormente são descritas por um operador, ou usar o telefone para transformar texto em voz. Acho que isto não quebra necessariamente a independência de Cassie, sendo uma demonstração, novamente, de exemplos que podem ser usados na vida real.

Perception não é tenebrosamente assustador, mas sim uma proposta mais apostada na tensão em crescendo, o que me leva a escrever sobre os capítulos técnicos. Não são necessariamente os encontros com Presence que encerram o melhor da obra, mas sim a tensão de não perceber o que temos pela frente. O já mencionado sistema de ecolocalização emite vários sons consoante o material onde batem com a bengala, o que alicerçado em várias ocasiões pelo contraste com um silêncio sepulcral faz-nos olhar de esguelha para o ecrã.

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Graficamente, é uma obra mais desconfortável que encantadoramente bela ou detalhada. Dado tudo o que foi mencionado até aqui, é expectável que pensem correctamente que a grande parte dos cenários é negro. As ondas visuais lançadas pela bengala mostram uns laivos dos objetos que nos rodeiam, mas sem os detalhar com texturas que alguém com uma visão sã conseguiria ver. 

Reparem que é uma forma completamente diferente de mostrar o que uma pessoa invisual enfrenta quando comparado com o já citado Beyond Eyes, videojogo que mistura a aguarela com cenários em tons claros. Obviamente, a proposta da tiger & squid não se insere no mesmo género, mas acaba por ser um contraste interessante para analisar e tentar compreender. 

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No campo sonoro o destaque acaba por ser a vocalização de Cassie, trabalho assinado pela atriz Angela Morris, que participou, por exemplo, em Chicago Fire. Além da vocalização ser sólida, consegue, mesmo nos momentos mais complicados, não ilustrar uma rapariga frágil e encostada às cordas. Cassie é tenaz e destemida, disposta a lutar contra tudo e contra todos para descobrir o que afinal é aquela casa.

É pena que Perception não consiga capitalizar as melhores ideias que tinha. Usar uma mecânica tão frágil como principal processo na jogabilidade acaba por não deixar a experiência afirmar-se no seu todo. Mesmo com alguns momentos de tensão, a escrita do arco narrativo não tem a qualidade necessária que eleva jogos em que a exploração é rainha, como What Remains of Edith Finch

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Os criadores que estão dispostos a tentarem algo diferente merecem todo o meu respeito, mas é preciso que o videojogo como uma proposta de entretenimento não apresente fragilidades que vão corroendo a experiência como um todo. Testado numa PlayStation 4 Pro não tive problemas com a sua performance, mas ficou a sensação de um arranque original que não soube escapar à implementação de técnicas incontáveis vezes melhor aplicadas.