Progredindo com o passar dos anos de um estatuto de série de culto para uma popularidade mais condizente com a sua qualidade e capaz de rivalizar com algumas das mais aclamadas e históricas séries nipónicas do género, Persona é claramente um caso que merece ser cuidadosamente estudado. Explodiu, no bom sentido, no ocidente através do relançamento da, até à data, mais recente entrada da saga que começou como um spin-off de Shin Megami Tensei numa portátil que nunca amealhou semelhante popularidade e tendo aproveitado a chegada de vários spin-offs de Persona 4 ao mercado para cimentar um dos elencos de personagens mais memoráveis da indústria, a série da Atlus percorreu um estranho caminho até ao sucesso no lado oposto do globo.

Aliando-se esses capítulos adicionais da aventura da Investigation Team - Persona 4 Arena, Persona 4 Arena Ultimax e Persona 4 Dancing All Night - a uma longa espera pelo lançamento da próxima entrada numerada da série e o entusiasmo em redor da mesma foi crescendo paulatinamente junto daqueles que estão mais atentos ao que se passa na indústria. Entre o lançamento de Persona 4 na PlayStation 2 e Persona 5 na PlayStation 3 e PlayStation 4 passaram somente 8 anos - Persona 4 Golden foi lançado na PlayStation Vita em 2013 na Europa. Com muitos adiamentos pelo meio, ou não estivesse a dada altura o lançamento previsto para 2014, a espera foi longa e angustiante, mas como rapidamente se percebe após algumas horas com o título, valeu definitivamente a pena.

Persona 5 Analise Imagens

Colocando-nos novamente no ambiente escolar que sempre caracterizou e distinguiu estas obras, Persona 5 diferencia-se dos seus antecessores ao mesmo tempo que se afirma como uma amálgama de todas as mecânicas que, por um ou outro motivo, foram introduzidas e/ou abandonadas ao longo das suas várias iterações. Mas mais do que a introdução ou reintrodução de novos elementos na sua jogabilidade, é a forma como estes foram aprimorados e implementados para adensar uma experiência que nunca se celebrizou pela sua simplicidade que mais merece ser saudada. Tudo funciona na perfeição e ao serviço de uma jogabilidade que é de longe a melhor, mais diversificada e mais satisfatória que qualquer obra da série alguma vez apresentou.

Mas antes de virar atenções para as diferentes partes que compõem o todo que é a componente jogável do título, é primeiro preciso falar da sua componente narrativa, o elemento da série que mais decisivamente contribuiu para o seu sucesso. Ao contrário do que é habitual, desta vez os heróis não são os protótipos bons da fita apreciados por toda a gente. Auto-proclamados Phantom Thieves of Hearts, este grupo de jovens estudantes têm a sua quota parte de problemas e demónios interiores, muito embora não demore muito tempo até que o seu estatuto de heróis e boas intenções comecem a ser reveladas através da sua atividade no Metaverse.

Se em Persona 4 os protagonistas combatiam Shadows através de um mundo existente no interior da televisão, Persona 5 atualiza a tecnologia e leva-nos para a realidade alternativa dominada pelo desejos escondidos e de intenções menos puras que coabitam no subconsciente das pessoas - o Metaverse - através de uma aplicação de Smartphone. Com o objetivo de mudar os corações de adultos que se deixaram corromper por esses mesmos desejos, estes “ladrões” servem-se assim do seu poder de Persona para dar coragem aos que, como eles, foram maltratados pela sociedade, castigando e pondo termo às ações malvadas dos seus alvos.

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No passado, ficam igualmente os ambientes íntimos de pequenas localidades rurais, uma vez que agora somos transportados para uma versão fictícia de Tóquio e as próprias ações do grupo são alvo de atenção por parte das comunidades online e de cobertura em noticiários nacionais. Significa isto que tudo é maior neste título, ou seja, não só o mundo de jogo é mais expansivo, obrigando o próprio protagonista a deslocar-se constantemente através das linhas de comboio, como as ações do grupo têm um maior impacto, uma maior visibilidade e uma maior importância no mundo que os rodeia.

Infelizmente, essa maior grandiosidade implica igualmente uma perda do tom mais intimista de entradas anteriores da série. Isso verifica-se sobretudo no elenco principal de personagens que sofre de forma óbvia com o menor tempo de antena a que tem direito. Devido ao arco narrativo, Persona 5 vê-se forçado a dar mais destaque ao seu rol de antagonistas do que aos companheiros do protagonista, mesmo que todos eles estejam, de uma forma ou de outra, ligados aos alvos dos Phantom Thieves. Comparativamente ao seu antecessor, o novo jogo não dá tantas oportunidades ao seu elenco para brilhar, o que por consequência significa que a história não consegue ser tão memorável.

Contudo, isso não quer dizer que o título desiluda neste departamento, muito pelo contrário. Se o principal motivo pelo qual estão interessados neste RPG é a sua narrativa, então dificilmente não encontrarão aqui uma experiência bem à vossa medida. Sem medo de abordar temas mais sensíveis e de levantar questões pertinentes sobre a sociedade, ainda que nem sempre o faça da forma mais subtil e cuidadosa, esta é uma aventura que cativa rapidamente o jogador graças a um conceito original, um ambiente familiar, temáticas interessantes e um elenco diversificado de personalidades. Não é a melhor história contada nesta série, mas é uma história de enorme qualidade que nos mantém interessados durante as largas dezenas de horas de duração.

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Mas como já referi, é na componente jogável que Persona 5 mais revela ser um assinalável salto qualitativo relativamente ao que veio antes de si. Assente no tradicional combate por turnos da série, as novidades introduzidas e o regresso de algumas mecânicas tiveram o condão de entregar uma experiência que nunca se torna cansativa de jogar, premiando sempre o tempo que o jogador lhe dedica. Ataques corpo-a-corpo, habilidades dos elementos das diferentes Persona, itens, defender e as regressadas armas de fogo são as opções à vossa disposição em cada batalha e é à volta delas que todos os sistemas do jogo giram. Como é óbvio, podem igualmente controlar manualmente os restantes membros da vossa party para delinear estratégias e colher os seus benefícios, uma vez que cada Persona e Shadow tem diferentes resistências e fraquezas.

Graças à habilidade única do protagonista para suportar mais que uma Persona em simultâneo e às opções fornecidas por Igor - o homem da Velvet Room que é transversal a todas as entradas da série - para combinar diferentes Personas de forma a obter uma nova e mais poderosa ou sacrificar outra para fortalecer aquela que mais usam, cabe ao jogador delinear o seu arsenal para que possa, juntamente com as habilidades específicas de cada um dos seus companheiros, ter uma resposta à altura dos diferentes desafios que os inimigos lhe possam colocar pela frente. A preparação para o Metaverse passa igualmente por adquirir armas de ataque corpo-a-corpo, armas de fogo e melhor equipamento para melhorar a eficácia e os danos causados por estes tipos de ataques e a nossa capacidade de suster ataques inimigos.

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Como sempre, explorar as fraquezas inimigas é a chave do segredo e deixa-os momentaneamente inconscientes, dando-vos a oportunidade de realizar um segundo ataque consecutivo ou de utilizar a mecânica Baton Pass para permitir a um dos vossos companheiros realizar um ataque mais poderoso que o normal. Coloquem todos os inimigos inconscientes e poderão partir para o All-Out Attack com todos os membros da party ou então apostar no António Costa que há dentro de vocês e tentar negociar com as Shadows para retirar melhores frutos da batalha. Mais dinheiro, mais itens ou a obtenção do seu poder Persona, enfim, podem escolher aquilo de que mais necessitam, evitando dessa forma o arrastar da batalha. Ainda assim, é preciso escolherem bem o que dizer, já que as diferentes personalidades de cada inimigo implicam uma diferente abordagem.

Também no design das dungeons - ou Palaces, como são aqui denominados - nota-se uma maior diversificação, com cada um dos alvos dos Phantom Thieves a possuir o seu palácio personalizado, apresentando um maior foco na abordagem furtiva aos inimigos para realizar emboscadas e com algumas sequências de plataformas e puzzles que conferem uma maior identidade a cada um destes locais. As batalhas com os bosses estão também agora mais dinâmicas, uma vez que cada uma delas possui uma mecânica específica que as diferencia entre si. 

Juntamente com a adição da área Mementos, que permite aos Phantom Thieves responder a pedidos de menor dimensão e, em efeitos práticos, ganhar mais experiência para elevar o nível e fortalecer os protagonistas, nota-se um esforço por parte dos produtores para reduzir o grinding associado às obras anteriores, em que não raras vezes chegavam até a uma batalha com um boss apenas para chocarem contra uma parede intransponível. Isso não se verifica em Persona 5, com a progressão a ser natural e os picos de dificuldade a nunca apanharem os jogadores desprevenidos.

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Quando não estiverem a combater, estarão ocupados a viver a atarefada vida de estudante do secundário. Quer seja a trabalhar num emprego part-time para fortalecer a conta bancária, a melhorarem as vossas estatísticas sociais ou, mais provavelmente, a socializarem com o alargado elenco de personagens secundárias, a decisão de como passar o tempo neste jogo é muitas vezes mais exigente do que os confrontos para os quais os protagonistas se atiram de cabeça. Tudo tem benefícios, por isso não existem decisões erradas, contudo, fica a sempre a sensação de que não estamos a aproveitar ao máximo a nossa estadia neste mundo. A insistência de Morgana em mandar-nos para a cama sempre que visitam o Metaverse ou que têm um dia mais preenchido pela frente é, também, francamente irritante. Mas são estes momentos que tornam Persona diferente de todos os outros RPG’s. 

Decidir se vamos à sauna para aumentar o nosso charme de forma a podermos socializar com determinadas raparigas, se vamos estudar para aumentar o nosso conhecimento e obter melhores notas nos exames, se vamos produzir ferramentas para aumentar a nossa proficiência, comer um hambúrguer gigante para aumentar a coragem, se vamos socializar com Ann ou com Ryuji ou qualquer outro dos Confidants, enfim, as possibilidades são imensas e as recompensas variadas. Se a melhoria da relação pessoal com os Confidants nos fornece novas habilidades para utilizar no Metaverse, a melhoria das estatísticas pessoais é muitas indispensável para que novas relações com eles possam ser formadas.

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Como disse, não existe uma forma correta ou errada de jogar Persona 5, mas isso não significa que todas estas decisões sejam insignificantes. Na verdade, é precisamente o oposto, uma vez que são elas que tornam a aventura de cada jogador distinta e é através delas que cada um de nós retirará histórias diferentes do nosso tempo com o jogo. É uma pena que o título insista, umas vezes motivado pela narrativa, outra vezes por design, em retirar-nos durante alguns dias - sim, o jogo volta a ter lugar durante o calendário do ano letivo - esses momentos de escolha.

Se tudo isto não é suficiente para vos convencer da qualidade inegável e do quão especial Persona 5 é, adicionem-lhe também um estilo visual que transborda personalidade e ficarão com todos os condimentos de uma obra que tem poucos defeitos a apontar. Extremamente estilizado, basta olhar para os seus menus, para a sua interface de utilizador e para os gráficos, que transportam a estética claramente inspirada em anime para um mundo em três dimensões, para se perceber o carinho e a dedicação que foi colocada nesta obra. Nada é deixado ao acaso. Até o ecrã que nos informa dos pontos de experiência obtidos no final de cada batalha e o processo de fusão de Personas têm direitos às suas próprias cinemáticas.

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Ainda assim, apesar do estilo visual altamente apurado, nota-se, especialmente na modelagem das personagens, que Persona 5 é um título que começou a sua produção como um exclusivo PlayStation 3, com algumas texturas datadas que são disfarçadas pela sua distinta aparência. Como é habitual na série, o jogo conta igualmente com algumas cinemáticas em que adota por completo o estilo anime e que proporcionam momentos bastante interessantes. A banda sonora também não desilude, sendo facilmente reconhecível e fazendo um bom trabalho para estabelecer a atmosfera da obra e os seus diferentes momentos.

Dito isto, existe um elemento técnico do título que deixa claramente a desejar e é, porventura, um dos mais essenciais à experiência. Se utilizaram a Internet ao longo do último mês, provavelmente já estarão fartos de ouvir falar sobre a qualidade, ou falta dela, da localização em inglês deste jogo. Se relativamente aos desempenhos de voz não existem grandes queixas a fazer, relativamente à qualidade da tradução e da adaptação dos diálogos a história é outra. Não é horrível, mas é problemática o suficiente para vos levar a reler mais do que uma vez a mesma frase, para originar linhas de diálogo que são muito pouco naturais e que não passam o teste quando lidas em voz alta. Em alguns casos bastava alterar a ordem de uma ou duas palavras numa frase para que tudo fluísse melhor, infelizmente tal não é o caso. Não estraga a experiência, longe disso, mas é uma nódoa num jogo que merecia muito melhor, especialmente depois da excelente localização de Persona 4 Golden.

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Em suma, Persona 5 é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores Role-Playing Games, japoneses ou ocidentais, dos últimos anos e um título que corresponde às altas expectativas geradas pelo seu antecessor e pelo longo período de espera que Atlus obrigou os seus fãs a ultrapassar. Com um combate absolutamente imaculado, um estilo visual repleto de personalidade, vida e cor e uma componente narrativa à altura daquilo a que a série nos habituou, esta quinta entrada numerada é apenas prejudicada por uma localização que carece do cuidado e atenção ao detalhe que os produtores colocaram em todos os outros departamentos da obra.