Nota: Esta análise foca-se sobretudo sobretudo nos novos elementos de Persona 5 Royal face ao lançamento original de Persona 5, pelo que deve ser encarada como um complemento à análise original, disponível no final deste texto.

127 horas e 31 minutos. Foram estes os números que Persona 5 Royal me apresentou quando os créditos finalmente rolaram pelo ecrã. Números assustadores, especialmente para alguém que já tinha precisado de mais de uma centena de horas para terminar a obra original. Só se passaram três anos desde então, pelo que os eventos ainda estavam frescos na memória. Nesse sentido, um dos principais desafios desta nova edição do excelente RPG da Atlus passava por justificar a sua existência e apresentar-se como uma proposta irrecusável para quem já lhe tinha dado uma oportunidade no passado.

Os resultados não são totalmente convincentes. Não porque a obra tenha perdido valias em relação ao produto base - pelo contrário -, mas sim porque acaba por pedir ao jogador um esforço, monetário e de tempo disponível, que simplesmente não encontra correspondência com o real impacto das novidades que tem em oferta. A série Persona - e a Atlus no geral - não é virgem nestas andanças de relançamentos reforçados dos seus títulos, no entanto, esse novo sopro de vida é normalmente acompanhado pela estreia numa plataforma distinta e com uma distância temporal prolongada.

Tal não é caso com Persona 5 Royal. A nova edição da aventura dos Phantom Thieves está, pelo menos por enquanto, disponível em exclusivo na PlayStation 4, tal como o original, e três anos não é assim tanto tempo para que a memória comece a ficar frágil em relação a um jogo no qual se colocou um número gigantesco de horas. Ainda que a forma como a narrativa é construída implicasse sempre uma nova passagem por todo o conteúdo original para se chegar ao novo arco narrativo, isso não invalida que tenhamos de despender mais uma centena de horas para desfrutar de 15 a 20 horas de história adicional.

Claro que a qualidade excelsa de Persona 5 ajuda a mitigar o cansaço provocado pelo recalcar de terrenos já pisados, mas se o peso da duração da campanha já se fazia sentir quando ainda era tudo novidade, agora que estamos apenas a recordar o que já conhecemos, esse fator torna-se ainda mais notório. No fundo, serve tudo isto para explicar que Royal podia, e talvez devesse, ter sido comercializado como uma expansão e não como um novo jogo.

Dito isto, é pouco surpreendente afirmar-se que Persona 5 Royal é agora a versão definitiva do título protagonizado por Joker, Morgana e companhia, bem como uma experiência obrigatória para quem não jogou o lançamento original. Para além dos novos elementos narrativos, que são a razão pela qual muitos vão regressar a este mundo onde um grupo de adolescentes rouba corações de adultos corrompidos pelos seus desejos numa realidade alternativa que resulta da materialização da cognição da população, o relançamento afina também alguns componentes da sua jogabilidade.


Ao nível do combate, a produtora não mexeu muito naquele que foi o elemento em que mais se notou um salto qualitativo em relação a entradas anteriores da série. As batalhas por turnos continuam estratégicas - assentes na exploração das fraquezas e resistências dos inimigos e das Personas da nossa party - e com um boa sensação de ritmo, ou seja, nunca sentimos que se estão a prolongar em demasia, muito graças à velocidade com que podem ser concluídas, se exploradas todas as opções à nossa disposição, seja os Baton Pass ou o All-Out Attack.

Uma das diferenças mais importantes é o facto de as munições das armas de fogo recarregarem agora no final de cada batalha e não apenas em cada regresso ao Metaverse como acontecia no original. Essencialmente, isto significa que podemos fazer uma utilização mais liberal deste tipo de ataque, já que não temos de estar preocupados em preservar munições para o caso de surgirem inimigos vulneráveis a esta ofensiva. Outra adição são os Disaster Shadows, inimigos que apenas atacam, ainda que de forma devastadora, se forem atingidos, mas que se derrotados, quase sempre com recurso às suas fraquezas, provocam uma explosão que inflige danos consideráveis aos restantes inimigos.

Finalmente, há que mencionar os Showtime Attacks que, tal como o nome indica, são ataques visualmente espetaculares de combinação entre dois elementos dos Phantom Thieves - o de Makoto e Ryuji, por exemplo, é uma clara referência a Fist of the North Star. É o jogo que determina quando é que estes ataques podem ser utilizados, ficando geralmente disponíveis quando o protagonista está em perigo ou o adversário está prestes a ser derrotado. São mais uma adição importante ao espetáculo visual que é, de uma forma geral, a experiência de Persona 5.

O novo grappling hook de Joker, que é utilizado quase sempre para aceder a áreas opcionais nos palácios originais, mais concretamente para recolher as Will Seeds, também influencia o combate, uma vez que pode ser utilizado para fazer emboscadas a inimigos mais distantes e dessa forma fazê-los iniciar os confrontos afetados por várias condições negativas - medo, confusão, desespero, etc. Ainda assim, fica a sensação que este novo meio de acesso a novas áreas do cenário não é tão aproveitado como poderia ser.

No que diz respeito à componente de simulação de vida social, a Atlus mostra ter ouvido as queixas dos fãs e removeu as restrições impostas por Morgana na campanha original, permitindo agora que possamos rentabilizar mais tempo noturno para trabalhar nas características sociais que serão depois necessárias para evoluir as relações com os vários Confidants do título. Isto significa que é agora mais acessível conseguir maximizar todas as relações e características sociais na primeira passagem pela história, ou seja, há uma menor sensação de que podíamos estar a utilizar melhor o tempo à disposição.

Royal vem também equipado com uma nova área de exploração, com Kichijoji a juntar-se a Akihabara e Shibuya. Neste espaço, para além de uma loja bastante útil que permite vender equipamento “sujo” por maquias interessantes, há novos espaços de socialização como o Jazz Club e o um bar onde se pode jogar bilhar e dardos. Como todas as outras atividades facultativas em Persona 5, estas opções não são apenas distrações, tendo também um impacto nas nossas visitas ao Metaverse.

O Jazz Club fortalece as Personas do amigo que convidarmos e pode até oferecer habilidades únicas, enquanto os Dardos melhoram a nossa proficiência, a relação com o parceiro de equipa e o nível de poder do Baton Pass. Já o bilhar fortalece os ataques técnicos, isto é, os ataques que visam aproveitar uma condição negativa a afetar o inimigo. Kichijoji tem também um templo onde podem pedir desejos, com o benefício de sair mais barato do que as leituras de cartas de tarot da vidente.

Contudo, como já foi referido, é pelo novo conteúdo narrativo que Royal se torna uma proposta mais apelativa. Ao nível da campanha original, as novidades estão circunscritas a cenas com os novos Confidants - Maruki, Yoshizawa e Akechi. Sim, Akechi não é uma personagem nova, mas a evolução da sua relação com o protagonista acontece agora através dos eventos sociais, não estando restrita a momentos narrativos como acontecia originalmente. É uma opção interessante, até pela legião de fãs que Akechi conquistou, mas também retira algum do fator surpresa ao seu papel na história.

Por sua vez, o psicólogo Maruki, recrutado pela escola para ajudar os estudantes a lidar com o trauma dos eventos com Kamoshida, o primeiro antagonista da obra, e Yoshizawa, uma ginasta de competição, não estavam presentes em Persona 5, mas rapidamente conquistam o jogador. O afável psicólogo é quem está mais envolvido durante os eventos originais e destaca-se precisamente pela sua simpatia, bem como a forma como conversa abertamente com os estudantes.

A ginasta é o centro das atenções da história adicional que decorre após a conclusão da narrativa principal, mas já antes disso proporciona momentos interessantes com o protagonista. Ainda assim, é só após o Ano Novo que o novelo da sua história é desenrolado e traz consigo revelações inesperadas e, talvez mais importante que isso, considerações importantes sobre a forma como escolhemos lidar com o trauma, fugindo dele ou utilizando-o para crescermos enquanto pessoas e nos superarmos.

Esse é o tema transversal à nova história, cuja premissa assenta no aceitar, ou não, de uma realidade que remove a dor provocada por esses momentos, reescrevendo até o passado através da manipulação da cognição. Ainda que o título não faça um grande trabalho para vender a validade desta opção alternativa, Persona 5 Royal consegue, com este breve arco narrativo, algo que a campanha principal nunca conseguiu, isto é, ter um antagonista com o qual conseguimos empatizar, ao contrário dos vilões extremados e unidimensionais da história original.

Mais uma vez, é uma adição interessante ao arco narrativo global de Persona 5, mas que implica um esforço considerável para lá se chegar. Para referência, precisei de 110 horas para terminar a campanha original, o que significa que já estava exausto quando iniciei o novo capítulo, o que não fez nenhum favor à minha capacidade para o desfrutar. O palácio final também é consideravelmente extenso, o que só agravou a situação. Mesmo assim, a narrativa vale a pena e é recomendada para quem gostou do original.

De resto, importa referir que, mesmo já com alguns anos volvidos, o departamento técnico do RPG da Atlus continua a impressionar pela positiva. O estilo visual exuda confiança e torna a experiência esteticamente rica em todo e qualquer momento, não importa o quão banal ou inconsequente possa parecer, a atenção ao detalhe é notável. A banda sonora permanece imaculada, com temas como Last Surprise, Life Will Change e Rivers in the Desert a estarem ainda bem presentes na memória, contribuindo também para o tom geral da obra.

Persona 5 Royal pode então ser encarado como uma versão expandida e melhorada de um dos melhores RPG nipónicos dos últimos anos. O novo conteúdo narrativo é bastante interessante, mas não conseguirá evitar o cansaço inerente à longa duração da campanha original para aqueles que a jogaram aquando da sua estreia no mercado. Para quem ainda não experienciou o expoente máximo da série que começou como um spin-off de Shin Megami Tensei, então a recomendação é mais do que óbvia e quase obrigatória. 

Persona 5 - Análise 

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