É prática comum misturar diferentes conceitos, mecânicas ou estilos já consagrados para obter uma experiência fresca mesmo com um tom familiar para não alienar jogadores da obra final. Temos, como excelente exemplo, Street Fighter X Tekken. As personagens da Bandai Namco Games submeteram-se às regras de Street Fighter IV, não só para alargar o já generoso elenco, como para dar a conhecer o mundo Tekken aos fãs acérrimos do título da Capcom.

Neste caso concreto, em Persona Q: Shadow of the Labyrinth, dá-se uma fusão de séries entre duas criações da mesma editora, a Atlus. Depois de passar algumas horas com o jogo que me apercebo, que não só faz sentido, como a implementação ligeira de ideias de Etrian Odyssey na exploração de masmorras funciona e enquadra-se perfeitamente no género RPG com combates por turnos - aliás, já experimentada na série mãe de Persona, Shin Megami Tensei.

O começo do jogo começa com uma simples questão: escolham entre o protagonista de Persona 3 ou de Persona 4. Na prática, escolham entre a Specialized Extracurricular Execution Squad de Persona 3 ou a Investigation Team de Persona 4. O que esta escolha vai determinar é o motivo pelo qual querem progredir até à resolução do mistério principal, visto que pouco depois ambos os grupos se vão encruzilhar. Esse mistério a desvendar, o motor narrativo de Persona Q, coloca os jogadores a perguntar-se o porquê de estarem confinados à escola de Yasogami High, durante um festival cultural, de forma inexplicável.

A trama está pejada do humor próprio das personagens e dos seus caracteres únicos perante todos os diálogos. No entanto, senti algum atrito no meio das conversas. Fiquei com a sensação de que seria necessário um pequeno apanhado de ambas as séries para ter uma melhor noção das várias relações que se vão desenvolvendo. Mas visto que esta intriga caminha por um sentido ligeiramente diferente - saber como e porquê que o grupo de estudantes foi ali parar - não me senti muito perdido.

O combate continua como um dos aspetos mais bem lapidados da linha de títulos JRPG vindos da Atlus. Persona Q não foge à regra e respeita a herança que leva consigo. À medida que progridem pelos labirintos, têm um pequeno sensor que na parte inferior do ecrã vos indica a probabilidade de virem a enfrentar um grupo de monstros no próximo passo que derem. E uma vez no cenário de batalha, não vos faltam opções para saírem vitoriosos destes encontros. A preparação é essencial; estejam equipados com os itens básicos para repor vitalidade às personagens e tudo correrá tudo sem problemas.

Por isso, convém que a preparação seja realizada ainda dentro das paredes da escola, antes de se aventurarem no labirinto propriamente dito. Os despojos de cada batalha e os itens que encontram em tesouros ou em outros locais são recolhidos para que possam colocar à vossa disposição novas armas, equipamentos e acessórios para aumentarem as estatísticas da vossa força, magia ou defesa, só param dar alguns exemplos.

Também poderão, se tiverem sorte, apanhar também cartas que representam Personas. Fiquem com um e melhorem-no ao subirem de nível após travar mais lutas com Shadows (a denominação correta dos monstros). Ou então troquem por outros Persona mais fortes, façam fusões entre duas ou três cartas para obterem Personas com poderes únicos que serão o vosso braço direito nas batalhas. A liberdade de escolha é notável.

Um dos aspetos fulcrais de um RPG dungeon crawler é, sem sombra de dúvida, a exploração das diferentes masmorras que o título em questão nos propõe. Persona Q: Shadow of the Labyrinth, com raízes em séries veteranas neste género, não deixa a exploração de lado e dá ferramentas úteis para que os jogadores se sintam envolvidos no progresso dos labirintos. Com o painel inferior da Nintendo 3DS a servir de espaço para marcar e apontar todos os detalhes do mapa; desde aos seus limites até às passagens secretas, tesouros e escadarias. Senti que fiz parte do jogo durante toda a aventura e não só quando avançava na narrativa ou quando derrotava um boss bastante complicado.

E é precisamente na exploração que entra o cunho Etrian Odyssey. Em vez de explorarem calabouços livremente na terceira pessoa, ficam cingidos a uma deslocação ao longo de uma grelha, ou seja, movimentam-se uma quadrícula de cada vez na horizontal ou vertical, nunca na diagonal; e com uma câmara na primeira pessoa. O que permite dar aqui o toque da série da Atlus, que acabei de referir, com a introdução de inimigos intitulados de FOE - monstros visíveis de grandes dimensões.

Desta feita, terão de acertar os vossos com os destes monstros especiais, para assim ter a abertura do caminho que tanto necessitam para seguirem a vossa vida. Mas caso tenham o azar de se cruzar com estes FOE preparem-se para uma longa e árdua batalha, ou avaliem bem o estado do vosso grupo e se necessário fujam da batalha. E mesmo na dificuldade mais fácil, estes inimigos são duros de roer.

Graficamente, Persona Q é dos títulos que faz melhor uso do hardware. A Atlus criou uma obra colorida, com masmorras que não são um tédio para os nossos olhos - como já o vi em alguns títulos deste género que colam um papel de parede em todo o labirinto que percorrem. As animações estão muito bem conseguidas, nomeadamente nos combates cheios de efeitos dignos de um espetáculo de pirotecnia.

Porém, no campo técnico, a sonoplastia é o elemento que merece mais destaque, principalmente no trabalho efetuado na banda sonora. Cheguei ao ponto de parar durante as batalhas, sem mexer na consola, só para apreciar as faixas clássicas de Pop Rock remixed da série Persona. Mesmo sem estar nestas ocasiões mais frenéticas que ditam o ritmo de um confronto por turnos, nas sequências de vídeo, onde as emoções eram opostas No calor da batalha, a música respondia no mesmo tom, na perfeição.

Sem exageros, este é um título que vos poderá consumir facilmente mais de 60 horas - o que não é muito comparado com a longevidade de Persona 4. Porém, todos os minutos passados na companhia do elenco de estudantes nunca transmite aborrecimento, principalmente quando somos uma parte ativa do jogo para desenhar o mapa dos dungeons que visitamos. É claro que existem alguns momentos de frustração quando o combate é impiedoso com os nossos mínimos.

Mas não deixa de ser imperativo que temos aqui um casamento celestial entre vários elementos das propriedades da Atlus, que farão certamente as delícias dos fãs, mesmo que num hardware que acomoda pela primeira vez um título da série spin-off de Shin Megami Tensei. A Nintendo 3DS está a tornar-se no local preferido dos produtores para desenvolver bons jogos JRPG e, como consequência, para os jogadores desfrutarem amplamente deles.