O futebol atrai multidões. O futebol é uma paixão que leva um agregado de indivíduos dedicados a entoar cânticos em voz alta, recorrendo a todo o oxigénio que o seus pulmões são capazes de armazenar. Muito mais que um desporto, uma bola, duas balizas ou onze jogadores de cada lado, o futebol é para muitos o elemento ao qual as suas melhores memórias estão intrinsecamente associadas e a fonte das maiores explosões de alegria alguma vez experienciadas.

Assistir ao jogo do nosso clube do coração, seja no estádio ou através da televisão ou rádio, envolve, para os mais supersticiosos, todo um ritual de preparação para que, desde a hora marcada para o apito inicial até ao final da partida, o jogo e o adepto constituam um só ecossistema sem quaisquer distrações supérfluas e que termine, como todos esperam, com mais uma vitória para a nossa equipa predileta.

PES 2015, a entrada que marca a estreia da série da Konami na nova geração de consolas, sabe perfeitamente qual é o seu público-alvo. Desde o primeiro encontro até ao último, o foco de toda a atenção é sempre a ação dentro das quatro linhas, não havendo espaço para pequenos extras que possam perturbar o foco do jogador em relação ao que interessa verdadeiramente: vencer. Pode parecer redundante, mas marcar mais golos que o adversário e vencer são maneiras completamente distintas de encarar uma partida de futebol. Esta obra favorece claramente a segunda abordagem.

Ao contrário da série com a qual rivaliza todos os anos, o novo título da casa nipónica proporciona uma experiência futebolística fluída e atrativa, mas que foge ao lado mais espetacular e fantasioso, ou artístico, do desporto e que tantas vezes leva os treinadores, inclusive os de bancada, à loucura. Isto traduz-se, em termos simples, em partidas com uma menor afluência de golos do que alguns desejariam.

No entanto, a maior dificuldade que a obra pede ao jogador para superar faz com que, quando finalmente fizerem balançar as redes adversárias, exista um sentimento genuíno de prazer e satisfação constantemente associado ao ato de marcar um golo. Algo como "apenas mais um golo" não existe em PES 2015, pois as defesas contrárias obrigam-nos a trabalhar conveniente a jogada para que depois, e apenas se o último passe sair na medida exata, possam ir festejar com os adeptos junto à bancada.

Para alcançar o sucesso é preciso saber explorar os elos fracos do conjunto oponente e aliá-los às mais poderosas armas que temos à nossa disposição, sejam essas a qualidade de passe dos nossos médios, o jogo aéreo do ponta-de-lança ou a velocidade dos extremos. A posse de bola tem igualmente de ser mais trabalhada do que em FIFA, uma vez que o mínimo descuido ou relaxamento pode provocar a oferta da bola de bandeja ao adversário. Felizmente, recuperá-la novamente não é uma tarefa hercúlea, como na série rival, e isso significa que a luta pela posse de bola é intensa do principio ao fim.

Se dentro do retângulo de jogo a ação é aprimorada e incrivelmente satisfatória, fora dele a experiência oferecida pelo mais recente esforço da Konami em regressar ao trono do género de simulação de futebol apresenta-se ainda um pouco sôfrega. É aqui que PES 2015 perde o comboio em que segue a série da Electronic Arts. A jogabilidade pode ser fantástica, mas sem conteúdo suficientemente apelativo e variado para a suportar, torna-se apenas um escape para uma jogatana entre amigos e não como uma paragem obrigatória durante meses a fio para o jogador.

Começando desde logo pelo mais óbvio, a falta de licenças continua a ser um problema gritante que quebra significativamente a imersão na experiência. É espetacular entrar em campo e ouvir o hino oficial da Liga dos Campeões antes do apito inicial, mas toda essa magia é rapidamente atirada porta fora quando a defrontar o Real Madrid temos a poderosíssima equipa London F.C. (leia-se Chelsea FC). Mas não é só o nome que incomoda o subconsciente do jogador durante a partida, os equipamentos genéricos não ajudam a vender a ideia que estamos a recriar uma partida que pode perfeitamente ser uma final da mais importante competição de clubes da Europa.

Para além disso, os poucos modos de jogo disponíveis estão longe de oferecer a profundidade necessária para manter os jogadores investidos durante um período mais longo que o habitual. Regressados da época anterior estão as Divisões Online, o Rumo ao Estrelato e a tradicional Liga Master, que já acompanha a série desde os seus tempos na PlayStation 2, sendo que as novidades relativas a esta última são mínimas.

Ainda assim, PES 2015 introduz nas suas fileiras um novo modo de jogo denominado MyClub. Neste, os jogadores serão colocados ao leme de uma equipa à sua escolha, ou criada por si, e terão uma palavra a dizer em todos os departamentos do clube. Começando com vários jogadores de qualidade duvidosa, somos instigados a realizar partidas com as quais seremos depois premiados com moedas. Por sua vez, estas moedas serão gastas em agentes, de qualidade variável, que nos darão acesso, ainda que totalmente aleatório, a um atleta de um leque de jogadores que assinará pela nossa equipa.

Semelhanças com o aclamado modo FIFA Ultimate Team são por demais evidentes, mas a primeira iteração de MyClub tem um longo caminho a percorrer para oferecer a mesma profundidade e complexidade do modo em que se inspira. É importante realçar, no entanto, que a implementação de um novo modo de jogo na série revela o compromisso da produtora em continuar a inovar uma propriedade intelectual que há muito estava estagnada.

Uma vez que estamos perante a estreia de PES na nova geração, o departamento gráfico recebeu uma enorme atenção por parte dos produtores na incessante procura de provar o verdadeiro poderio das novas consolas. Esse trabalho é visível na aparência dos nomes mais populares do desporto, bem como nas animações associadas aos seus festejos icónicos. Claro que nem todos os jogadores mereceram a mesma dedicação e, por enquanto, Herrera terá de contentar-se com o cabelo loiro platinado da sua versão digital. A maneira como os equipamentos reagem ao movimento natural dos atletas é também assinalável.

No que à banda sonora diz respeito, a Konami optou acompanhar a sua obra com alguns dos artistas e músicas mais badalados da atualidade, uma escolha sensata já que a grande maioria dos jogadores estará familiarizado com muitas delas. Bandas como Imagine Dragons e Linkin Park são exemplos disso mesmo.

Ao contrário de FIFA 15, a nova entrada da série com origens japonesas está localizada totalmente em português, inclusivamente os comentários durante o jogo. Com relato de Pedro Sousa (TVI) e comentários de Luís Freitas Lobo (SportTV), o jogador terá de sofrer com comentários descontextualizados e com inexplicáveis picos de entusiasmo na voz da dupla de comentadores que não trazem nada de positivo à experiência. A intenção é boa, mas a execução e a entrega deixam muito a desejar.

PES 2015 é um bom jogo de simulação de futebol que brilha dentro das quatro linhas, com uma jogabilidade fluída e em que marcar um golo apresenta-se sempre como um momento verdadeiramente especial, mas que continua deficitário nos parâmetros externos à jogabilidade. Os modos de jogo são poucos e simples, mesmo com a introdução do interessante MyClub, e a falta de licenças continuam a ser um problema óbvio para a produtora nipónica e que impede a série de brilhar mais alto.