A Capcom não quer angariar um único novo jogador para a série e é por isso que Phoenix Wright: Ace Attorney - Dual Destinies é um novo capítulo que fará as delícias dos já existentes. Pode parecer uma vontade egoísta e suicidária economicamente por parte da produtora, contudo, os jogo "Ace Attorney" possuem uma identidade e um carisma próprio. Se o molde fosse quebrado, o mais provável é que os veteranos virassem as costas a um jogo que dificilmente entraria na lista dos mais desejados do ano por quem nunca exerceu este direito virtual de ir a tribunal.

A estrela da série, Phoenix Wright, regressa ao ativo para cinco novos casos que decorrem um ano após os acontecimentos do último jogo e atiram a longevidade do jogo para cima da marca das duas dezenas. O argumento do jogo assume os mesmos contornos de um "guilty pleasure" televisivo. Por muito que tivesse noção que não estava perante nada assinalável, a curiosidade sobre os desígnios de Wright e de Athena Cykes, a estudante de psicologia que é introduzida na série pela mão de Dual Destinies, fizeram-me regressar ao jogo mais vezes que a racionalidade quer admitir. Como o propósito de cada videojogo é ser jogado, este exclusivo Nintendo 3DS conseguiu-o.

Quando a história falha na sua tarefa de se manter relevante, os casos continuam a ser a grande força motora do jogo. Continuando com o que é apanágio da série, a sua originalidade não é o único motivo que os torna irresistíveis. Os casos que vão a tribunal quase nunca são o que parece e com o seu desnovelar começamos a ser levados por um caminho que poucos adivinharão. Como o cão de Pavlov, depois dos dois primeiros casos oferecerem este tipo de surpresas, é natural que o jogador, tal como eu, comece a antecipar que reviravoltas insanas os próximos casos terão e na mente de cada um começa a surgir a pergunta: qual é a maior distância que cada situação percorrerá entre o seu início e término? A resposta, invariavelmente, surpreende as mentes mais coloridas.

Ainda assim, alguns casos são mais conseguidos que outros. O jogo nem sempre consegue resolver todas as pontas soltas que vai levantando, deixando o jogador sedento por algumas respostas que nunca chegam. Conforme já disse, não é a longevidade que está em causa, mas sim uma linearidade que podia e devia ter sido combatida. O mesmo se aplica à sua jogabilidade. Mesmo compreendendo e respeitando os cânones da série, Dual Destinies devia incluir mais o jogador em algumas decisões, obrigando-o a trabalhar mais arduamente - entenda-se, jogar em vez de pressionar um botão - para que, quando finalmente o caso chegasse ao fim, ficasse com a sensação que o resultado obtido só foi possível graças à sua destreza e intervenção.

Quando temos oportunidade de o jogar, Dual Destinies coloca as suas mecânicas em dois sacos que se complementam. Primeiro têm que recolher provas nos locais do crime ou prestando atenção às conversas que vos rodeiam, o que resulta em sessões de investigação e escrutínio bastante interessantes. Posteriormente, usam toda esta preparação em tribunal, sempre com o intuito de encostar as testemunhas à parede, usando a defesa para as apanhar a mentir ou a falar de temas que vocês, graças à vossa preparação, percebem melhor. Pessoalmente, acho que esta fórmula resulta tão bem neste jogo como no resto da série porque dá ao jogador a sensação de ser inteligentemente superior ao jogo. Por diversas vezes, tive aquele "Eureka" em que começava a adivinhar onde poderia encalacrar a pessoa que tinha à minha frente.

Como os objetos com que podemos interagir são agora destacados, a investigação é muito mais fluida e, consequentemente, aprazível. Muitos poderão alegar que o jogo está mais fácil, o que é válido, sobretudo se tivermos em conta que, se não conseguirem resolver o caso e forem incapazes de identificar onde estão as incongruências, o jogo é generoso ao ponto de vos indicar quais são as declarações suspeitas. Sinceramente, não encaro isto como um revés na dificuldade ou na diversão do jogo. Reparem, quem for bom - sejam veteranos ou um novo jogador talentoso - resolverá o caso sem que as ajudas apareçam, relegando-as para quem verdadeiramente precisa de uma indicação no caminho certo.

Já tive oportunidade de mencionar que o jogo não mudava as intenções da série, porém, falemos da sua maior novidade: Athena Cykes. Ou melhor, a mecânica que a sua personagem apresenta. A jovem de 18 anos é capaz de ler as emoções das pessoas, o que, obviamente, é um forte trunfo quando se está em tribunal. Quando as provas não são suficientes, Cykes recorre à ajuda informática fornecida pelo seu computador Mood Matrix. Esta funcionalidade não só funciona como uma pequena lufada de ar fresco, como reafirma a insanidade já notificada neste texto, eliminando qualquer dúvida que houvesse nas suas intenções de mimicar digitalmente o que acontece nos tribunais reais. Se chegaram até este parágrafo com medo de dar uma hipótese à série devido ao tema que aborda e do qual se alimenta, como podem facilmente constatar dando uma oportunidade à demonstração que está na eShop, esse receio não tem qualquer fundamento. Infelizmente, não podem recorrer ao Mood Matrix sempre que desejarem, pois a sua utilização é restringida pela vontade do jogo.

Tecnicamente, Dual Destinies é o jogo mais conseguido da série. A Nintendo 3DS oferece cenas de vídeo inspiradas que conduzem bem a narrativa do jogo, assim como cenários e animações das personagens muito bem conseguidas. É sabido que a portátil não é uma força técnica, porém, o seu poderio chega para dar uma apresentação muito interessante ao jogo. O som também está à altura, com alguns apontamentos a darem uma carga exageradamente dramática à ação.

Infelizmente, o jogo continua a depender muito das caixas de texto e pouco da vocalização das personagens. E por falar em caixas de texto, importa mencionar que o jogo disponibiliza a opção de consultar tudo o que foi dito - ou melhor, escrito - se algum pormenor vos tiver escapado. Uma última palavra para o efeito 3D, que funciona muito bem, dando uma profundidade interessante às animações e aos vídeos em estilo anime.

Phoenix Wright: Ace Attorney - Dual Destinies é uma entrada bem conseguida na série. Os fãs dos jogos anteriores vão sentir-se em casa, ainda que a sua falta de profundidade ofereça alguns momentos mais ocos e uma vontade própria de partirmos na nossa própria investigação, perseguindo algumas respostas que o jogo não tem arcaboiço para dar. Os casos continuam a ser uma caixa de pandora, oferecendo situações e desfechos mirabolantes e imprevisíveis, não deixando nenhuma dúvida sobre a sua linhagem. Se ficaram com vontade ir à loja mais próxima comprar o jogo, não o façam: Dual Destinies só está à venda na eShop da Nintendo 3DS pelo preço de 24,99€.