A Nintendo sofre da síndrome de Hitchcock, que afirmava o seguinte: se eu filmasse a Cinderela, toda a gente ia procurar o corpo na carruagem. A cada título lançado pela casa de Quioto, toda a gente procura se é ele o salvador da situação em que está a Nintendo Wii U. Pikmin 3 nem sequer é a exceção que confirma a regra, o jogo dirigido por Shigefumi Hino e Yuki Kando é que faz parte da regra. Com o dia do seu lançamento a aproximar-se a passos largos - o jogo chegará ao mercado europeu no próximo dia 26 de julho - parece que uma enorme falange de jogadores e de analistas de mercado está mais preocupada com o significado das suas vendas do que propriamente com a qualidade do jogo. Pertencer a uma linhagem de sucesso nunca foi - nem nunca será - só por si sinónimo de qualidade, portanto, empreendemos um pouco mais de uma dezena de horas a perceber o verdadeiro valor que Pikmin 3 tem enquanto videojogo, nunca como conjetura económica.

É perfeitamente compreensível que todos os que adoraram os primeiros dois jogos estejam entusiasmados com o regresso da série após um hiato de praticamente dez anos, se não contarmos as adaptações dos originais GameCube à Nintendo Wii. A principal novidade que salta imediatamente à vista é a divisão da narrativa por três protagonistas: Charlie, Alph e Britanny. Chegados do planeta Koppai, o trio de protagonistas é incutido de encontrar comida no planeta PNF-404 e levá-la de volta para a sua casa, resolvendo assim uma crise que está instalada. Além de ter alimento em abundância, o planeta PNF-404 é também a casa dos Pikmin e, como provavelmente já terão adivinhado, estas criaturas assumem um papel preponderante na concretização das tarefas e na progressão da história. Contudo, o trio é separado nos primeiros minutos do argumento, ou seja, antes de começarem a procurar alimento terão que reunir a equipa, o momento perfeito para o jogo dar a conhecer as suas novas mecânicas e nuances introduzidas à sua jogabilidade.

Não contem que a história sirva para os argumentistas rechearem uma prateleira do seu escritório com prémios, porém, terem recorrido a três personagens dá os seus frutos. As personagens não são unidimensionais, têm feitios próprios, o que ajuda a rechear a narrativa com várias camadas. A Nintendo está ciente que dez anos de interregno numa série é uma eternidade, portanto, com alguma astúcia percebeu que Pikmin 3 seria o jogo de entrada na série para inúmeros jogadores, o que resultou não só num tutorial bastante bem conseguido, praticamente apresentando o jogador aos básicos da "experiência Pikmin" sem que ele se aperceba, mas também numa curva de aprendizagem gentil, praticamente sem nenhum soluço assinalável.

Qualquer jogador que não passar os primeiros minutos do jogo a assobiar para o lado, não terá qualquer dificuldade em lidar com a grande novidade que Pikmin 3 introduz na jogabilidade da série: controlar o trio de personagens em simultâneo, dividindo entre si as mecânicas e multiplicando pelos três os processos de gestão de cada um dos tipos de Pikmin que vos acompanham. Apesar de não ser complicado, o GamePad nem sempre corresponde da melhor maneira a tudo o que lhe é pedido, por exemplo no sistema "lock on". Não provoca uma mossa demasiado profunda na experiência que o jogo oferece como um todo. Sim, é verdade que podem escolher um mapeamento de controlos para Wii Remote e Nunchuck, porém, primeiro têm que ter estes acessórios por perto e ao fazê-lo perderão acesso ao mapa que é disponibilizado no ecrã do GamePad. Convém ainda mencionar que além do mapa, o GamePad deixa ver onde é que cada uma das três personagens está no mapa e graças a uma funcionalidade intitulada "Go Here", o jogador pode enviar uma personagem cumprir um determinado objetivo enquanto assume o controlo de outra, o que dinamiza bastante a jogabilidade. O que atribuem a cada personagem e ao seu grupo de Pikmin é com vocês e com o vosso sentido estratégico.

Pikmin 3 não pode ser acusado de ser apenas mais um jogo na série. A década que demorou à Nintendo a produção deste jogo resulta em algumas mecânicas e novidades descritas até aqui, todavia, esta análise não pretende ser uma cópia digital daquilo que podem facilmente consultar na contracapa do jogo. Pikmin 3 é um excelente jogo por aquilo que me provocou: com um comando do século XXI, com uma televisão de alta definição e com acessórios cuja existência era uma miragem há quinze anos, foi precisamente para aí que o jogo me transportou: para as tardes quentes de um verão que passavam entre as obrigações escolares. O universo de Pikmin fez-me explorar todos os cantos dos cenários à procura de novidades que pensava ser o único a descobrir, fez-me, sobretudo, ter vontade de contar aos meus amigos "sobre aquele jogo novo que ninguém ainda tinha ouvido falar". Pikmin 3 chegou em 2013 com a mística de 1990.

Sim, o jogo nunca chega a oferecer uma dificuldade digna desse nome, porém, Pikmin não tem que ser um jogo difícil, não tem que ser um jogo complexo recorrendo a mil e uma fórmulas cansadas por outros jogos no mercado: Pikmin 3 tinha que oferecer algo novo para agradar aos fãs veteranos e para fidelizar aqueles que só agora vão colocar o primeiro disco do jogo na consola e é precisamente isso que fez. Pelo caminho oferece aos jogadores dois novos tipos de Pikmin: uma de pedra que permite estilhaçar, por exemplo, obstáculos de vidro e outro com asas que, obviamente, tem no voo a sua grande especialidade - pequenos ajustes numa fórmula vencedora.

Como complemento à história principal, Pikmin 3 oferece ainda a possibilidade de experimentarem cooperativamente com outro amigo que esteja ao vosso lado algumas missões com um tempo limite reduzido. Contudo, é a através do modo "Bingo Battle" que vão gastar mais tempo fora do arco narrativo. Já tinha experimentado este modo nos escritórios da Nintendo Portugal, vê-lo no menu principal do jogo, foi como rever um velho amigo. Localmente, dois jogadores tentam preencher um cartão de bingo que é composto por vários frutos e objetos. Não só cada um tenta preencher o seu cartão o mais rápido possível, como podem ainda tentar estragar o jogo ao vosso adversário. Infelizmente, como já devem ter percebido pelo uso da palavra "localmente", Pikmin 3 não tem nenhum modo multijogador online, o que serviria para prolongar a vida útil do jogo. Mesmo que não fossem adicionados novos modos para preencher o multijogador online, estes dois extras serviam perfeitamente para que o jogo deixasse de ser uma ilha. Tecnicamente, Pikmin 3 é provavelmente o jogo com melhor aspeto na Wii U - se não for o melhor, fica indubitavelmente com um lugar do pódio. Desde a relva à neve, desde o desenho dos frutos e das criaturas à ternura dos Pikmin, estamos perante um jogo que expele charme por cada um dos seus poros do início ao fim da aventura.

Pikmin 3 é um jogo interessante. Enquadra-se fora do espetro que consome uma boa parte dos novos lançamentos atuais e a sua mistura de estratégia com alguma exploração, quase que o coloca num género próprio. Daqui a dois ou três anos podem não se lembrar da história, podem não se lembrar que tiveram que recolher frutos, transformá-los em doses de sumo para alimentar a equipa, podem nem se lembrar do nome das três personagens, porém, dificilmente se esquecerão que no verão de 2013 houve um jogo que serviu para manter acesa a vossa paixão pelos videojogos.