Em vez de se apresentar como uma consola com um “sistema híbrido”, a Nintendo podia muito bem ter vendido a consola com um outro tipo de publicidade. A casa nipónica sempre fez das suas consolas autênticas máquinas para se jogar excelentes obras RPG, como foi, por exemplo a Nintendo 3DS. Pillars of Eternity não é um exclusivo, mas é um tipo de experiência RPG muito específico que não é tão comum no Japão, país de origem da maioria dos grandes obras da consola.

A Obsidian pode não ter o mesmo financiamento para produzir videojogos como as gigantes dos RPG das quais se destacam a Bethesda, a Blizzard ou a BioWare. Porém, é inegável a qualidade dos jogos da produtora liderada por Feargus Urquhart. Ainda hoje, o jogo Fallout reconhecido como um dos melhores é aquele que foi precisamente produzido pela Obisidian - Fallout: New Vegas. Por isso, foi com entusiasmo que os fãs não tardaram a dar a sua contribuição para ajudar a produtora norte-americana a financiar Pillars of Eternity no Kickstarter.

Sete anos depois, o jogo que relançou a produtora californiana chega à Nintendo Switch. É um feito notável por várias razões, sobretudo por ser um jogo tipicamente feito para PC adaptado para uma consola portátil. Pillars of Eternity é uma espécie de olhar sobre os aclamados RPG para PC, baseados em Dungeons and Dragons, onde se destacam grandes clássicos como Planescape: Torment, Baldur’s Gate e Icewind Dale, só para citar alguns exemplos (curiosamente, já estão a ser produzidas novas versões para a consola da casa de Mario).

Pillars of Eternity é uma homenagem à era dourada dos RPG. Neste género continua a haver uma clara ênfase na criação de personagens, num diálogo vasto que leva o seu tempo a amadurecer, mundos enormes que se alargam à medida que os descobrimos e uma narrativa criada com personagens e uma mitologia muito interessante. Este sub-género dos RPG, os CRPG, são frequentemente considerados relíquias do passado, que são reconhecidos como autênticos clássicos de culto. Infelizmente, o tempo não foi abonatório para este tipo de jogos, há muitos processos da jogabilidade que são hoje obsoletos.

Assim, esta adaptação visou dar uma lufada de ar fresco, dando acessibilidade e simplicidade ao género. Vão ter a oportunidade de criar uma personagem só vossa, com características e atributos que, provavelmente, poucas outras pessoas vão repetir, para entrar numa aventura de dimensões épicas. E apesar de ser uma boa adaptação, há alguns pontos menos positivos que marcaram a obra.

Os ecrãs de carregamento são demasiado frequentes e têm uma tendência a serem mais demorados do que deviam. Em média  são cerca de trinta segundos que têm de esperar quando vão para uma área diferente do mapa do jogo. Porém, houve vezes em que tive de aguardar o dobro. É tempo a mais sem se poder fazer nada, principalmente quando estamos perdidos a ir de um lado para o outro. Por exemplo, explorar, pesquisar e visitar certos mercados acaba por fazer aumentar a presença de ecrãs de carregamento o que, por sua vez, aumenta a nossa frustração, visto estarmos ainda mais tempo à espera de jogar.

Igualmente preocupante é a adaptação dos menus complexos, que se descomplicam com um simples cursor do rato. Porém, aqui esse periférico não existe (pelo menos de forma oficial) e é necessário contornar este design com soluções inteligentes. Infelizmente, os menus não resultam como foram idealizados porque os analógicos oferecem uma outra velocidade, ou seja, é bem mais demorado fazer o que queremos nos menus, o que equivale a mais uma dose de frustração. E se jogarem no modo portátil, vão notar ainda mais esta dificuldade de navegação, dada a dimensão mais reduzida do ecrã.

Apesar destes pontos negativos é inegável a experiência genial que Pillars of Eternity oferece. A escrita densa e repleta de detalhes de um mundo original continua lá, a identidade da Obisidian transparece em todas as personagens, como era de esperar. A proximidade que a Switch oferece para os RPG que lá são colocados, para se poder pegar na consola rapidamente para longas sessões, ou várias horas com muitos intervalos até que a bateria termine. Não é preciso estar no conforto de casa para podermos experimentar aquelas combinações de características das personagens e de estratagemas para o combate. A experiência é válida em qualquer sítio.

A versão de Pillars of Eternity para a Switch continua a ser um CRPG fantástico, com uma excelente escrita, combate estratégico inteligente e aberto a várias abordagens e um grafismo que não fica a dever muito às outras versões. Uma muito boa escolha para quem procura um jogo na casa que recheia as suas consolas de grandes RPG.