Revelado sem grande pompa e circunstância, Last Frontier prometia finalmente entregar uma experiência Planet of the Apes de qualidade na indústria dos videojogos. Concluída uma excelente trilogia de filmes que elevou a propriedade intelectual para uma popularidade que não tinha antes do seu lançamento, este enveredar por um meio de entretenimento distinto já fazia sentido há muito, mas isso não impediu que a sua revelação apanhasse meio mundo de surpresa.

Planet of The Apes Imagens

Com o talento do estúdio de capturas de movimentos fundado por Andy Serkis - ator que desempenha o papel de Caesar nos recentes filmes - a ajudar na produção do título, a curiosidade era muita para descobrir como a Imaginati Studios seria capaz de traduzir a experiência oferecida pelas películas em algo interessante de se jogar. A resposta foi, talvez de forma pouco surpreendente, criar uma aventura narrativa de interação minimalista, ou seja, um filme interativo, uma obra em que o jogador tivesse nas suas mãos a tomada de decisão capaz de moldar os acontecimentos retratados no ecrã.

Prontamente integrado na iniciativa PlayLink - não, não é obrigatório jogarem com o vosso smartphone -, que viu recentemente serem lançados vários títulos em solo europeu, incluindo Hidden Agenda, Planet of the Apes: Last Frontier é um jogo na senda de Heavy Rain e Until Dawn, mas ainda mais concentrado exclusivamente na história que pretende entregar. Aqui não existem puzzles, os Quick Time Events são raros e em momento algum o jogador assume o controlo direto das personagens, no entanto, isso está longe de tornar esta obra menos apetecível.

Planet of The Apes Imagens

Pensado e criado para os fãs de Rise, Dawn e War for the Planet of the Apes, Last Frontier volta a colocar uma tribo de primatas e um grupo de humanos em rota de colisão, pedindo ao jogador que seja capaz de gerir este conflito iminente dos dois lados da barricada, seja trabalhando para a paz ou para a supremacia de qualquer uma das fações. Tendo lugar vários anos após a civilização ter colapsado e com o frio do inverno a aproximar-se, humanos e primatas desesperam pela escassez de alimentos e fazem o que podem para sobreviver.

Protegidos no interior de uma cidade bem barricada, os humanos são liderados por Jess, a esposa do antigo líder da comunidade que faleceu recentemente. Com a sua autoridade e capacidade de liderança constantemente a serem colocadas em causa, até pelo próprio filho, o nosso papel passa por tomar as decisões mais difíceis e assegurar, dentro do possível, a prosperidade dos habitantes desta cidade, tarefa que se complica quando dois forasteiros se juntam à comunidade e após o seu gado ser roubado pelos primatas.

Planet of The Apes Imagens

Do outro lado, Bryn é a personagem através da qual o jogador conhecerá e interagirá com os diferentes elementos da tribo. Segundo dos três filhos do líder da tribo, o primata vive no interior de uma montanha, tentando sobreviver e evitando os humanos que os tentam caçar. A impetuosidade do seu irmão mais velho e a necessidade de encontrar alimento acabam por o forçar a atacar a quinta dos humanos e roubar o gado, colocando pela primeira vez as duas comunidades em posições antagónicas.

Sem grandes surpresas e tal como sucede nos filmes, os primatas revelam ser personagens bem mais interessantes que os humanos, explorando temáticas e dinâmicas com maior capacidade para nos cativar do que os mais tradicionais conflitos inerentes à condição humana. É a dicotomia entre o intelecto mais evoluído dos primatas e a tendência de alguns para se manterem fiéis aos instintos animais que os torna particularmente interessantes, algo que no seio do grupo dos humanos não salta tanto à vista.

Planet of The Apes Imagens

Dito isto, Last Frontier faz um bom trabalho em traçar inúmeros paralelismos entre as duas fações desta narrativa, sendo vários os temas que são partilhados pelas duas linhas narrativas. A luta pelo poder, o questionar da liderança, a discórdia no momento de decidir como lidar com as forças opostas, enfim, o jogo procura salientar sempre que pode as semelhanças entre os primatas e os humanos e, de uma forma geral, consegue-o fazer com sucesso. Como não poderia deixar de ser, a sólida performance dos atores que dão vida às várias personagens é indispensável para dar um maior carácter às mesmas e torná-las altamente cativantes.

Ainda assim, nem tudo resulta nesta adaptação de Planet of the Apes aos videojogos. As personagens são interessantes, sim, mas a narrativa peca um pouco pela sua previsibilidade, sendo bastante fácil identificar o rumo que esta vai tomar. Isso serve também para se perceber que as decisões do jogador, salvo algumas exceções já nos momentos finais da obra, são utilizadas mais para moldar as nossas relações com as personagens do que propriamente para influenciar o desfecho do arco narrativo. Last Frontier encaixa perfeitamente como uma adição secundária à trilogia de filmes, infelizmente, isso também significa que percorre terrenos demasiado familiares para quem já os viu.

Planet of The Apes Imagens

No que diz respeito ao departamento técnico, a obra da Imaginati é algo inconsistente. Graficamente poderoso, sobretudo na modelagem das personagens, servindo-se da tecnologia de captura de movimentos utilizada nos filmes, o título não consegue evitar vários problemas técnicos que mancham um pouco a experiência. As animações faciais dos humanos são erráticas e os glitches visuais são frequentes, especialmente nas transições entre cenas que revelam várias texturas a carregarem tardiamente. A framerate também soluça em algumas ocasiões. Por sua vez, a banda sonora tem a qualidade necessária para suportar os momentos mais importantes da aventura.

Planet of The Apes Imagens

Mais do que um bom jogo, Planet of the Apes: Last Frontier é uma boa experiência. A interatividade quase inexistente poderá desagradar aos que pretendiam uma obra capaz de recriar as sequências de ação bombásticas dos filmes, contudo, a sua narrativa é mais do que suficiente para justificar o investimento. Não foge ao registo da trilogia de películas cinematográficas protagonizada por Caesar - o que tem tanto de positivo, como de negativo -, no entanto, as suas personagens e as temáticas que aborda mantêm-nos interessados durante a suas poucas horas de duração.