Filipe Urriça por - Feb 18, 2022

Pokémon Legends: Arceus – Análise

Depois de tantas horas a jogar Pokémon Legends: Arceus sem avançar absolutamente nada na narrativa, posso afirmar facilmente que este é um dos melhores jogos da série. Infelizmente, a parte técnica, nomeadamente a direção artística, não tem estofo para elevar Arceus ao patamar onde estão as mecânicas. Embora tenhamos aqui um jogo com mecânicas muito boas que sublinham a importância de preencher o PokéDex, não temos um grafismo, nem animações com as competências técnicas necessárias para sustentar as ambições desta nova entrada na série Pokémon. O mais triste é que já tivemos provas que a Nintendo Switch tem a capacidade de nos dar mundos ricos em detalhes, bastando olhar para o excelente Breath of the Wild, The Witcher 3 ou o recente Monster Hunter Rise.

Quem é fã de Pokémon e já estava a torcer o nariz às últimas entregas da série e este Pokémon Legends: Arceus é um jogo refrescante em termos mecânicos. Sentimos que temos, finalmente, um jogo Pokémon que está à altura das suas ambições no campo da jogabilidade. É tão revigorante e interessante perdermo-nos numa atividade tão simples como andar à caça de criaturas Pokémon. Este jogo pode estar a decorrer num tempo pretérito da região de Sinnoh, ou seja, no passado de Diamond e Pearl, mas esta é uma obra com os olhos postos no horizonte deste universo que tem estado estagnado nas suas últimas entregas.

Uma das primeiras comparações que se pode fazer com este novo Pokémon é com a série spin-off Mystery Dungeon, dado que controlam uma personagem que vai parar a um sítio de forma abrupta e inesperada, sem sabermos como foi ali parar. Visto que o jogo está desenhado para sermos uma pessoa altruísta, vamos ajudando toda a população do local onde caímos, Jubilife Village, nomeadamente, o grupo Galaxy Team que nos dá como objetivo principal completar o PokéDex. Apesar de estarmos perante os primórdios da interação do Homem com as criaturas conhecidas como Pokémon, nada muda, temos de continuar a apanhar estes animais para a nossa coleção, assim como vemos pessoas a ficar com Pokémon como animais de estimação ou para ajudá-los em vários trabalhos. Obviamente, como é o hábito de qualquer jogo desta série, vamos ter de usar os nossos Pokémon para combater com pessoas que usam os seus para travar o nosso progresso. A grande novidade de Arceus é que os Pokémon que estão em liberdad, no seu habitat natural, podem ter uma atitude agressiva e atacar-nos – e não são os nossos Pokémon que sofrem este ataque, mas sim a nossa personagem.

Outra série com a qual se pode comparar Pokémon Legends: Arceus, estruturalmente, é Monster Hunter, uma produção da Capcom que também partilha similaridades com os títulos da Game Freak. Assim, em Arceus temos uma localidade que serve de centro de operações para as atividades que vamos exercer para lá dos seus portões. É lá que aceitamos fazer grande parte das missões secundárias, é à aldeia que temos de nos dirigir para gerir os nossos Pokémon, assim como visitar várias lojas e conhecer as diversas personagens que compõem o elenco. Quando saímos, somos levados a escolher a região do mapa que queremos explorar, dentro dos seus limites. Isto faz de Arceus um jogo quase open world, só temos liberdade (com limites) dentro do espaço em que optamos para estar, não podemos transitar entre regiões e temos de passar sempre pela aldeia para mudar de região. Imaginem que vão a um safari, não podem ir a qualquer lado, poi  não podem transpor as periferias da zona – em Arceus é exatamente a mesma situação.

Arceus não nos obriga a seguir apenas a narrativa principal, podemos completar pedidos feitos pelos populares e, uma vez terminados, somos devidamente recompensados. Mesmo que queiram estar focados na história de Pokémon Legends: Arceus, não vos convém estar a fazer apenas as missões que fazem a narrativa progredir, porque a vossa meia dúzia de criaturas precisa de subir de nível para ter a capacidade de enfrentar os combates pelos quais vão obrigatoriamente ter de passar. Não necessitam de fazer as missões secundárias, apanhar monstros Pokémon, ou combatê-los, dão-vos os pontos de experiência para os vossos Pokémon ficarem suficientemente fortes e estarem aptos a batalhar contra outras personagens. Contudo, cumprir estes objetivos opcionais enriquece a experiência do jogo e o mundo em que nos encontramos, não é aqui que vamos ficar emocionados, mas é uma narrativa que entretém de forma competente, sobretudo pelas personagens que se cruzam na nossa jornada.

Uma vez fora dos portões da Jubilife Village, vão poder apanhar Pokémon como nunca antes o fizeram. Todas as mecânicas para capturar criaturas Pokémon foram revistas e alteradas, felizmente, para melhor. Na jogabilidade há uma diferença substancial: o ato de caçar Pokémon é feito em tempo real. Ou seja, em Arceus, tocar num Pokémon não vos faz entrar num modo de batalha para o poder capturar. Quando estão num mato, numa zona montanhosa, ou num pântano vão ver animais Pokémon a vaguear de um lado para o outro, sem realizar qualquer tipo de atividade aparente – exceto quando se vê alguns a dormir a sua sesta. Portanto, para apanhar um Pokémon basta atirar uma Poké Bola como se estivessem a disparar um tiro num jogo de ação furtiva na terceira pessoa – até é precisamente no gatilho do Joy-Con direito que se atira a Poké Bola. É de uma simplicidade tal, que fazer isto milhares de vezes não cansa, muito pelo contrário, diverte. E esta diversão existe por haver um grande outro conjunto de mecânicas associadas a esta atividade.

Quando um Pokémon vos vê, acontece uma de três hipóteses: ataca-vos, ignora a vossa presença ou foge. Por isso, se queremos “apanhá-los todos”, como diz o refrão da série animé, temos que tentar uma abordagem mais furtiva para que possamos atirar uma Poké Bola sem sermos vistos, para que não sejamos atacados ou percamos o nosso alvo de vista. Por mais surpreendente que seja, o jogo da Game Freak tem efetivamente mecânicas que nos permitem assumir uma tática furtiva, como a possibilidade de baixar a nossa personagem para andar de cócoras na vegetação mais alta para ficarmos escondidos. Porém, também podem usar outros itens, como bombas de fumo para camuflar a nossa presença e ficarem impercetíveis aos perigosos Pokémon que podem apanhar pelo vosso caminho. Tudo funciona em harmonia para este ser o melhor jogo quanto a atividade entusiasmante que é caçar Pokémon. Preencher o PokéDex nunca foi tão interessante e bem desenhado como em Arceus.

Para preencher o PokéDex com uma nova entrada não basta apanhar um Pokémon para termos o registo completo da criatura em questão, é necessário cumprir uma série de objetivos para a entrada ficar completa. Por exemplo, se apanharem um Bidoof pela primeira vez, é acrescentada uma nova página ao PokéDex, mas para terem as informações todas relativamente a esta criatura, têm de apanhar vários espécimes, apanhar alguns exemplares com um determinado peso e também derrotar várias criaturas da espécie Bidoof. Este sistema de preenchimento do PokéDex, juntamente com as mecânicas para caçar Pokémon, é genial. Pela primeira vez, em toda a série, senti-me motivado para completar um PokéDex, de tão divertido que é “apanhá-los todos”.

Como já devem ter visto em vídeos promocionais, há certos Pokémon que vos atacam, por isso é preciso ter muita cautela, sobretudo porque há umas criaturas que são muito mais perigosas do que outras. Quando virem um Pokémon com olhos vermelhos e uma atitude ameaçadora, o melhor é afastarem-se dele porque é muito provável que vos deixe sem sentidos em dois tempos – a não ser que estejam preparados para este tipo de encontros. Se quiserem apanhar os intitulados “Pokémon alpha” vão ter que estar muito bem prevenidos, com a algibeira cheia de Potions, Revives e Poké Bolas, preferencialmente, que sejam Great Balls. Normalmente, o nível destes Pokémon alpha é muito superior ao dos vossos seis companheiros, o habitual é estar acima do dobro. Ou seja, se os vossos Pokémon estiverem no nível vinte ou trinta, é bastante provável que os alpha que encontrarem estejam entre o nível quarenta e sessenta. Portanto, um golpe bem aplicado numa das vossas criaturas arruma-a para canto de uma vez só e nem precisa de ser um ataque com dano “super effective”. Sim, este é o jogo Pokémon mais exigente de toda a série.

Por falar em dificuldade, porque é um aspeto que se nota bem em Arceus comparativamente a outras entradas da série, como o recém lançamento duplo Shining Pearl e Brilliant Diamond. Em Pokémon Legends: Arceus os vossos Pokémon vão sofrer bastante com os combates que vão realizar. Se não estiverem bem abastecidos com itens que vos permitem restabelecer a saúde dos vossos Pokémon, acabam por fazer várias viagens de urgência ao acampamento para um descanso bem merecido. Um Pokémon aparentemente normal, mesmo abaixo do nível médio dos elementos da vossa party, pode tornar-se um problema se este tiver golpes que sejam antagónicos ao tipo do Pokémon que estão a usar. Nunca se esqueçam que há certos Pokémon que podem utilizar técnicas que parece não serem capazes de usar, como por exemplo o Ice Beam, um ataque de gelo que provoca danos consideráveis a criaturas do tipo Flying, Grass, Ground ou Dragon.

Este aumento considerável na dificuldade, que é bem-vindo, tem um propósito óbvio em Arceus. Neste jogo há outra novidade que faz sentido existir: podem criar as vossas próprias Poké Bolas, poções e toda uma diversidade de itens através de um sistema de crafting. É incrível pensar nisto, mas este sistema de mecânicas, popularizado por jogos de sobrevivência como Minecraft, faz todo o sentido estar aqui. Assim, para realizar o tão importante crafting, ou seja, criar novos materiais a partir de outros, convém recolher recursos que a natureza nos fornece. Quando estão a caminhar para ir a um determinado local, é útil lembrarem-se de estar atentos ao que está nas redondezas para apanharem tudo o que puderem para recriar as diferentes receitas que aprenderam, pois há itens bastante úteis para uma aventura mais rica. Andar à caça de Pokémon nem sempre é fácil, apesar das excelentes mecânicas presentes, ter um item que silencia a nossa aproximação facilita-nos o processo de captura da criatura que marcamos como alvo. Visto que há uma maior possibilidade de a capturar desprevenida, há menos hipóteses de escapar da Poké Bola nos momentos imediatamente a seguir a ter sido tocado por uma.

Mecanicamente, a nova obra da Game Freak é irrepreensível. No entanto, quanto à direção artística há várias críticas a tecer. Arceus não é um jogo bonito nem visualmente interessante, tem os seus momentos que simula bem um animé, mas são uma exceção à regra. Houve jogos da série que já conseguiram fazer mais com menos, em termos gráficos – veja-se o exemplo de Pokémon X/Y que é um dos mais bem realizados da 3DS. Não é por tentar entrar num formato open world que a produtora tem desculpa para se descuidar tanto na apresentação. O mapa é quase todo composto por planícies e algumas encostas, pautados com algumas árvores e vegetação rasteira, não esperem ver grandes detalhes como a Capcom fez em Monster Hunter Rise. Se estamos a capturar animais no seu habitat natural, também é pena não terem dado mais animações aos Pokémon para lhes conferir comportamentos mais orgânicos e naturais do que simplesmente reagir à nossa presença. O que se salva do grafismo são os bons modelos dos Pokémon e das personagens que parecem ter saído de um animé do qual nunca deveriam ter saído.

Felizmente, a música desta nova entrada na série Pokémon é muito boa. Há várias faixas que nos mantêm focados na ação a decorrer, sobretudo nas batalhas contra outros treinadores e lutas com Pokémon poderosos que são uma espécie de mini bosses. Porém, na parte da sonoplastia, o que se sobressai não é a boa música, mas o facto de um jogo RPG Pokémon querer ser um animé e não ter uma única personagem com vocalização. Estamos em 2022 e ficava minimamente bem a um jogo com a magnitude de Pokémon ter personagens com vozes, senão deviam ter dado ao jogo uma apresentação ao estilo de um visual novel para disfarçar esta lacuna. Até as obras da Level-5, uma produtora com um músculo financeiro muito menor que a gigantesca The Pokémon Company, têm vocalização em vários idiomas.

Pokémon Legends: Arceus, apesar de estar aquém do esperado na direção artística, é uma enorme conquista da Game Freak para ser devidamente apreciada pelos jogadores que tanto desejavam uma reformulação nos RPG de Pokémon. Aqui temos o primeiro vislumbre da evolução que a série precisava há vários anos, aliás, era assim que o primeiro jogo Pokémon deveria ter sido na consola híbrida da casa de Quioto e não o que foi entregue em Sword e Shield – pois ainda tem muitos conceitos de game design da portátil 3DS. Sinceramente, Pokémon Legends: Arceus vale bem a pena pela diversão que proporciona a completar o PokéDex. Não é necessário refletir muito para sabermos que este foi sempre o propósito dos jogos Pokémon: colecionar criaturas que combatem ao nosso lado. Assim, afirmo com uma enorme facilidade que Arceus é o melhor jogo da série para capturar Pokémon e encher o nosso PokéDex. Já não me lembro de um jogo em que a repetição é algo que não aborrece mas, pelo contrário, diverte.

veredito

Este título é uma autêntica revolução na fórmula dos RPG Pokémon que já estava a ficar datada. Capturar criaturas Pokémon nunca foi tão bom.
8 Mecânicas fantásticas. Capturar Pokémon é muito divertido. Introdução de furtividade. Grafismo frouxo.

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Pokémon Legends: Arceus

para Nintendo Switch

Série regressa à região Sinnoh e introduz novas mecânicas de jogabilidade.

Lançado originalmente:

28 de janeiro, 2022