Paul Bowles escreveu sobre as viagens que foi fazendo ao longo da sua vida que "quando não se sabe porque se gosta de uma coisa, normalmente vale a pena ficar". Vamos fazer um exercício anódino: vamos esquecer por momentos que Pokémon X e Y são jogos na sexta geração de uma linhagem que se estreou no Japão em 1996 e vamos obliterar todas as longas sessões que lhe dedicámos ao longo de décadas. A primeira impressão com que se fica, depois de escolher o sexo e o nome da personagem é que se gosta deste mundo por tantos motivos que é difícil apontar o dedo a apenas um deles. Como Bowles tão bem escreveu: há uma empatia e um bem-estar tal, que vale a pena ficar, vale bem a pena ficar.

O primeiro impacto com Pokémon X e Y é como uma quente bolha de serotonina que quase nos coloca a mão na bagagem e a comprar um bilhete de ida para o mundo de Kalos, onde se desenrola o jogo. Ancorada na cidade de Lumiose, a aventura andará à sua volta, levando o jogador a explorar um mundo rico em pormenores e pontos de interesse. O mundo do jogo evoluiu, mas a história continua a jogar muito pelo seguro. Recrutado pelo Professor Sycamore, o jogador terá que completar o Pokédex acompanhado por quatro amigos. A GameFreak parece querer assegurar-se que o jogador nunca se esquece que está num jogo Pokémon, portanto, pelo caminho terão que procurar, encontrar e deixar ginásios com um líder derrotado pelo miúdo de Vaniville.

A GameFreak foi inteligente e conseguiu oferecer um jogo em escada, ou seja, se forem veteranos por estas andanças o jogo nunca chega a ser demasiado simples que percam o entusiasmo e a motivação para continuarem, por outro lado, se forem novatos - qualquer um tem que ter o seu primeiro Pokémon - o jogo não se apresenta como se fosse uma parede intransponível. Estes degraus que menciono na primeira frase deste parágrafo têm a altura perfeita para que o início da subida tenha uma cadência suave e progressiva: ninguém vai sentir a necessidade de querer subir três degraus de uma vez só e ninguém vai ficar intimidado. Parte deste arranque inspirado que menciono depende ainda do ritmo do jogo. As primeiras horas são intensas o suficiente para que o factor novidade nunca seja ofuscado por um passo lento. Na prática, isto significa que ainda com o relógio de jogo incapaz de contar dezenas de horas, o jogo já vos presenteou com uma amostra das várias funcionalidades que vai aprofundar daí em diante. Terão apanhado vários Pokémon, terão derrotado o líder de um ginásio e terão ganho dinheiro nas batalhas para comprarem algo nas inúmeras boutiques e cafés disponíveis - o que permite pela primeira vez na série a personalização da vossa personagem - ou aprendido a usar os patins em linha, facilitando a vossa locomoção pelo universo do jogo.

Sem nunca cortar amarras com o seu passado, Pokémon X e Y são pródigos em novidades, algumas delas a delinearem um sistema de combate mais dinâmico e mais envolvente. Uma das novidades dá pelo nome de Mega Evoluções e é exclusiva dos combates, ou seja, evoluem o Pokémon enquanto estiverem a disputar uma vitória e o mesmo regressa à sua evolução base quando estiverem despachados. Nem sempre será possível recorrer a este tipo de evolução, pois é necessário que ele esteja equipado com um determinado item especial e - pessoalmente, uma das condições mais interessantes em termos estratégicos - apenas um Pokémon poderá mega evoluir, o que coloca por diversas vezes o jogador entre a espada e a parede enquanto faz a escolha que lhe parece mais acertada para aquele determinado cenário de batalha.

A Game Freak, produtora do jogo, sabia perfeitamente que esta novidade seria uma das mais badaladas, portanto é com muito bom agrado que constato que serão dadas aos jogadores as ferramentas necessárias para que, com o tempo necessário, deixem brilhar a sua habilidade com o jogo, ou seja, à sexta geração da série, as batalhas são muito menos estanques que anteriormente. Um exemplo deste tipo de controlo e conhecimento? Quando usada, a Mega Evolução altera o tipo do vosso Pokémon. Isto pode parecer apenas um detalhe para variar a jogabilidade, mas é bastante mais que isso, pois é a porta de entrada a uma nova dimensão em tudo o que é estratégia no jogo. Novamente, Pokémon X e Y coloca em cima da mesa opções mutáveis para que o jogador de oito anos se divirta e para que o veterano, dez ou vinte anos mais velho, nunca perca a sua concentração.

Menos individualizado, outra funcionalidade que vi com bons olhos é a partilha da experiência ganha por todos os membros da equipa, tornando a evolução muito mais dinâmica e homogénea. O ecrã inferior da portátil da Nintendo serve quase como um assistente pessoal, pois é lá que se encontra, por exemplo, o Amie e o Super Training. Enquanto este último é outro passo dado pela série na facilitação da vida ao jogador, pois agora é possível consultar os valores de cada Pokémon e treinar diretamente aquilo que querem melhorar. O Amie é, a par das já mencionadas Mega Evoluções, uma das funcionalidades que mais celeuma levantou durante a caminhada até aqui.

Podem não conhecer o nome, todavia, se eu disser que é a capacidade de fazer festas, brincar e alimentar os vossos Pokémon, provavelmente já sabem do que estou a falar. O maior propósito desta funcionalidade - que não destoava em Nintendogs - é fortalecer os lanços entre vocês e as vossas "feras".

Importa ainda mencionar o Player Search System (PSS) - usem-no e nunca mais estarão sozinhos. Será através do PSS que os jogadores poderão batalhar entre si, fazer trocas e usar e abusar das funcionalidades SpotPass e StreetPass da consola. Existem inúmeras surpresas que não podemos revelar, por respeito à Nintendo e à produtora do jogo que passou os últimos anos a preparar o jogo. Portanto, fica apenas a menção ao modo online e na aposta da produtora em incluir estas funcionalidades nos jogos, prometendo aumentar não só a sua longevidade como o ensemble social transversal à experiência toda.

Esta revolução que tanto apregoei durante a análise não se queda apenas pelo espartilhar de toda a componente estratégia do jogo ou pela inclusão de medidas multijogador que retiram qualquer dúvida da chegada da série ao século vinte. Tecnicamente, Pokémon X e Y ficarão na história como os primeiros jogos a oferecerem um mundo 3D. Não só uma decisão bem pensada como muito bem executada - pessoalmente acho que estamos perante o mundo mais detalhado e mais vivido da série. Não falo apenas dos cenário, mas também da modelagem das personagens, que parecem ganhar um novo fôlego estético com esta abordagem - seja na sua forma normal ou no resultado das suas evoluções, sobretudo, na já mencionada Mega Evolução.

Porém, existem algumas decisões que deixaram muito a desejar. A funcionalidade 3D raramente é usada no mundo de jogo, estando reservada para os combates. Ainda que nestas ocasiões esteja muito bem conseguido, dividindo o espaço que separa o atacante do atacado em camadas, é uma desilusão a sua ausência nos cenários onde vamos passar uma grande parte da odisseia. Em modo de combate, apesar de parecer muito apelativo, os visuais causam uma fricção técnica que se ressente na framerate, fazendo com que a mesma caia a pique. É um infortúnio que vem provar novamente que no melhor pano cai a nodoa. Esta situação, ainda que ocasional, nunca deixará de ser uma pedra no sapato de toda a fluidez descrita até aqui.

Aqui estamos, a estreia de uma das séries cronológicas mais extensas chega finalmente à geração atual de consolas portáteis da Nintendo. Depois de largas horas com os dois jogos, a minha opinião é X e Y provam que é possível inovar sem romper com o legado construído ao longo de décadas. As novidades são muitas e quase todas bem conseguidas. Novos Pokémon, um novo tipo - Fairy -, tecnicamente contemporâneo, enfim, uma panóplia de pontos cumpridos pela Game Freak. Sinto, sobretudo, que estes dois jogos fazem com que a série continue significativa para o público de diversas idades.

Tudo o que descrevi até aqui - caso não queiram ler o texto completo - pode ser sintetizado nesta frase: Largos anos depois da série se ter estreado, entregar um par de jogos que conquistam novos jogadores e mantêm os inveterados interessados, é um feito que catapulta Pokémon X e Y para os jogos 3DS mais recomendáveis do ano.